CULTURA

“Trago seu amor próprio de volta”: tarot feminista ressignifica prática esotérica para empoderamento feminino

Em “A hora da Estrela” (1977), todos os principais personagens têm os destinos amarrados a um trabalho encomendado por Glória à Madame Carlota, uma cartomante. A primeira, loura voluptuosa, quer um bom casamento e acaba, para isso, tendo que desfazer o único laço minimamente afetivo conhecido por Macabéa, personagem principal da última obra de Clarice Lispector. Essas “amarrações” não existem de agora nem são coisa do passado. Nas ruas de qualquer cidade, é possível encontrar cartazes com promessas de “trago seu amor de volta”. Todavia, movimentos têm puxado cada vez mais a ideia de um esoterismo que também fortaleça pautas sociais, como a emancipação feminina e questões LGBTQIA. Assim, nasce a proposta de tarot feminista de Arádia Kali.

“Não é que a gente deixa de fazer jogada se vai voltar ou não com a ex ou com o ex. Sim, essas jogadas atualmente existem. Mas a leitura, a perspectiva de tarô feminista, é no sentido de não culpar a cliente, porque ela fala ‘nossa, ele me deixou, eu sei que a culpa está toda em mim’. A gente bota a carta e fala que não necessariamente, né? Existem outros elementos, podemos ver que o relacionamento já estava em crise”, explica a taróloga e cartomante.

Segundo Arádia, a ideia é trabalhar não só o bem-estar das pessoas que a procuram, mas também contribuir com o fortalecimento emocional delas.

Existem diversas teorias sobre a origem das cartas de tarot, mas há um consenso de que a história real ainda é desconhecida, adianta a goiana de 41 anos radicada em Natal (RN). Arádia utiliza o tarot de Marselha, uma das versões mais conhecidas, com 78 cartas divididas no que titulam de 22 arcanos maiores, com figuras que representam arquétipos humanos, e 56 arcanos menores, formados por reis, valetes, damas e cavaleiros, típicas de baralhos comuns.

Os arcanos maiores representam o destino, narrando uma trajetória que vai da carta do Louco à do Mundo, enquanto os menores oferecem alternativas de ação, o livre-arbítrio. Assim, o tarot funciona como um oráculo que mais orienta do que adivinha o futuro, adianta Arádia. 

Método de leitura, de disposição das cartas e olhar feminista sobre os arcanos são os três principais elementos da proposta de leitura de Aradia. O tarô pode ser feito com perspectivas mais sensíveis a temas como a diversidade sexual, a luta contra a monogamia, os dogmas de gêneros por exemplo. Há possibilidade de métodos de leitura e também os arcanos podem ser redesenhados.

Foi o que fez a artista paranaense Elisa Riemer, que criou Nosotras Tarot, o primeiro deck brasileiro feminista. Lançado em 2018, o material substitui as 22 figuras de arcanos por arcanas, priorizando facetas do feminino. O trabalho levou quatro anos de pesquisa para ser desenvolvido e foi lançado por meio de financiamento colaborativo.

 

 

Religiosidade, autoconhecimento e autonomia

Arádia foi iniciada em tarologia na Espanha, onde também se converteu ao paganismo, prática religiosa ligada à natureza e ao culto de vários deuses. Dentre aspectos da doutrina, há um entendimento de uma essência divina ligada ao ambiente natural, a representação religiosa pela imagem do feminino, e a inexistência das dualidades entre bem e mal, céu e inferno ou ainda corpo e espírito.

Contudo, a cartomante adianta que a prática do tarot não está necessariamente ligada a nenhuma religião, também sendo uma ferramenta importante para o autoconhecimento.

Quanto a trabalhos de “amarração” ou “adoçamento”, ela lembra que ainda são feitos sim, por pessoas de todas as classes sociais, homens e mulheres. Assim, um dos objetivos da vertente feminista é também denunciar a prática que, segundo Kali, lida com energias negativas e gera relacionamentos conflituosos, não baseados na liberdade de escolha.

“O tarô feminista não traz amor alheio de volta, só um amor próprio. É abertamente contra amarrações, contra adoçamento, porque tanto o feminismo como o tarô feminista é pro empoderamento das mulheres, empoderamento da autoestima, empoderamento da autonomia e da independência emocional”, finaliza Kali.

 

 

 

 

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