OPINIÃO

Todas ao Cabaret

Abrir com todas, e não todos, já é uma primeira subversão de hierarquia de gênero que gostaríamos de introduzir, contrariando a regra clássica do nosso idioma, que afirma que, dado o aspecto genérico do leitor em potencial, devemos nos referir a “ele” sempre no masculino. Felizmente, nossa língua cheia de artifícios me permitiu brincar com as palavras sem contrariar totalmente as regras gramaticais em questão. Afinal, a palavra pessoa é uma palavra feminina e, ao convidar TODAS ao Cabaret, me referia, evidentemente, a todas as pessoas.

Que vem então a ser o Cabaret? Sem dúvida não é aquele cabaré que pega fogo em alguma música de algum forro eletrônico que não lembro ou nunca soube o nome. Se bem que no Cabaret ao qual me refiro, não faltam ardor, glamour e talento. E nesse sentido, fazer o palco pegar fogo durante a cena chega quase a não ser um eufemismo.

Inspirado no clássico do cinema “Cabaret”, com a grande Liza Minnelli, “Cabaret Retrô” é uma criação daquele que talvez seja a personalidade LGBT mais importante da História do Rio Grande do Norte: Zezo Silva, e tem a produção daquele que simboliza e corporifica a história do Teatro Norte Riograndense contemporâneo – e que comemora seus 30 anos de carreira – meu querido amigo pessoal Clenor Junior. Ele que também integra o elenco junto com o próprio Zezo, além de Naira Porto, Sônia Castelo Branco e convidados eventuais variados, que constituem uma ode aos tempos áureos das divas da música e do cinema, de um ideal de cultura LGBT cada vez mais corrido pelo tempo e que justamente é recuperado, valorizado, através da simbologia da palavra “Retrô”.

Um mundo de magia, glamour, luxo e nostalgia, que faz desfilar no palco representações das grandes artistas que marcaram a vida de muitos de nós. Ao melhor estilo “Priscila a Rainha do deserto” ou “para Woong Foo, obrigada por tudo”, todo um imaginário de dublagem, transformismo, expressão facial, inflexões visuais: teatro, e ainda mais com aquela dose de purpurina e paetês, que nosso mundo LGBT tão bem sabe produzir.

Ao desfilar das divas no palco do Cabaret Retrô, somos recepcionados pela própria, aquela que emprestou seu nome para sempre à história da ideia de Cabaret: Liza Mineli. Clenor Junior abre, em alto estilo, o primeiro dos cinco personagens que vai incorporar durante a noite. Logo depois, aquela que arrastou multidões e mesmo hoje octogenária – justamente por isso também – merece a reverência de todos nós: Tina Turner, numa mui fidedigna – das mais da noite – representação de Zezo Silva, que ainda nos brindará com outras quatro personagens no decorrer do espetáculo.

Seguindo a linha das divas internacionais, nossa querida mulher cis (por que o cabaret é “coisa de bicha”, mas sem preconceito algum com as “rachas” – expressão LGBT pra definir mulheres em geral) Sônia Castelo Branco que nos premia com uma maravilhosa representação de Amy e segue com a chegada em nossa música com Naira Porto (mulher trans que nao faz papel de trans e sim de mulheres cis, burlando portanto o estereótipo, porque o Cabaret Retrô é também, e acima de tudo um elogio da diversidade) interpretando o clássico dark “Noite Preta” da obscura porem talentosa Vange Leonel.

A noite segue com interpretações para ficar na memória. Clenor Junior como Gal Costa, Clara Nunes e Fafá de Belém é algo memorável e emocionante. Zezo Silva de Maria Bethânia, Elba ramalho e Ney Matogrosso é um convite que varia do cômico ao trágico com igual qualidade artística, sempre dando seu toque especial aos personagens que interpreta. As meninas, Sônia e Naira, com suas interpretações de Maria Alcina e Tânia Alves completam um cenário incrível, um show de luzes, beleza e talento, disponível para todos nós uma vez por mês ate o fim da temporada em novembro, no Teatro de Cultura Popular (TCP), um dos pontos de resistência do teatro potiguar contra o processo de sucateamento compulsório das casas de espetáculos públicas do Estado do Rio Grande do Norte.

Somente em Natal, uma capital com mais de 400 anos de história, temos duas situações absurdas. Um teatro municipal fechado há quase dez anos – e antes que se argumente sobre os problemas do falecido Teatro Sandoval Wanderley, é bom que se lembre que até se pode demolir o atual prédio (sem valor histórico) para dar lugar a um empreendimento privado que pode revitalizar a economia local -, desde que a promessa da entrega de um novo teatro municipal seja cumprida o quanto antes.

Por falar nisso, gostaria de usar o espaço dessa coluna para cobrar publicamente os gestores do município do Natal e do Estado do Rio Grande do Norte nas suas respectivas competências. Senhor prefeito, porque não começar já as obras do novo Sandoval na Ribeira? Por que esperar o processo de finalização do antigo teatro? Afinal, quer situação mais finalizada com a degradação física do espaço nesses quase dez anos de interdição???

Sobre o Teatro Alberto Maranhão, o abuso é tamanho ou ainda maior, dado o valor histórico do prédio em particular e do todo o conjunto arquitetônico ao qual ele pertence. Incluído no PAC-Cidades históricas, o teatro segue fechado há mais de dois anos – período no qual sequer foi apresentado à sociedade o projeto de restauração bem como os prazos para tal. A classe artística potiguar, e a natalense em particular, segue sofrendo sem poder montar produções maiores, sem poder contar com um grande público dada a absoluta limitação (de no máximo 160 lugares) das casas de espetáculo alternativas, que ainda restam à cidade – e o Teatro Riachuelo não entra nessa cota devido aos custos de sua pauta inviabilizarem seu uso por amplos setores dos fazedores de cultura do RN. Até quando senhor Governador?

Se incluirmos a situação dos teatros públicos do interior do Rio Grande do Norte a lista lamentável segue aumentando.

Para finalizar, queria chamar novamente todas ao Cabaret. Queria muito poder chamar a própria Rogéria, umas das muitas divas de cabaret que esse mundo já teve. Como não posso chamar nossa saudosa rainha trans, convido uma amiga dela, uma divina diva que não apareceu no filme, mas é tão maravilhosa quanto, minha cara Michele Santos, nos vemos no Cabaret.

Nós, que ainda estamos vivas, vamos lá, brilhar, abalar, acontecer, glamourizar, antes de virarmos, todas, purpurina, como diz o velho ditado. Menos a Rogéria claro, era tão fina que virar purpurina era pouco pra ela, deve ter virado glitter perolado. Todas ao Cabaret, reservas na lista vip do Clenor Junior pelo 99967-6814 ou na bilheteria do TCP.

Vejo vocês no Cabaret…

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Historiadora e Militante LGBT