OPINIÃO

Trégua dos 100 dias? Esqueça, Fátima, é tempo de guerra!

É de praxe dizer que todo governante ao assumir tem uma espécie de “trégua” de três meses, ou cem dias, tempo em que ele ou ela toma pé do que se meteu, compõe a equipe, arruma a casa (ou parte dela) e desencadeia ações, sejam elas radicais ou homeopáticas. Passado os 100 dias/3 meses, começa-se a se pegar no pé do gestor/gestora e cobrar as negligências, contradições e promessas.

Em tempos de política radicalizada esta regra parece estar indo para o espaço. Jair Bolsonaro que o diga, na presidência da República, ex-estilingue que virou telhado e já conta com cobrança ostensiva de muitos apoiadores/eleitores. Em São Paulo e Rio de Janeiro, João Dória e Wilson Witzel não tiveram tempo nem para respirar e já começaram bombardeados por oposição, ONGs, redes sociais e imprensa.

Mas, no Rio Grande do Norte a não-trégua ganha ares bem mais intensos, radicais e complexos. Primeiro, pela situação absolutamente caótica deixada pelo antecessor da governadora Fátima Bezerra (PT), Robinson Faria (PSD), uma herança maldita de folhas não pagas de décimos-terceiros de 2017 e 2018 e mais os últimos dois meses de 2018.

Segundo, por que o caldeirão de antipetismo, rancor mal escondido por Fátima ter vencido famílias poderosas há décadas e uma visível má vontade de parte da imprensa faz com que a cobrança já ganhe ares de crise com o novo governo completando somente nove (sim, nove!) dias de gestão.

Analisemos os dois fatores com calma e depois elencaremos uma terceira diretriz com potencial complicador;

Sobre a “herança maldita” das folhas de pagamento dos servidores, temos dois raciocínios, ambos válidos. 1) Fátima não pode resolver em espaço recorde de tempo um problema acumulado durante quatro anos, tampouco quitar quatro folhas atrasadas e ainda pagar em dia o mês de janeiro. É virtualmente impossível qualquer governo conseguir isso. 2) Em compensação, Fátima sabia onde estava se metendo e qual o tamanho do buraco financeiro do Estado, aceitando, portanto, o desafio e se oferecendo para resolvê-lo. Claro que não conseguirá ou conseguiria em poucos dias, mas parte considerável dos servidores tinha a esperança que ela tirasse um coelho da cartola para equacionar a situação.

Em relação ao fator “má vontade”, é importante perceber que aparentemente Fátima não terá de boa parcela do eleitorado e da opinião pública, principalmente em Natal, a tolerância e paciência que já foi dada a Robinson e a Rosalba Ciarlini, e de maneira geral a Carlos Eduardo quando “herdou” Natal em meio ao caos deixado por Micarla de Souza. Parte do PT e do Governo credita essa impaciência ao antipetismo ainda arraigado em setores da sociedade. Também vale observar que parte da imprensa potiguar parece já estar sinalizando para crise e caos no Governo Fátima antes mesmo de dez dias de administração. Um rigor não observado quando eram outros os governantes.

Fogo amigo ?

Por fim, temos ainda os sindicatos e o Fórum dos Servidores do RN com tolerância zero em relação ao novo governo. O que para muita gente é uma ironia, pois Fátima começou no movimento sindical e sempre teve diálogo e trânsito fácil com estes ao longo de duas décadas de vida política.

O Fórum se reuniu com a governadora logo na quarta-feira (2). Fátima havia dito que priorizaria o pagamento da folha e o diálogo com os servidores. Apesar de considerar o encontro positivo, o grupo não aceitou a proposta de parcelamento dos salários do funcionalismo. “Nós não aceitaremos o parcelamento dos salários. Parcelar o passado e pagar em dia o presente é iludir o servidor que agora está tudo bem. Não resolve o problema”, disse no dia Janeayre Souto, presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público da Administração Direta (Sinsp/RN). De acordo com ela, o governo precisa “reduzir o tamanho do atraso no pagamento, seguindo temporalmente o pagamento dos salários em atraso. Ao contrário, nós vamos dizer não. Não ao parcelamento”.

O Fórum se reuniu novamente com representantes do Governo do RN na segunda-feira (7), para tratar dos pagamentos de salários atrasados. A pauta o pagamento do décimo terceiro de 2017 para aposentados e pensionistas que recebem mais de R$ 5 mil, salários de novembro de 2018 para quem recebe mais de R$ 5 mil, além do salário de dezembro e décimo terceiro de 2018 para todas as categorias. O governo propôs 30% do pagamento do mês de janeiro no dia 10 e os 70% restantes no dia 31. O Fórum fincou pé no pagamento dos atrasados e se posicionou contra o parcelamento de janeiro.

Enfim, Fátima terá de matar um leão por dia. De todas as cores e plumagens. Nada de imaginar que lhe darão trégua. À guerra.

 

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