OPINIÃO

Sonhos de faroeste

Carlos Fialho escreve às segundas-feiras na agência Saiba Mais

Dizem os mais experientes e sagazes que crise e oportunidade andam de mãos dadas. É justamente quando os recursos rareiam e a fartura só existe nos saudosos relatos de um tempo tão remoto quanto irrecuperável que se destacam os mais notáveis, diferenciados e atentos seres humanos. São homens e mulheres que antecipam movimentos, que percebem antes quais tendências seguir, ou melhor: quais tendências ditar.

Com a situação caótica da segurança pública em todo o Brasil, muitos cidadãos têm tentando se aproveitar do desespero geral para jogar o anzol, plantando verde para colher maduro, tentando fazer prevalecer uma tese que, por mais ilógica que pareça, possa soar natural com o mínimo de argumentação possível, em meio a um senso comum obtuso, inebriado pela busca incessante de uma saída para a situação complicada em que nos encontramos.

Representativos setores da classe média e da elite brasileira, ante a reiterada incapacidade estatal para resolver o problema, tem lançado a tese de que o melhor caminho para reverter o quadro seja liberar o porte de armas para que a sociedade civil possa, ela própria, fazer o que as polícias civil e militar, mesmo com treinamento e dedicação exclusiva, não têm conseguido: combater a criminalidade, reduzindo assim, a violência.

Tal qual um excêntrico palpiteiro que sugere apagar um incêndio tacando álcool no epicentro do fogo, os defensores da tese argumentam candidamente que o aumento da oferta de armas de fogo contribuiria decisivamente para a redução no número de homicídios no RN.

Em geral, as teses vêm acompanhadas de comparações descontextualizadas com outros países, como os Estados Unidos, meca do bangue-bangue, terra onde ter uma arma em casa é traço tão inerente à identidade nacional quanto o Mickey, a Coca-cola e a obesidade mórbida. Os favoráveis à liberação dizem que lá, onde não existe estatuto do desarmamento, mata-se menos que aqui. É verdade. No entanto, a fragilidade desta argumentação reside no fato de que: 1- esta não é a única diferença entre estes dois países; 2- muitas nações com legislação limitadora de acesso às armas tão rígidas quanto a nossa também cometem menos assassinatos que nós; 3- mesmo matando muito menos que nós, a oferta de armas na terra do Tio Sam estimula que muitas chacinas sejam cometidas em escolas e universidades de lá, o que dificilmente ocorreria se não fossem os fuzis, pistolas automáticas e metralhadoras adquiridos sem maiores restrições e munições comprados até mesmo no Wall-Mart. Tais contrapontos, porém, não figuram em seus discursos por não corroborarem o Realismo Fantástico da retórica armamentista tupiniquim.

Os bélicos conterrâneos sustentam que as pessoas de bem deveriam ter acesso às armas, de forma que possam se defender dos bandidos e criminosos organizados, todos eles muito bem munidos de variado arsenal. Analisemos friamente a situação, fazendo um breve exercício de causa e consequência e, com muito boa vontade, revelando-nos como indulgentes, generosos e beligerantes que somos, suponhamos que exista este mito contemporâneo brasileiro, foragido da obra cascudiana, o tal Cidadão de Bem, um ser dotado dotado de reputação ilibada e firmeza de propósitos, que demonstra indignação e alegria de viver, que flana por aí, com samba no pé e panela na mão.

A narrativa reinante é que, numa situação ideal, a posse de armas por estas pessoas inibiria a ação dos bandidos que, por medo de serem mortos, acabariam cometendo menos crimes e matariam menos. Tal estado de coisas seria possível graças à morte de um punhado de bandidos pelas mãos heroicas de alguns cidadãos de bem que brava e diligentemente puxassem o gatilho pelo bem comum e em nome da paz social.

Ok. Este é o roteiro traçado e alentado pelos crentes da teoria. Se funciona nos filmes de Charles Bronson, Vin Diesel e nos melhores faroestes, por que não na terra dos Albuquerque Maranhão? Mas… e os imprevistos? E os desvios possíveis?

Uma pessoa de boa índole, sem antecedentes criminais, mas falível como todos nós, um dia poderia fazer uso da sua arma contra alguém, movida por impulso numa situação que não seja de autodefesa, mas de desentendimento cotidiano e acabe por matar o desafeto, seja numa briga de trânsito ou no desenrolar de uma discussão anterior, iniciada, por exemplo, nas redes sociais. Em que sentido a sociedade estaria mais segura diante desta possibilidade?

As estatísticas, aliás, apontam que a maioria das mortes por arma de fogo no Brasil se dá por razões banais. E mesmo que o uso de armas se dê exclusivamente em situações de resposta a abordagens criminosas, como se imagina que haveria menos mortes se mais tiros estariam sendo disparados? Um caso flagrante de morte de inocente provocada por reação a assalto ocorreu em um ônibus de Natal, há poucos meses.

Bandidos quando se dispõem a praticar crimes vão preparados para surpreender, atirar se for preciso, apresentando prática e intimidade no uso do armamento. Enquanto um civil, em geral, é pego no contrapé, obviamente desavisado, estando à mercê de quem domina melhor o objeto que vem a ser o seu instrumento de trabalho.

Diante de tais evidências, concluí que não é a paz que buscam os defensores da revogação do estatuto do desarmamento, pelo contrário. O que eles reivindicam é o seu quinhão de guerra, um papel decisivo a desempenhar no front, uma participação importante na batalha que estamos travando. Não se quer sossego, nem justiça. O que se quer é vingança e o protagonismo narcísico neste fogo cruzado que testemunhamos.

Na série WestWorld, da HBO, um mundo temático é criado para que as pessoas possam vivenciar uma experiência de faroeste, andando armadas em meio a uma sociedade caótica, onde os agentes da lei não dão conta de inibir a bandidagem e as pessoas são livres para portar armas e, claro, matar.

Se a atração mostrada em WestWorld tivesse lugar no Brasil, acredito que seria um estrondoso sucesso, pois atenderia uma demanda reprimida de violência, de derramamento de sangue. Porque, para mim, poucas retóricas me parecem tão esquizofrênicas quanto o malabarismo argumentativo protagonizado pelos defensores da liberação de armas de fogo no Brasil.

Não sei se isso é carência de adultos que cresceram jogando “Conter Strike” ou resultado da frustração e medo cotidianos alimentados por relatos violentos. Seja o que for, a verdade é que essa história de marmanjos quererem brincar de “polícia e ladrão” ou realizarem seus sonhos de faroeste tem tudo pra acabar mal.

 

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo
Avatar
Carlos Fialho é escritor, publicitário, jornalista e escreve às segundas-feiras