OPINIÃO

Também tenho uma Federal do meu coração!

Ao ler o texto Universidade Federal do Meu Coração, publicado por essa agência no final do mês passado, fiquei bastante emocionada! Não conheço a Ana Clara Dantas, mas através de seu texto relembrei os rostos das centenas de estudantes que passaram em minha vida como professora da UFRN nesses mais de 20 anos de docência na instituição. Vi o brilho do olhar deles!! Brilho que tem feito muita falta nesses tempos de ensino remoto! Oxalá, como a presencialidade é urgente à humanidade!

Comecei minha carreira de docente universitária na universidade federal em 1996, como professora substituta do extinto Departamento de Educação. Na época fazia mestrado na linha de pesquisa de formação de professores. Foi através dessa experiência que fui me formando professora e em 2004 ingressei como efetiva, com muito orgulho e felicidade de fazer parte da UFRN, depois de defender o doutorado. A Ana Clara tem razão, o que vi em minha trajetória foram estudantes e professores prenhes de sentidos e esperanças sobre como ser no mundo ao serem atravessados pela universidade, eu inclusive. Uma experiência só possível numa instituição pública que acolhe a diversidade humana e a diversidade de experiências formativas gestando mais vida!

Não de hoje, com uma trajetória acadêmica mais consolidada no campo da formação universitária, tenho sido, com muita honra, convidada por meus pares para atividades pedagógicas formativas em diferentes Centros Acadêmicos, hoje obrigatórias em todo começo de ano letivo, mas que foram uma conquista das discussões propostas por meu antigo departamento, hoje Centro de Educação, para a qualificação pedagógica do ensino universitário.

Essas sempre foram atividades riquíssimas para mim. Não só por poder discutir a dimensão pedagógica do ensino universitário, mas por aprender com os colegas sobre a nossa rica diversidade de atuação, as alternativas formativas desenvolvidas, as estratégias relacionais criadas e as possibilidades de atuação como docente, enfim, uma verdadeira formação no coletivo e para o coletivo. Para mim sempre foi um momento de alegria e vivacidade e sentia dividir esses sentimentos com os colegas!

Esse ano não foi diferente. Estamos começando um novo ano letivo e todos os centros se organizam em semanas pedagógicas para tratar as temáticas relativas ao ensino. Fui convidada para participar de três atividades em três diferentes unidades acadêmicas. Como sempre trato de questões pedagógicas relativas ao ensino universitário, a formação na universidade e temáticas similares que estão dentro de minha área de estudo. Tudo muito bacana, sempre fico feliz com essas situações.

Mas esse ano o astral foi diferente! Mesmo tratando de temas tão caros e com uma participação bem ativa de todos, algo foi diferente. Encontrei colegas exaustos, exauridos, a beira do choro… e olhe que isso não é muito comum em nossas atividades! Mas como? Não acabaram de sair de férias? Que férias?

Além da exaustão e angústia própria do estado de pandemia em que estamos tendo de dar conta de frentes diferentes com a família e o trabalho doméstico, além dos diferentes tipos de luto que temos vivido com perdas físicas e emocionais, além do enxovalho cotidiano com que temos sido tratados pelos governantes que resolveram nos eleger inimigos número um, temos tido que dar conta de um volume de trabalho que se expandiu enormemente neste mesmo período.

Pela própria natureza das universidades, como o espaço de produção do conhecimento no país, é claro que nos mobilizamos para dar respostas a todo tipo de problema que emergiu ou foi agravado pela crise sanitária, desde o campo da saúde ao campo social, tecnológico, político e isso trouxe mais trabalho. Mas não só! Dentro das instituições exacerbou-se uma lógica produtivista e competitiva de atuação, desrespeitosa como os ritmos humanos e sua capacidade de respostas. Uma lógica nefasta e necrófila de, em desrespeito ao período inusitado que toda a humanidade passa, levou ao exaurimento e exaustão dos professores.

Não se tratou só de aprender a docência, a pesquisa e extensão em modelo remoto que exigiu horas a mais de atenção, tampouco de dar conta tanto das necessidades pedagógicas como de sobrevivência dos estudantes, nem conciliar a privacidade familiar com a invasão da intimidade que as câmeras nos impõe, nem de enfrentar a profusão de tarefas burocráticas propostas pela instituição, nem a falta de diálogo coletivo para construção de alternativas de ação, mas tudo junto!! Mais ainda, com a sensação de que nada está sendo suficiente, de que estamos órfãos institucionalmente, pois no afã do cumprimento de todos os prazos, composição de estatísticas de avaliação externas, manter uma normalidade impossível e responder a órgão de controle a UFRN do meu coração tem ficado míope ao seu bem maior, docentes e estudantes.

Míope ao estado de saúde, física e mental, da sua comunidade impondo ritmos inadequados de trabalho, cumprimento de cargas horárias incabíveis na situação de vida atual. Tudo decorrente de um afobamento administrativo próprio de momentos de desespero diante do inesperado, que nos levou a atropelamentos e exacerbação de práticas que num momento normal, talvez, já fossem exagerados.

Fomos, por nos render uma lógica produtivista e tecnocrata, contra ao próprio conhecimento que produzimos sobre como deveria ser melhor reação a ter nesse momento. Nos distraímos dos ensinamentos que nos trazem as áreas da Educação, Ciências Sociais, Antropologia, Psicologia, humanidades em geral, que tanto nos falam que esse seria um momento de pausa para o supérfluo e foco no principal: a vida e suas formas de manutenção e superação das fragilidades socioemocionais. Não fizemos isso e estamos nos arriscando a um futuro próximo de baixa sanidade física e mental. E eu, como Ana Clara, tenho uma federal do meu coração e espero que ela não adoeça fatalmente por ter trilhado por esses caminhos.

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