CIDADANIA

Suicídio: tabu, adoecimento mental, sofrimento e injustiça social orbitam o tema

O Setembro Amarelo é uma campanha prolongada de prevenção ao suicídio e para falar sobre isso o Programa Balbúrdia recebeu nesta quinta-feira (30) a psicóloga e mestranda do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFRN Vanessa Morais. Ela trabalha especialmente com as temáticas do suicídio e saúde mental da população LGBTI+.

O Brasil registrou quase 13 mil suicídios no Brasil em 2020. O número de pessoas que tiraram a própria vida ao longo do ano passado no Rio Grande do Norte aumentou 11,06% em comparação com 2019. Em números absolutos, cujo levantamento foi feito pelo Instituto Santos Dumont (ISD) junto ao Observatório da Violência do Rio Grande do Norte (OBVIO/RN), foram 226 lesões autoprovocadas em 2019 contra 251 em 2020.

Cerca de 96% dos casos estão relacionados a transtornos mentais. Mas Vanessa Morais alerta que há outros fatores que contribuem para esse desfecho. Questões da contemporaneidade têm favorecido o quadro. Cobrança por produtividade, não investimento do governo em políticas públicas de saúde mental, desemprego e fome são algumas.

“A gente vive em uma sociedade ocidental, capitalista, patriarcal, estruturada em modelos de opressão e de poder. Quando a gente fala em suicídio, a gente tá falando em sofrimento humano e também dessas questões”, conta a pesquisadora, apresentando dados em que o Brasil é considerado o país mais ansioso do mundo e o terceiro com maior índice de depressão.

“Os transtornos mentais são um risco para o suicídio, mas a gente não pode dizer que todo mundo que se suicida tinha um transtorno mental. A gente não pode fazer essa relação direta.”, completa.
De acordo com Vanessa, nos últimos tempos o número de suicídios vem aumentando no Brasil e os dados são subnotificados.

“Há uma estimativa de 20% dessa subnotificação. Há muitos óbitos que não são declarados assim. As declarações colocam outras questões relacionadas ao corpo que não diz que ele cometeu suicídio. Anteriormente isso era omitido porque a família pedia. Até pouco tempo atrás, não sei se isso já mudou, mas a Igreja Católica não velava os corpos de quem cometia suicídio”, cita.

Quando se fala em pessoas LGBTI+ que idearam ou tentaram suicídio, segundo Vanessa Morais, encontra-se o sentimento de inadequação, como se eles não existisse um espaço pra habitar o mundo, a sociedade.

O maior índice de suicídio é entre os povos indígenas e se a gente para pra pensar nisso, tem um monte de questões, como reforma agrária, destituição de terras dos povos originários, demarcação de terras… Na população negra e periférica o índice vem crescendo e na população LGBTI+ é cinco vezes maior que entre as heteronormativas”, aponta, ao destacar que há 14 anos o Brasil é o país que mais mata LGBTI+ e isso precisa ser dimensionado quando se fala em sofrimento humano. “Algumas populações são mais vulnerabilizadas na sociedade”.

Confira entrevista completa:

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Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais