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Suspensão de bolsas pela Capes em 2019 atingiria no RN mais de 1.800 pesquisadores

A ameaça de suspensão das bolsas de mestrado e doutorado pela Capes, a partir de agosto de 2019, vai atingir 1.866 pesquisadores das três universidades públicas do Rio Grande do Norte, além do Instituto Técnico Federal. A justificativa é a estimativa de corte no orçamento destinado à Educação para o próximo ano.

Em nível nacional, a Capes estima que 200 mil bolsas podem ser suspensas a partir do segundo semestre do próximo ano, entre as quais, 93 mil de pós-graduação (mestrado, doutorado e pós-doutorado) e outras 105 mil de programas de formação de professores da rede básica de Educação.

Contabilizando as pesquisas desenvolvidas na UFRN, UERN, UFERSA e no IFRN com o auxílio das bolsas para estudantes de pós-graduação, a Capes financia no Estado 1.097 estudantes de mestrado e 769 doutorandos. A maioria das bolsas está concentrada na UFRN e correspondem a 86% da pesquisa financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) no Estado.

O investimento total só no RN equivale a R$ 3.337.300 por mês, levando em conta que a Capes paga R$ 1.500 para cada bolsista de mestrado e R$ 2.200 por cada pesquisador de doutorado. O tempo de duração do auxílio varia de acordo com o título. A bolsa de mestrado é paga por até 24 meses e a bolsa de doutorado tem duração máxima de 36 meses.

As duas únicas linhas de financiamento público para pós-graduação no Rio Grande do Norte vêm da Capes e do CNPq. Porém, a Capes responde por mais de 90% desse investimento.

O pró-reitor de pós-graduação da UFRN Rubens Maribondo é categórico ao afirmar que caso essa suspensão seja levada adiante, os 90 programas de pós da UFRN correm o risco de fecharem:

 Vai parar tudo. Temos 90 programas de pós-graduação, em todas áreas de conhecimento. Se houver esse corte, vai fechar mesmo. A maioria das pesquisas desenvolvidas no Instituto do Cérebro tem o apoio de pesquisadores de mestrado ou doutorado. Não lembro, mesmo quando fui aluno, de acordar com uma notícia dessa de corte dessa forma.

Segundo Maribondo, 25% dos estudantes de mestrado e doutorado da UFRN recebem bolsa da Capes para pesquisa, num universo de 6 mil alunos matriculados nos cursos de pós-graduação da universidade federal. Para ele, o corte estimado é um ataque sem precedentes à área de pesquisa do país.

 – As pesquisas de ponta desenvolvidas no Brasil são realizadas nas universidades públicas por alunos de mestrado e doutorado. Deixar as universidades para procurar emprego e sobreviver significa parar projetos de pesquisa. Se isso acontecer (suspensão das bolsas), vamos parar a pesquisa no Brasil.

A situação da pesquisa é ainda mais grave no Rio Grande do Norte porque, ao contrário de outros Estados, a Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapern), vinculada ao Governo do Estado, vem sendo sucateada há várias gestões e já não financia mais nenhum projeto na área de ciência e tecnologia.

– Hoje mais de 90% das bolsas é Capes. O CNPq manteve as bolsas que concedeu até o início dos anos 2000, e não investiu mais em nenhum novo projeto. E não temos as bolsas da FAPERN que, apesar da boa vontade de alguns dirigentes, não tem apoio. Também tínhamos um financiamento da ANP, que financiava bolsas de mestrado e doutorado com interesse da indústria e do Petróleo, mas acabou. Então hoje o único custeio vem só da Capes mesmo.

“Seria uma catástrofe”, avalia pesquisador do Instituto do Cérebro

Eduardo Sequerra é pesquisador do Instituto do Cérebro

A possibilidade da suspensão das bolsas de mestrado e doutorado pela Capes divulgada quinta-feira (2) ligou o sinal de alerta da comunidade acadêmica. O pesquisador e professor do Instituto do Cérebro Eduardo Sequerra desenvolve uma pesquisa relacionada aos efeitos do vírus zika sobre o desenvolvimento do sistema nervoso embrionário.

Todas as bolsas de pesquisa do projeto, de mestrado e pós-doutorado, são financiadas pela Capes. Ele afirma que a redução no financiamento de projetos que começou durante o governo Dilma e se intensificou na gestão de Michel Temer já diminuiu o interesse dos estudantes. Mas a suspensão total das bolsas seria trágico para o futuro da pesquisa.

– A queda no financiamento de projetos já minou o interesse dos alunos pela carreira científica. Mas uma interrupção nas bolsas seria uma catástrofe. Significaria não pagar o aluguel, a comida do filho. Diferente do que disse o Fernando Henrique Cardoso quando presidente, bolsa é salário. É o que faz a carreira científica possível para pessoas que não são ricas. Sem ela voltamos para os tempos dos naturalistas, em que somente ricos faziam ciência.

 

Sequerra destaca que sem as bolsas o projeto que desenvolve hoje corre risco:

– Sim, total. Eu tenho pouco tempo pra ir para a bancada. Dou aula, escrevo projeto, e etc.

