CIDADANIA

Sumud – Fotógrafa potiguar revela Palestina de carne, osso e alma em ensaio inédito

A fotografia, por muitas vezes, é um fio condutor de narrativas e relatos essenciais à condução do diálogo e através da linguagem visual é possível se estabelecer entre ambientes, tempos e culturas diversas. Assim, pode-se conduzir uma relação de proximidade com o universo posto em destaque pela imagem. Neste trabalho, a mestranda em Antropologia Social Michelle Julianne, não só revela uma propriedade estética apurada, como um humanismo intrínseco, comovente de realidades frente à dura reflexão dos fatos contidos.

A Agência Saiba Mais convidou Michelle Julianne a partilhar suas reflexões em um ensaio, na seção Mais Olhares, que permite uma aproximação maior com um tema de conflitos e crimes humanitários que ficam escondidos entre muros do Oriente Médio.

No texto a seguir, nossa convidada faz um relato da experiência vivida na Palestina, durante um voluntariado na Cisjordânia e outras regiões de constante conflito. O ensaio completo está disponível na seção Mais Olhares, no portal da Agência Saiba Mais

Michelle Julianne, 32, potiguar, graduada em Relações Internacionais e especialista em Direito Internacional. Atualmente é mestranda em Antropologia Social (UFRN) e fotógrafa de bolso nas horas vagas.

 

Criança observa tempestade de areia no balanço da escola, Jerusalém Oriental

 

 

DIANTE DA DOR DOS OUTROS [1]

 

 

Com pouca esperança na humanidade, retornei do Oriente Médio em outubro de 2015, trazendo comigo uma bagagem de incertezas. Dentre elas, se algum dia tornaria a ver as fotografias de três meses de voluntariado na Cisjordânia, Palestina.

Em razão da rigorosa política de segurança no aeroporto de Tel Aviv, observadores internacionais são orientados a enviar, via correio, documentos com histórico de apreensão pela autoridade israelense, como imagens, vídeos, escritos, relatórios e livros que contenham informações que denuncie ações criminosas do Estado de Israel nos Territórios Ocupados da Palestina.

“Será que um dia poderei rever aquelas imagens”, me perguntei no avião de volta.  Ainda que sim, como elas poderiam provocar nas pessoas uma reação moral sobre os 70 anos de ali neocolonização existente?

Com oitenta por cento das minhas fotografias extraviadas, este não poderia ser um ensaio propriamente dito, mas impressões fragmentadas que possibilitam uma ideia – ainda que vaga – do cotidiano dos refugiados palestinos, situados em Jerusalém Oriental, ocupada ilegalmente e militarizada por Israel desde 1948, com o ‘Nakbah’ (desastre), quando mais de 750 mil palestinos foram desalojados à força de suas casas[2].

Em uma máquina de guerra onde o gênero no comando é masculino e mulheres são proibidas de serem fotografadas, as crianças refugiadas me ensinaram que ‘Sumud’ (existir/resistir, em português) é a única arma possível na luta contra as graves violações dos direitos humanos.

 

Criança palestina corre de gás lacrimogênio.

 

Demolição de casas, tendas e escolas de refugiados, transferência forçada, restrição de movimento por muros gigantes, proibição de atividades políticas, culturais e religiosas, prisão infantil, espancamento/tortura, mortes em massa e retenção de cadáveres palestinos, são estratégias políticas tentaculares na maior prisão a céu aberto do mundo.

 

Criança brinca entre os pertences de onde era sua casa.

 

Em Diante da dor dos outros, Susan Sontag observou que as fotografias de países em guerra e de crise humanitária perderam o poder de comunicar a dor do Outro a ponto de motivar seus espectadores a mudar seu ponto de vista político sobre o conflito ou despertar nossa obrigação moral[2]. Representar visualmente a dor do povo palestino sem que isso nos suscite reflexões acerca da situação humanitária atual, seria apenas mais um ensaio clichê suprindo uma demanda consumidora.

Não tenho esperança que os “restos” de minhas fotografias sirvam de provas dos crimes de guerra na Cisjordânia, mas que elas sirvam como prova que o povo palestino existe e resiste, cabendo a nós, parafraseando Judith Butler, apreendê-los não apenas como vidas dignas de luto público, mas, enquanto vivos, como vidas dignas de serem lembradas.

Michelle Julianne

(Instagram: @mijulianne / E-mail: michelle.jsr@gmail.com)

Palestinas protestam restrição de acesso imposto por Israel ao Al-Aqsa Mosque.
Militar ostenta suas armas para foto.
Força israelense leva ordens de demolição em massa na área C da Cisjordânia.
Escola primária feita de restos de container.
Jovens sentam sobre escombros de suas casas.
Refugiado palestino observa sua tenda destruída.
Criança descansa em tenda beduína após trabalho com rebanho.
O gigante muro do apartheid em Belém.

 

[1] Título do livro da autora Susan Sontag

[2] CHOMSKY, Noam; PAPPÉ, Ilan. Gaza in crisis: reflexions on the U.S.-Israeli war on the Palestinians. Haymarketbooks, 2010, p. 65.

[3] BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto? 1°ed. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2015, p. 106.

 

Artigo anteriorPróximo artigo