DEMOCRACIA

Título de cidadão natalense: crime ou castigo?

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Na maioria das vezes em que a Câmara Municipal decide homenagear alguém com o título de cidadão natalense o alvoroço toma conta das ruas dos bares e, mais recentemente, também do tribunal das redes sociais. A mais nova personalidade escolhida para receber a homenagem é o ministro da Economia Paulo Guedes, que em oito meses de governo Bolsonaro só veio à região Nordeste uma vez, ocasião em que insultou a primeira-dama da França e cobrou antecedentes criminais dos jornalistas que participariam da entrevista coletiva com ele após um evento.

Não bastasse a concessão ao ministro responsável pela reforma da Previdência mais cruel da história do país, os vereadores votarão em breve a mesma homenagem ao deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL), filho do presidente da República Jair Bolsonaro e cotado para ser embaixador do Brasil em Washington, nos EUA, cuja principal credencial para o cargo foi o intercâmbio que fez na adolescência, onde aprendeu a fritar hambúrgueres.

A proposta do vereador Cícero Martins (PSL) em benefício do filho de Bolsonaro não conseguiu ser votada em regime de urgência, mas segue tramitando normalmente nas comissões da Casa antes de ir a plenário.

Apesar de Guedes e de Eduardo Bolsonaro não terem feito absolutamente nada que mereça a concessão do título, os dois não são os primeiros cidadãos natalenses nessa condição. De 1971 até agora, a Câmara Municipal de Natal concedeu mais de 500 títulos semelhantes a personalidades famosas, anônimas, civis e militares. A lista tem artistas, religiosos, políticos e representantes de outros segmentos.

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A agência Saiba Mais obteve junto a Câmara Municipal de Natal a lista dos agraciados entre 1971 e 2017. Confira aqui os nomes e os anos em que os prêmios foram concedidos.

O ministro da Economia Paulo Guedes é o mais novo cidadão natalense

O último título concedido a provocar tamanha repulsa da sociedade natalense foi entregue ao atual governador de São Paulo João Doria, em 2018. Ele recebeu o prêmio junto com o empresário Flávio Rocha, homenageado em 1989, mas que só recebeu o prêmio quase 30 anos depois, em solenidade fechada só para convidados no teatro Riachuelo.

Há notórios corruptos também na relação, a exemplo do ex-governador de São Paulo Paulo Maluf, condenado e preso pela Justiça por corrupção, e o ex-presidente da Fifa João Havelange, expulso dos quadros da Fifa por desviar dinheiro da entidade. Maluf recebeu a homenagem em 1981 e Havelange, em 1972.

De 1971 a 1989, período em que o Brasil ficou sem eleger um presidente da República, quase 50 militares receberam o título. Curiosamente, nenhum dos quatro ex-ditadores foi agraciado.

Mas houve parceiros da ditadura beneficiados. O criador da Rede Globo Roberto Marinho também é cidadão natalense, título conquistado em 1981. Porém, ele não foi o primeiro conservador da imprensa a receber a honraria. O apresentador da extinta TV Tupi Flávio Cavalcanti foi agraciado em 1972 com o prêmio. Da nova geração de apresentadores conservadores, o Carlos Roberto Massa, o Ratinho, ganhou a homenagem em 2000.

Há ex-presidentes da República também na lista. Tancredo Neves e José Sarney são cidadãos natalenses desde 1984. Dilma Rousseff recebeu a honraria em 2008 e o algoz dela, Michel Temer, foi homenageado em 2011, ainda como vice-presidente, antes de tramar o golpe contra a petista.

Apesar de não ter conseguido chegar ao Planalto, o eterno presidenciável do PSC José Maria Eymael conquistou em 2015 o título de cidadão natalense graças a boa vontade (e bota boa vontade nisso!) do correligionário Joanilson de Paula Rêgo.

O segmento evangélico também conseguiu homenagear seus representantes. Os mais notórios foram o polêmico pastor Silas Malafaia, indiciado pela Polícia Federal em 2018 por ocultação ilícita de dinheiro, e o ex-ministro da Pesca e atual prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella, que tirou do armário recentemente a máscara de censor e homofóbico ao mandar recolher da bienal do livro no Rio HQs com temática LGBTs.

