OPINIÃO

Tempos difíceis para sonhadores

Não, não é só uma frase de camiseta. A coisa anda feia para quem ousa querer, quem sabe um dia, realizar uma utopia. Por todos os lados, surgem falsas novidades que prometem saídas pela direita ou uma ponte para o futuro. Legisladores sacam da manga propostas de “modernização” das leis trabalhistas, da previdência, da administração, dos impostos… Mal sabem eles que a modernidade não é mais novidade há uns duzentos anos – ou é exatamente pra lá que querem nos levar.

E é do berço da modernidade ocidental que vem mais uma dessas notícias desalentadoras.

O governo conservador parece ter declarado guerra a BBC, um patrimônio do Reino Unido, e à utopia de um sistema de comunicação para muitos sonhadores que, como eu, entendem que a comunicação é muito mais que um serviço, aparelho ou aplicativo. A comunicação é um direito. E em muitos poucos lugares essa ideia ganhou forma tão concreta quanto nas emissoras de rádio e televisão – e mais recentemente, nas plataformas da internet. Virou até tema de livro: “A melhor TV do Mundo”, de Laurindo Lalo Leal Filho.

Os ataques já vêm de algum tempo. Ainda em 2015, o governo do também conservador David Cameron decidiu atacar dois pilares fundamentais do sistema público: o sistema de financiamento e a universalização.

E o sistema de financiamento da BBC é um sonho para comunicadores. Os cidadãos com televisão em casa pagam um imposto administrado diretamente pela empresa pública, dinheiro que não se submete aos humores dos políticos e que garante a independência política na produção de conteúdos. Com o dinheiro pago por todos, a BBC se obriga a garantir um serviço para todos, com emissoras de rádio com diversos estilos de programação musical, de notícias, debates, esportes, além de canais locais, regionais, nacionais e até internacionais de televisão.

O problema é que os conservadores querem um estado mínimo, querem reduzir o tamanho da BBC e fazer com que ela deixe de ser universal – a empresa passaria a oferecer apenas o que não fosse interesse do mercado. Ah, o tal do “mercado”… Na proposta dos conservadores, a taxa da televisão não seria mais obrigatória – seria quase como uma assinatura.

Claro que nem tudo é utopia na BBC. Escândalos sexuais, episódios de racismo protagonizados por jornalistas e apresentadores ou o pagamento de indenizações milionárias aos seus executivos são motivos suficientes para abalar a credibilidade da empresa e servem como ótimos argumentos aos ataques dos políticos.

O atual governo de Boris Johnson ainda tem mais motivos para odiar a BBC. O longo processo do Brexit foi coberto pelos jornalistas e comentaristas sem poupar o governo dos erros e contradições dos políticos defensores da saída do Reino Unido da União Europeia. A ministra da Cultura chegou a comparar a empresa de mídia pública à Blockbuster (gigante dos alugueis de fitas que sucumbiu à chegada de gigantes com a Netflix). Para ela, a BBC está desatualizada e não deveria ser sustentada pelos contribuintes.

O que o governo britânico pretende fazer é jogar um direito na vala comum do mercado. Deixar que os cidadãos sejam cada vez mais apenas consumidores e garantir que mantenham-se entorpecidos de consumo enquanto vão desmontando nossas vidas, tijolo por tijolo.

E olhe que eu nem falei dos sonhos arruinados da comunicação pública por aqui…

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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