OPINIÃO

Sou Botafogo

Ainda bem que me apareceu Conrado e, claro, seu filhote vestido com a camisa do Glorioso. Os tolos botafoguenses amantes costumam se derreter com esse tipo de coisa. Pequenas particularidades que só nós botafoguenses entendemos, pedindo perdão pela petulância. Engasguei com a foto do pequenino Ernesto, feliz, orgulhoso, com a linda estrela amada no peito. Foi por graça dele que esqueci de querer escrever sobre os bolsominions, aecistas arrependidos e até dos tucanos de rabo caído, bico torado,  instalados no governo Fátima Bezerra ou no ranço, gosto amargo que ainda fica na boca sempre que me lembro do episódio do psicopata homofóbico, misógino, mal amado e completo ignorante. Gracias, Conrado, valeu Esnestito!!!

Vou falar de meu Fogão, resolvi, é melhor para minha alma, meu coração que já precisa de venenos químicos para não pifar. E olha que faz tempo que não brigo, e nem sofro, confesso, pelo meu time carioca que aprendi a gostar quando escutava Valdir Amaral falar o nome de um tal de Mané Garrincha. Foi a partir dele que tudo começou. Foi por culpa daquele Anjo das pernas tortas, acreditem, foi ele que injetou em minhas veias essa doença chamada futebol e, a partir daí, nem bombeiro, médico, vaqueiro, astronauta, porra nenhuma, eu queria, eu sonhava ser  jogador de futebol, e por isso andei levando bombas e porradas de “Seu” Sinedino porque a escola deixou de ser meu lugar preferido.

Certo dia, eu acho que tinha 13/14 anos, andando pela rua, livro debaixo do braço, com a cabeça nas nuvens, sem perceber, narrava, em voz alta (repetia essa doidice quase todos os dias ), a minha estreia no Maracanã, com a camisa de número 7, imortalizada pelo rei dos dribles. Eu, no sonho, descoberto em Natal jogando de ponta direita, no time do Atheneu, treinado por Artur Ferreira, seria o substituto de Garrincha, estava na cara. Assim falavam os emissários do Botafogo que vieram me ver jogar. A cena já é o Maracanã lotado, dia de clássico contra o Vasco da Gama. A semana toda a imprensa falando do jovem talento que veio de Natal, 16 anos (exagero da gôta, idade de Edu, mais novo que Pelé), ponta direita driblador, craque que, segundo Nilton Santos e João Saldanha, dois grandes botafoguenses, seria, estava na cara, o substituto de Mané.

A cena seguinte já é o Maraca. Entrevistas, elogios pelo falar fácil (convencido) e pela personalidade. Cena 2: o jogo: Eu pegava na bola, marcado pelo lateral do Vasco (minha vítima preferida), que não me levava em consideração, ele jogador de seleção, um simples pontinha vindo do Nordeste. A voz subia o tom, e era Waldir Amaral que narrava,  “Edmo, garoto bom de bola, recebe a bola rente à linha lateral, ele pára, finge que vai volta o lance, dança sobre a pelota, arranca com velocidade impressionante,  passa pelo primeiro, dribla o segundo marcador, com ginga de corpo tira o terceiro da jogada, entra na área, faz que chuta, o goleiro cai, ele passa também pelo arqueiro caído  e goooooooooooooooooooooooooooooooooooLaço, enlouquece a galera do Fogão no Maracanã”…nas nuvens, gritando gol desesperadamente, nem noto a velhinha passando ao meu lado, cutuca o marido e fala: “tão novo meu Deus, falando só”. Fiquei mudo, envergonhando, atravessei a rua correndo, enquanto os dois ainda riam de minha loucura.

E foi assim por anos e anos, sempre sonhando com o apogeu de vestir a camisa do Botafogo, sonho que nunca realizei, mesmo tendo desistido de ser ponta direita, o sucessor de Manoel dos Santos, indo jogar no meio-campo. Passei minha infância quase toda, adolescência travando duelos ensandecidos nas esquinas das ruas Apodi com Voluntários da Pátria, centro da Cidade Alta. Duelando contra flamenguistas e vascaínos, principalmente, dizendo horrores de Zico e Roberto Dinamite. Gente, eu tinha tanta raiva do Vasco que até quadrinhas desmoralizantes eu escrevia sobre Roberto Dinamite. E Zico, sabem como eu tratava o “Galinho”? De pipoqueiro, quando o elogiavam eu dizia logo que ele amarelava, que nunca ganharia nada. Claro, sobre Zico eu mudei completamente de opinião, mas isso já adulto. Quanto ao Dinamite, confesso, até hoje, ainda não muito. Imaginem vocês meu sofrimento quando artilheiro do Vasco marcou aquele gol antológico do chapéu em Osmar, dentro da área. Fiquei sem vontade de sair de casa, me esconder, sumir do mapa, mas não o fiz. Também, se o fizesse, os caras iam me buscar em casa.

E ainda hoje, muitas coisas me fazem chorar, uma delas, copiosamente: os vídeos dos dribles, jogadas e gols de Garrincha. Claro, nunca vou chegar ao exagero de considerá-lo melhor que Pelé, mas é que ele era a “Alegria do Povo” tinha essa diferencial. Garrincha jogando e as gargalhadas rolando na geral do Maracanã. Aquele semideus em campo, menino no trato, no sorriso, no dia a dia, nas bobagens que fez ao longo da vida, do aceitar sem reclamar as imposições criminosas de cartolas, que o obrigaram, muitas vezes, a jogar sem condição nenhuma, apressando o final de sua carreira. Garrincha era tão “tudo” para mim, menino, rapazote apaixonado que, mesmo no final de sua carreira, arquejando, se arrastando em campo, eu esperava a explosão, o ressurgimento, e a cada lance que ele pegava na bola esperava novamente ele fazendo seus adversários, todos, de “João”. Nenhum jogador me fez amar tanto o futebol, quanto o moleque de Pau Grande.

Encerrando, voltando à nossa realidade. Sinceramente, nem acreditava mais de ver os times brasileiros jogando como Bota de Garrincha e Cia, depois o mesmo Bota de Paulo César, Jair, Roberto Remendado Miranda, Carlos Roberto e Gerson, nem como o Santos de Pelé, o Cruzeiro de Tostão, o Palmeiras de Ademir da Guia, ou mesmo alguns mais recentes bons times no futebol do Brasil. Aí, me aparece esse Flamengo de Jesus…faço de conta que é o meu Botafogo que fazia a alegria do povo mais humilde do Rio de Janeiro e vou no embalo dessa torcida torcendo para que eles ganhem Brasileiro, Libertadores e o Mundo, devolvendo ao Brasil o respeito perdido.

 

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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