OPINIÃO

Styvenson é fruto da utópica e desastrosa ideia da “não-política”

Lembro como se fosse ontem: Campanha eleitoral de 2018, polarização nacional entre Bolsonaro (que liderava as pesquisas com Lula preso) e o PT (com Haddad) com o antipetismo exacerbado. No Rio Grande do Norte, com Fátima Bezerra (PT) liderando as pesquisas na frente de Carlos Eduardo, que flertava com o bolsonarismo para reverter o quadro, as emoções foram colocadas na eleição para o senado com o então senador e ex-governador Garibaldi Alves Filho tentando reeleição e o ex-senador e também ex-governador Geraldo Melo tentando voltar a Brasília.

Recordo também dos muitos amigos e conhecidos que cansados da “velha política” se recusaram a votar em Garibaldi e Geraldo. Compreensível, estavam cansados das velhas raposas políticas, líderes de oligarquias que pareciam eternizados em cargos. Daí procuraram algo  “novo”. E foi assim que à reboque única e exclusivamente de visibilidade na coordenação de blitzen de lei seca o então Capitão Styvenson Valentim (à época no Rede, da Marina Silva) foi eleito com 745.827 votos (ou 25,63% do total para o Senado). A outra eleita, Zenaide Maia teve 660.315 votos. Geraldo Melo ficou em terceiro, bem atrás, com 382.249 votos, e Garibaldi Filho amargou 376.199 votos.

Totalmente compreensível a rejeição do eleitorado potiguar às oligarquias e nomes antigos na política. Mas as reflexões e dados acima me vieram a mente quando li muitas pessoas nas redes sociais se perguntando como foi que uma pessoa como Styvenson pode ter sido eleita.

Antes vamos atualizar os fatos: Styvenson, já conhecido pela truculência como se expressa e posiciona desde que eleito, em uma semana conseguiu agredir verbalmente, ofender e debochar de mulheres agredidas. Primeiro quando em transmissão de vídeo o senador disse ‘Sei lá o que essa mulher fez para merecer os tapas’, sobre agressão de PM contra vítima de violência doméstica no município de Santo Antônio, no interior potiguar. Dias depois, em outro vídeo, debochou da agressão sofrida pela deputada federal Joice Hasselmann. “Aquilo ali, das duas, uma. Ou duas de quinhentos [Styvenson levou as mãos à cabeça, simulando chifres] ou uma carreira muito grande [inspira, como se cheirasse cocaína]. Aí ficou doida e pronto… saiu batendo em casa”, disse o senador.

Nos dois episódios a reação foi imediata. O primeiro recebeu repúdio da imprensa e da opinião pública potiguar. Já o segundo está ganhando proporções bem maiores. Joice  registrou, nesta segunda-feira (26), boletim de ocorrência contra Styvenson Valentim por injúria, calúnia e difamação. A congressista afirmou que irá até o fim no Conselho de Ética para que o parlamentar tenha o mandato cassado.

Os dois episódios que ilustram bem a postura do senador – misogina, machista e agressiva – levam a refletir sobre como a percepção de que outsiders ou pessoas que jamais exerceram mandatos seriam, digamos, melhores do que “os velhos políticos” pode ser errônea.

Vale salientar que embora fosse deputado federal omisso e medíocres por trinta anos, Jair Bolsonaro se elegeu presidente em 2018 justamente com essa narrativa, de que fazia parte de uma “nova política” sem corrupção e sem velhos vícios, para enterrar de vez  – na visão desta narrativa – a tal corrupção do PT e a velha política, contexto na qual Garibaldi e Geraldo estavam inseridos e que foram limados exatamente para dar vez às  ́novidades`. Como Styvenson e a própria Joice, esta em São Paulo.

Da mesma maneira que com Eduardo Cunha sentimos saudades de Henrique Alves (primo de Garibaldi) na presidência da Câmara e com Bolsonaro também sentimos saudades de Michel Temer como presidente da República, com uma pessoa como Styvenson no Senado (e até 2026 se não for cassado por quebra de decoro) acabamos saudosos de Garibaldi e Geraldo. Com todos os vícios políticos e projetos pessoas-familiares que ambos tinham e ainda têm.

Não adianta afastar a chamada velha política para colocar em seu lugar uma “novidade” que pode se mostrar pior, justamente porque a política – na acepção da palavra e mesmo no cotidiano parlamentar – é necessária. Assim como a Democracia, não é perfeita, longe disso, mas é o melhor que temos, melhor que as demais alternativas. Investir na “não-política” é uma utopia. E quase sempre desastrosa.

Styvenson não faz e não fará política, até porque foi eleito sem fazê-la. Como diz um amigo meu, o RN elegeu alguém para o Senado porque pegava bêbados em bafômetros e publicizou isso.

Styvenson entra na linha dos não-políticos como Jânio, Collor e Bolsonaro se venderam em suas narrativas forjadas. Está sendo e será um fardo civilizatório para o Rio Grande do Norte e para o país em tempos de barbárie, uma barbárie que ele parece adorar e onde chafurda.

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo

1 Comment

  1. É bom não esquecermos o episódio em que o senador valentinho, tripudiou, constrangeu, humilhou e expôs publicamente a própria irmã, que teria pleiteado o auxílio emergencial do governo devido a pandemia, mesmo não existindo impedimento legal para o pleito por ser irmã de um senador, sacripantas esse sujeito.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *