OPINIÃO

Somos todos caminhoneiros, como já fomos tanta coisa antes

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Testemunhei muitos amigos e amigas nesta semana empunhando com orgulho cívico e algum fervor a frase Somos todos Caminhoneiros, fazendo alusão à greve/paralisação da categoria que mexeu com o país durante toda a semana.
 
Não vou me deter sobre o movimento em si, poderoso, mas confuso. Já tratei por demais dele nas redes sociais ao longo dos dias. Minha atenção nestas mal traçadas linhas é sobre a postura do chamado brasileiro médio diante do foto.
 
Como dito no primeiro parágrafo, vi gente querida trocar as fotos de capa das redes pelo desenho do caminhãozinho estilizado e a hastag #SomostodosCaminhoneiros. Muito justo o pessoal se solidarizar com a categoria e com a luta deles contra o aumento dos combustíveis (na verdade a bronca dele era com o diesel, mas, aí é outra história).
 
Mas forcei a memória e recordei que muitos dos amigos que levantaram a bandeira do Somos Todos Caminhoneiros já bradaram Somos todos Cunha, referindo-se ao empenho do hoje presidiário e à época de 2016 todo poderoso presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha para derrubar do poder a então presidenta Dilma Rousseff.
 
Mesmo pessoal que por sinal também embarcou na frase “Não tenho culpa, votei no Aécio”, referindo-se a não compactuar com Dilma Rousseff então presidente da República ameaçada pelo afastamento, o que acabou acontecendo. Mas, o que aconteceu também foi o inferno astral do senador Aécio Neves, envolvendo em investigações e denúncias de corrupção e hoje um cadáver político. Mas, o pessoal que usava a camisa  “Não tenho culpa, votei no Aécio” prefere não lembrar mais desse fato.
 
Frases de efeito, aliás, são uma constante nesses novos tempos de protestos virtuais. Quem não se lembra do “Je suis Charlie”, referente ao assassinato de chargistas franceses por radicais islâmicos. Ou do bordão “Minha bandeira jamais será vermelha”, referência ao sentimento antiComunista requentado nestes dias que seguem. “Vai para Cuba” já virou humor de tão usado e sem sentido. 
 
Então se Somos todos Caminhoneiros hoje e já fomos Cunha, Aécio e em um passado não muito distante já fomos Collor, entre outros, o que mais seremos no futuro? Que pensar de um grupo de brasileiros que migra política, ideológica e circunstancialmente como quem troca de roupa e adere a bandeiras e frases feitas sem questionar nem pesquisar?
 
Seremos todos caminhoneiros? Por que não? Já fomos tanta coisa mesmo.
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