OPINIÃO

Supremo Pastelão do Acordão

Foram mais de 11 horas de encenação naquele lugar que hoje rivaliza em audiência com jogos da seleção de futebol e novelas do horário nobre. Absolutamente patético. Juízes midiatizados nunca estiveram preocupados com a opinião pública, quando absolveram o senador Aécio Neves, por exemplo, ou quando deixaram prescrever, as vezes por mais de duas décadas de morosidade judicial, dezenas de políticos, conhecida e reconhecidamente corruptos, criminosos de longa ficha, condenados com vastas provas, e beneficiados por inúmeras decisões judiciais polêmicas.

Barroso (que decepção) falou que a Justiça agora é para todos, não só para ladrão de galinha não. Então por que, Barroso, tu mandastes soltar todos os criminosos de colarinho branco da quadrilha do Temer? Rosa Weber diz que é contra a prisão em segunda instância e nos enche de uma retórica tão pomposa quanto vazia para, cinicamente, dizer que vai contrariar seu próprio entendimento e convicção, votando a favor da prisão de Lula.

Num dos seus mais polêmicos e criticados áudios criminosamente vazados para a imprensa pelo “juizeco” Sergio Moro, Lula falou que o STF estava “acovardado”. De fato, não poderia ter palavra melhor pra definir o apequenamento da Suprema Corte com a decisão de ontem, que mais do que referendar uma condenação sem provas do mais importante estadista da história da América Latina, ainda foi tomada sob o espectro da “intervenção militar” alardeada pelo general “direitoso” Villas Bôas (que demonstra com essa declaração que de “boas” suas intenções não têm nada) caso o STF não confirmasse a condenação de Lula.

Desconheço outras declarações de tal senhor em relação aos grandes corruptos do país, de modo que só posso ler tal afirmativa sob o pano de fundo do obtuso ódio ideológico de classe que ainda parasita os altos escalões do Exército, que demonstra não ter sido democratizado de fato mesmo mais de 30 anos depois do fim do ditadura militar.

Será que Rosa Weber ficou de fato com medo? Será que teme ela ter o mesmo destino de Zavasck? Todos sabiam que o voto dela é que decidiria a questão, já que a primeira dama da hipocrisia, dona Carmem Lucia, que acha natural tomar chá com o presidente corrupto fora da agenda, ir em restaurante com representantes de multinacional do petróleo e tudo mais, posta informações falsas na plataforma lattes, mas se sente à vontade pra posar para as câmeras da Globo de patrona da moral e defensora da ética.

Me poupe, nos poupem, vocês juízes de mentira, sua justiça não é o direito, não é o certo, é o que os senhores do alto dos seus interesses obscuros dizem ser certo. Esse mesmo Supremo, acovardado como sabiamente sentenciou Lula, é aquele que o senador Romero Jucá (cuja barra já foi limpa algumas vezes pelo STF) falou que estaria no “grande acordão nacional” que iria “zerar tudo”. A tática é clara: Lula e o PT são o peixão a ser devorado pelas críticas, a oferenda, o sacrifício pra saciar a sanha de falsa justiça dos hipócritas e fascistas, ao passo que os grandes e reais criminosos, seguem gozando da impunidade que sempre foi uma marca do judiciário brasileiro.

Então o que vimos ontem foi um pastelão, uma comédia do pior gosto, onde pessoas que deveriam ser a referência para a sociedade por sua idoneidade e ética, mostraram que o direito no Brasil é pra uns e não pra outros, nos brindando com o show de horrores de mentiras, dissimulação e manipulação dos fatos e do discurso. A história não vai perdoar, mais uma vez, esse Supremo Pastelão que o STF nos fez engolir ontem, uma instituição que tem em sua história dentre outros abusos, permitido a deportação de Olga Benário Prestes que, mesmo grávida, foi deportada para a Alemanha Nazista graças ao STF, onde como sabemos veio a morrer tragicamente na câmara de gás. Esse STF também apoiou o Golpe de 1964 e também se omitiu em defender a constituição no Golpe de 2016.

Como já tinha dito aqui antes, a máfia de toga já era conhecida, o que não sabíamos era que não havia limites para sua sordidez. Infelizmente, como uma pesquisa curiosa e recente revelou, vivemos no país que tem a segunda população mais alheia em relação a sua própria realidade em todo o mundo, pois se fôssemos uma nação consciente nos levantaríamos já para defender a dignidade daquele que individualmente mais fez pela soberania e empoderamento do Brasil como nação.

Me consola saber, que volto a dizer: a história há de fazer Justiça onde a Justiça falhou, onde a Justiça foi injustiça, demagogia, populismo de direita do mais barato. Aguardem nossas análises e textos sobre essa mancha sombria na história do Brasil. Uma vergonha esse Supremo Pastelão do Acordão.

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Historiadora e Militante LGBT