CIDADANIA

Três vezes morri: relato da condição humana em vias de extinção

Por Thiago Isaias Nóbrega de Lucena

Numa certa manhã despertei e meu smartphone dizia que eu tinha duas tarefas a executar. Essas tarefas se referiam a dois cuidados essenciais para a minha condição: o cuidado intelectual e o espiritual.

Na burocracia inventada por mim mesmo e aperfeiçoada ao longo do tempo de minha existência neste planeta construí lugares específicos para o exercício desses cuidados, bem como os meios de transporte para mais rápido acessar a cada um deles. Para cuidar do intelectual de minha condição – sim, afinal não me auto intitulo sapiens sapiens à toa – construí a escola. Para cuidar do espiritual – com certa desconfiança, ouço dizer que sou mesmo é sapiens demens – construí o templo/igreja. Para chegar a qualquer um desses espaços utilizo as vias terrestres colocadas acima ou debaixo da terra e os meios de transporte que são para mim uma “mão na roda”. São muitos os nomes desses transportes, mas para a locomoção coletiva nas cidades, popularizei os ônibus, trens, metrôs e bondes.

Iniciei o título deste texto dizendo que “três vezes morri”, mas até agora só falei do quanto sou incrível por conseguir à minha maneira facilitar e potencializar minha própria existência. Mas, voltemos ao foco.

Já dizia Heráclito, um dos notáveis de minha condição que “morremos de vida e vivemos de morte”, pois bem, é disso que vou falar agora. Tratei de construir um lugar para cada coisa do mundo que dominei, mas parece que nesse percurso esqueci de disseminar como prática comum aos de minha espécie o valor da vida perpetuado na promoção de sua dignidade.

Em escala de tempo e de geografia desconexos, ao levantar nesta manhã eu olhei minha agenda e tinha nela dois compromissos: estudar na escola e rezar no templo. Para chegar a esses dois destinos peguei um bonde, mas, já aí morri pela primeira vez. Eu estava em Utrecht, na Holanda, era por volta das 11h no horário local quando o atirador, um outro eu, entrou no bonde e começou a disparar frenética e descontroladamente. Três de mim morreram, nove outros ficaram feridos. Mesmo morto, consegui reviver, juntar meus pedaços e me apressei para chegar à escola, afinal, mais do que nunca precisava restabelecer meu intelecto. Quem sabe assim eu não pensaria numa solução racional para o caso que acabara de ser vitima?

Cheguei na minha escola em Suzano, na grande São Paulo. Era justo a hora do intervalo, por volta das 09h! Todo aquele estresse me deixou com fome mesmo, então resolvi lanchar com meus colegas do Ensino Médio. Ops, eu ouvi tiros ou ainda estou sob o impacto do que me aconteceu no bonde? Dois jovens, outros de mim, atiraram, feriram e mataram vários, inclusive eu. Entre mortos e feridos, cerca de 19 exemplares de minha condição, cada um com uma história e um futuro pela frente… Ainda deu tempo de ver que os atiradores tiraram a própria vida. Naquele pátio aqueles dois jovens assinavam diante de mim um atestado de antropoemia; um asco total a tudo que lembrasse a própria existência, incluindo a si próprios. Depois de tanta desolação, nem sei como me refiz.

Parecia que eu estava prevendo que tanta tristeza eu presenciaria nesse dia/lugar desconexo, pois coloquei como última tarefa de minha agenda uma ida ao templo para cuidar do espírito.

Só mesmo apelando para uma das formas de deus alimentadas por mim para ver se os sujeitos de minha condição param de si auto aniquilar, auto sabotar.

Aqui estando em Christchurch, na Nova Zelândia, por volta das 13h40min, depois de ficar em dúvida se iria à mesquita Al Noor no Centro da cidade ou ao Centro Islâmico que nem fica tão longe. Resolvi ficar na mesquita, afinal, por benção de Alá, o Imã estava começando a falar e o mais bonito é que nessas horas o silêncio é total. Preciso de paz e o interior de um templo religioso me trará isso com certeza. Mas, o que um dos meus vestindo roupas militares e com uma câmera de celular e arma na mão faz aqui agora? Até aqui?! E lá se vão 42 feridos, 49 de mim, inclusive eu. Já me faltam forças para seguir.

Em um mesmo dia, 3 vezes morri. Contei minha trágica história e nem me apresentei de forma direta: chamo-me Humanidade.

Por que colocar três relatos tão trágicos ocorridos em dias, horas e lugares diferentes do globo reunidos como se fossem uma história única? Não seria apenas para falar que estamos inseguros em qualquer lugar que frequentemos. Isso já é um lamentável e real fato. As histórias se unificam por um motivo ainda mais triste: elas versam sobre a nossa ausência de sentir que tem sido substituída pela atroz capacidade de limpar-se do outro que, mesmo com uma casca diferente é um eu mesmo. Aprendi a me odiar como espécie, será esse o meu fim?

O fim da condição humana?

Depois que pisamos o chão deste planeta, conseguimos um feito impensável de deixarmos de ser frágeis presas para nos tornarmos o último dos predadores diante de todas as espécies vivas. Agora somos predadores de nós mesmos, mas ainda não acendemos o alerta de que estamos em risco de desaparecer por nossas próprias ações.

Ainda acredito nas forças de regeneração; ainda repito em coro a frase do jovem Holderlin “onde cresce o perigo, cresce também a salvação”. O que precisamos fazer para sobrevivermos enquanto condição humana que lutou duramente e desafiou a lógica reorganizativa da natureza para sobreviver enquanto espécie? Para marcarmos história neste planeta atravessamos os mais inóspitos lugares, respiramos o irrespirável, suportamos a poeira, o frio e o calor intensos, atravessamos mares e cortamos ares. Até à estratosfera já fomos ou enviamos coisas para lá. E nossa capacidade de sentir, acolher e amar o outro? Porque mesmo com tantas conquistas ainda encontramos no outro uma série de desculpas de ordem geográfica, de gênero, cor de pele, credo, poder aquisitivo para torná-lo diferente de mim? Porque respondo com tanta violência externa à frustração de não me suportar?

É tempo de esgarçar os sentidos, todos eles. É tempo de seguir o conselho de René Descartes e desconfiar pelo benefício da dúvida de todo relato único sobre qualquer fenômeno. É tempo de recuperar a antropoética tantas vezes repetida por Edgar Morin como sendo a ética da espécie humana; um desejo irrefreável de preservar-se defendendo mutuamente a vida por meio da promoção de uma dignidade universal da pessoa humana em estreita ligação com tudo o que é da ordem do vivo sobre a Terra.

*O texto faz menção a três episódios de massacre em massa ocorridos nos dias 13, 15 e 18 de março de 2019, respectivamente nas cidades de Suzano em São Paulo/Brasil, Christchurch na Nova Zelândia e Utrecht na Holanda.

**Thiago Isaías Nóbrega de Lucena é Doutor em Ciências Sociais. Professor da Escola de Ciências e Tecnologia da UFRN. Membro da Comissão de Pesquisa PROPESQ/UFRN. Pesquisador do Grupo de Estudos da Complexidade (GRECOM) e do Círculo de Estudos em Cultura Audiovisual (CICULT). Estuda as relações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade com destaque para as interações em rede, “Geração Selfie” e o futuro da condição humana frente à tecnociência.

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