A força do financiamento de pesquisas no país vem da Capes. O professor do Instituto do Cérebro reforça a importância dos alunos no desenvolvimento dos projetos:

– Nós atualmente temos bolsas de iniciação científica e pós doutorado vindas do CNPq. Mas a grande força de trabalho dos artigos brasileiros são os alunos de pós graduação. São eles quem mais tempo se dedicam a um projeto. Graças a eles os pesquisadores conseguem desenvolver projetos de quatro anos ou mais.

Bolsistas desabafam nas redes sociais e reforçam apoio à pesquisa no país

Desde quinta-feira (2) bolsistas da Capes em várias universidades do país usaram as redes sociais para defender os investimentos em pesquisa e desabafar sobre a possibilidade de serem obrigados a interromper as carreiras.

Bacharel em Direito e mestra em Políticas Públicas, a natalense Samara Taiana trabalhou durante dois anos em pesquisa sobre leis de incentivo à cultura em Natal e no Rio Grande do Norte. Hoje, curta doutorado na Universidade Federal da Paraíba, onde também desenvolve tese relacionada sobre o mesmo tema, mas dando ênfase ao setor audiovisual, também via renúncia de receitas.

Na pesquisa de Taiana, a junção de direitos, tributos e cultura tem a tarefa de conscientização a sociedade para que haja um entendimento maior do estudo jurídico no Brasil para além das cadeias de legislações mais conhecidas, a exemplo do Direito Civil, Penal, Trabalhista, dentre outros.

Bolsista da Capes, ela explica que o tipo de pesquisa que desenvolve só é possível por meio de investimento público

– E isso tudo só é possível pois as minhas pesquisas são financiadas pelo Estado Brasileiro. No desmonte da educação pública superior, o governo não mais permitirá que diversas áreas – com seus diversos olhares – façam pesquisa. Sim, existe pesquisa no Brasil, em todas as áreas, com muitos ângulos, dos mais variados temas e com muita seriedade, contribuindo para que as discussões saiam do âmbito acadêmico e se alastrem para nosso cotidiano.

Investimento em ciência não é em vão

Na mesma linha, a mestre em Enfermagem pela UFRN Jéssica Dantas Sá escreveu sobre a experiência de ser bolsista em iniciação científica, no mestrado e também no doutorado . Ela classificou o período como “gratificante e transformador”. Em um extenso desabafo, Jéssica conclui dizendo que não existem revolução sem crise:

– Dói muito ouvir sobre os cortes na ciência. Dói ainda mais por ter vivenciado em todo meu processo de formação os benefícios de investimentos na ciência. Durante boa parte da graduação fui BOLSISTA de iniciação científica. Realizamos pesquisas, publicamos seus resultados, levamos esses resultados para a clínica. Vivências com um impacto gigantesco para minha formação, e com benefícios para minha profissão e para a população. Ainda na graduação fui BOLSISTA do (programa) Ciência Sem Fronteiras e desculpem os pessimistas, mas não fui passear. Sem colocar na conta as diferentes vivências oportunizadas que influenciaram sobremaneira na profissional que sou hoje, a experiência me proporcionou ainda realização de pesquisas, e o vínculo científico criado perdura e colhe frutos até hoje. Mais um investimento na ciência com tantos impactos positivos na minha vida. Concluída a graduação, fui BOLSISTA do mestrado. É um privilégio poder cursar uma Pós-graduação com dedicação integral, os frutos são imensuráveis, vivenciar ensino, pesquisa e extensão de perto, dar retorno do investimento realizado, contribuindo com essas vertentes, foi muito gratificante e transformador. Depois de mestre, fui BOLSISTA do programa de doutorado. Mais uma vez me foi oportunizada uma formação com dedicação em tempo integral, e aproveitei cada minuto dessa experiência. Ademais de todos frutos colhidos, desde publicações de impacto para a ciência, até transformações de práticas, ainda me permitiu o preparo adequado para que pudesse retribuir todo esse investimento. Hoje, professora de uma instituição PÚBLICA de ensino superior, me dedico para retribuir à população (alunos, pacientes, por meio de projetos de pesquisa, monitoria ou extensão), todo o investimento PÚBLICO direcionado à minha formação. O INVESTIMENTO EM CIÊNCIA NÃO É EM VÃO. Queridos colegas de profissão, alunos, ex-alunos, futuros alunos… se existe inclinação para a ciência, não desistam! Os caminhos estão cada vez mais tortuosos, mas precisamos manter a esperança em dias melhores, vai valer a pena! Não existe revolução sem crise, não é mesmo?!

 

PESQUISA EM NÚMEROS 

Bolsas da CAPES no Rio Grande do Norte por universidade

UFRN: 891 mestrado e 714 doutorado
UFERSA: 106 mestrado e 50 doutorado
UERN: 96 mestrado e 5 doutorado.
IFRN: 4 mestrado

Valor das bolsas

Mestrado: R$ 1.500
Doutorado: R$ 2.200

Investimento

As 1.866 bolsas de mestrado e doutorado equivalem a um investimento mensal de R$ 3.337.300

Mestrado: 1.097 bolsas x R$ 1.500 = R$ 1.645.500
Doutorado: 769 bolsas x R$ 2.200 = R$ 1.691.800
Total: 1.866 bolsas = 3.337.300

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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