Os católicos encamparam a honraria póstuma em 2011 com o papa João Paulo II. Mas ainda em 1983, dom Helder Câmara conquistou a homenagem. Da ala espírita, o médium Chico Xavier é cidadão natalense desde 1980.

O médium Chico Xavier é cidadão natalense desde 1980

Das personalidades nacionais da política consta ainda o título de cidadão natalense para o ex-governador do Rio de Janeiro e ex-presidenciável Leonel de Moura Brizola. O senador Paulo Paim (PT) e a ex-deputada federal Luciana Genro (PSOL) também estão na lista.

Em nível local já receberam o prêmio a atual governadora Fátima Bezerra, José Agripino Maia, Garibaldi Alves, Lavoiser Maia, Carlos Eduardo Alves, Tarcísio Maia, Lavoisier Maia, Wilma de Faria, Carlos Alberto de Sousa, Cortez Pereira e Jean-Paul Prates.

Alberi pelo ABC e Souza pelo América fizeram a alegria da frasqueira e da torcida alvirubra.

Há vários artistas também na relação. A turma da Bahia, muito em razão do Carnatal, coleciona títulos de cidadão na cidade. Durval Lellys, Cláudia Leite, Margareth Menezes e Ricardo Chaves, por exemplo, são “natalenses”. A Bahia monopolizou os prêmios, mas sobrou título para personalidades de outras regiões. O paraibano Geraldo Azevedo, a carioca Ângela Maria, o paulista Renato Braz, além dos potiguares Dorgival Dantas e Elino Julião foram agraciados.

Há concessões mais curiosas, como a do médico das celebridades Roberto Kalil Filho (2015) e a do diretor de produção da Rede Globo Sérgio Madureira (2005).

Mas nenhum desses é mais idílico que o prêmio concedido em 2009 pelo vereador Franklin Capistrano. O título não envolve gente de carne e osso, mas cidades inteiras. Por proposta do psiquiatra eleito vereador ainda nos anos 1990, Lisboa ganhou o título de cidade co-irmã de Natal.

Ao que tudo indica, caso os vereadores confirmem o nome de Eduardo Bolsonaro (PSL), a próxima personalidade a receber a honraria provocará na população da capital um questionamento inabalável:

Título de cidadão natalense: crime ou castigo ? 

Abaixo, alguns exemplos de cidadãos natalenses:

Nevaldo Rocha (1971)
João Havelange (1972)
Flávio Cavalcanti (1972)
José Cortez Pereira (1975)
Dr. Roberto Marinho (1981)
Paulo Salim Maluf (1981)
Carlos Alberto de Souza (1986)
Dilson Funaro (1987)
Dom Helder Câmara (1983)
Lavoisier Maia (1983)
Vulpiano Cavalcanti (1983)
Celso Furtado (1984)
Agnelo Alves (1984)
José Agripino Maia (1984)
Tancredo Neves (1984)
José Sarney (1984)
Flávio Rocha (1989)
Wilma Maria de Faria (1992)
Tarcísio Maia (1983)
Oscar Smith (1996)
Jomar Muniz de Brito (1996)
Maria de Fátima Bezerra (1998)
Alberi Ferreira de Mattos (1998)
Carlos Roberto Massa (Ratinho) (2000)
Agaciel Maia (2000)
Zilda Arns (2001)
Angela Maria (2001)
Leonel de Moura Brizola (2003)
Ricardo Chaves (2003)
Elino Julião (2003)
Aloysio Nunes (2004)
Renato Braz (2004)
Sérgio Madureira, direto de produção da Globo (2005)
Souza (2006)
Geraldo Azevedo (2007)
Cláudia Leite (2007)
Durval Lelys (2008)
Dilma Rousseff (2008)
Rosalba Ciarlini (2009)
Cidade de Lisboa como co-irmão de Natal (2009)
Ana Paula Valadão 2010)
Jean Paul Prates ( 2010) .
Silas Malafaia (2010)
Eva Wilma (2011)
Michel Temer (2011)
Carlos Eduardo Nunes Alves (2011)
Margareth Menezes (2011)
Papa João Paulo II (2011)
Eliana Calmon (2012)
Luciana Genro (2013)
Garibaldi Alves (2013)
Marcelo Crivella (2013)
Paulo Paim (2014)
José Maria Eymael (2015)
Roberto Kalil Filho (2015)
Dorgival Dantas (2015 )
João Doria (2018)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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