OPINIÃO

Tempos difíceis para leitores… da Veja

Médicos, dentistas, advogados, contadores, arquitetos, barbeiros ou aqueles cidadãos de bem, trabalhadores, religiosos, conservadores nos hábitos e costumes. É quase certo dizer que são assíduos leitores de Veja, quando não assinantes de longo prazo. Quantas e quantas certezas políticas não foram definidas durante a leitura sanitária do semanário, ou na interminável espera pela sua vez na consulta médica marcada por ordem de chegada, ou naquela ansiosa e angustiante espera pelo dentista.

Ela está sempre lá à sua espera. Algumas coleções de consultório reúnem exemplares históricos, cada vez mais ensebados e estropeados ao passar das semanas. Nas melhores coleções consultoriais, é quase possível traçar linhas do tempo da história recente do país – ainda que a análise da publicidade possa ter mais indícios de realidade que boa parte das reportagens editorializadas publicadas na capa da revista.

Esta semana, Veja desata um rosário de adjetivos para dizer, em resumo, que não pode mais tratar o ex-juiz Sérgio Moro como o herói que estampou uma meia dúzia de suas capas. A publicação reconhece as irregularidades e as ilegalidades na atuação do juiz, com a violação do devido processo legal e reconhece ainda que foi um dos veículos que mais exaltou o “trabalho” de Moro no “combate” à corrupção. Não sem abusar dos adjetivos – como é já característico do texto de Veja.

Criada em 1968, quando os censores estavam prestes a ocupar as redações, Veja dedica sua primeira capa aos conflitos no mundo comunista e com a intenção de ser “a grande revista semanal de informação de todos os brasileiros”. Vendeu 700 mil exemplares.

Logo, as vendas caíram pela metade. A edição nº. 15 foi recolhida das bancas logo depois do Ato Institucional nº 05. Ao longo dos oito anos de censura, foram 138 textos cortados das edições e substituídos por desenhos de anjos e demônios ou pela marca da editora Abril. Nos anos mais recentes, a Veja alternava capas que detonavam os governos petistas ou se faziam de autista quando as notícias eram muito positivas para a esquerda brasileira. Em 2012, a revista CartaCapital, do jornalista Mino Carta – um dos fundadores da Veja – denunciou os métodos obscuros de apuração na cobertura do Mensalão. Em 2014, os editores anteciparam a edição para tentar influenciar o resultado das eleições com uma capa onde afirmavam que Lula e Dilma sabia da corrupção na Petrobras. O PT conseguiu direito de resposta semanas depois já que a revista teria sido “ofensiva” na denúncia.

Pouco depois disso, houve quem confundisse a revista com um partido político com um slogan que era meu velho conhecido dos debates do movimento estudantil: “Veja mente”, gritávamos estudantes de comunicação de esquerda.

Eis que o jogo virou. Depois da publicação da reportagem revelando a interferência de Moro na operação Lava jato, os grupos de whatsapp de médicos, dentistas, advogados, contadores, arquitetos, barbeiros ou aqueles cidadãos de bem, trabalhadores, religiosos, conservadores nos hábitos e costumes estão em polvorosa. A ladainha está grande. Acusam a revista de “fake news”, ameaçam cancelar a assinatura e seguem repetindo a cartilha de não-argumentos na defesa de Sérgio Moro, da Lava Jato e do “combate” à corrupção.

Da semana passada pra cá, para essa turma, Veja deixou de ser “indispensável para o país que queremos ser”, como bem diz seu slogan. Só tomara que não passem a chamar a revista de comunista para não contradizer aquela primeira capa em 1968.

E agora, com que vamos embalar nossas horas na fila do consultório médico?

 

 

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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