OPINIÃO

Trinta e nove quilos de desfaçatez midiática

O episódio da prisão de um militar que participava da comitiva de Jair Bolsonaro em sua viagem ao Japão, transportando em uma mala, trinta e nove quilos de pasta de cocaína, é de uma gravidade sem par. Primeiro porque o episódio deixa cada vez mais evidente a proximidade hoje existente entre o crime organizado e os poderes constituídos, a crescente presença do poder econômico do dinheiro provindo de atividades criminosas na hora de se financiar campanhas e decidir eleições. Estamos caminhando para, assim como na Colômbia em tempos de cartéis de Cali e Medellin, termos uma bancada no Congresso Nacional e ocupantes de cargos executivos comprometidos com os interesses dos criminosos. A proximidade da família Bolsonaro com milicianos, a quem chegaram a condecorar, mesmo estando presos, e a obsessão pela liberação da posse e porte de armas de fogo, aumenta a apreensão de que o caso do militar traficante, passageiro da comitiva presidencial, não seja um caso isolado ou mera coincidência. O projeto apresentado na Assembleia Legislativa do estado do Rio de Janeiro, pelo deputado do PSL, partido dos Bolsonaro, Alexandre Knoploch, instituindo o que chamou de Polícia Militar Voluntária, abrindo brecha para que se forme uma força armada paralela às forças estatais, verdadeiros grupos paramilitares, pode ser mais um indício claro de que milícias e grupos de traficantes podem estar investindo em representação político-parlamentar. Isso se agrava, mais ainda, com os sérios sinais de que a chamada bancada da bala, no Congresso Nacional, possui membros comprometidos com setores criminosos da sociedade e que parte da chamada bancada evangélica milita em denominações religiosas, em igrejas que servem de lavanderia para o dinheiro do crime organizado.

O episódio ainda mal explicado e ainda pouco investigado indicia outro aspecto preocupante da realidade institucional brasileira: o envolvimento de membros das Forças Armadas com o crime organizado. O uso constante que tem se feito das Forças Armadas para atuar em atividades de segurança pública, substituindo o trabalho que deveria estar sendo feito pelas polícias estaduais, elas mesmas com setores importantes comprometidos com grupos criminosos, seja através da corrupção, seja na participação direta em grupos de milicianos, pode ter levado a esse envolvimento de um estrato mais baixo dessas organizações com o crime. Foram muitas as vozes que alertaram, desde o governo de FHC, que esse uso das Forças Armadas para atuar em atividades para as quais não estão habilitadas, poderia levar a um comprometimento de alguns de seus integrantes com as atividades ilícitas que foram levadas a combater. A improvável atuação solitária do militar preso, já que transportava uma carga pesada e difícil de não ser detectada por uma vistoria, por mais simples que fosse, nas bagagens embarcadas no avião da comitiva presidencial, aponta para a participação de outras pessoas e para a conivência de autoridades com o ato ilícito, além de levantar a suspeita de que pode não ser um evento isolado, mas uma prática que já vinha se dando, com dada regularidade. O fato de que uma simples inspeção de rotina, feita pelas autoridades aeroportuárias, em Sevilha, tenha detectado a carga ilícita, leva a no mínimo suspeitarmos de profunda negligência das autoridades de fiscalização no país. O Gabinete de Segurança Institucional da presidência da República, com o general do soco na mesa, Augusto Heleno Ribeiro, a sua frente, também sai profundamente arranhado do episódio, já que sua tarefa primordial é zelar pela segurança do Presidente da República, o que nos leva, obrigatoriamente, a fazer as seguintes perguntas: está seguro um presidente que embarca num avião que transporta uma carga clandestina e não detectada pelos órgãos que deveriam zelar por sua segurança? E se ao invés de quilos de cocaína o militar transportasse nitroglicerina, dinamite ou explosivos plásticos, podendo perpetrar um atentado contra a vida do presidente?

Mas o episódio nos leva a outra constatação muito preocupante: a nossa grande mídia há muito deixou de fazer jornalismo. O silêncio constrangedor em torno do episódio, que rapidamente sumiu das manchetes, ocupando, quando muito, notinhas de fim de página é muito preocupante. A falta total de disposição para fazer uma investigação jornalística, independente da investigação policial, a ser feita pela Polícia Federal, que também não sabemos a quantas anda, dado o alegado sigilo das investigações que, como sabemos, só é mantido e só vale para dados episódios e envolvendo dadas forças políticas, mostra uma imprensa totalmente partidarizada, comprometida em proteger o governo de extrema-direita que ajudaram a eleger. Fico imaginando se um episódio de enorme gravidade como esse acontecesse em uma viagem do presidente Lula ou da presidente Dilma, o espalhafato que não seria feito por esses órgãos de imprensa, como atuariam com gosto de sangue na boca. Se os sites e blogs de direita no país sempre acusaram levianamente o PT de ter ligações com as Farc, e por extensão, com o tráfico de entorpecentes, imagine se surge num voo presidencial um militar com uma maleta com cocaína? Aliás, militantes bolsonaristas, no afã de livrar a cara de seu mito, passaram a afirmar, sem nenhuma comprovação documental, como sempre, que essa seria uma prática que vinha do governo Dilma. Nenhum grande órgão de imprensa brasileiro, como lembrava ontem Fernando Brito, se dignou a escalar um de seus correspondentes na Europa ou enviou algum repórter até Sevilha, para investigar in loco os detalhes da espantosa ocorrência. A atitude da grande imprensa tem sido a da normalização e banalização da ocorrência, o que nos leva a perguntar do porquê de tanta conivência e leniência. Será o receio de melindrar as Forças Armadas? Será o receio de puxar o fio da meada de algo que pode se revelar muito mais grandioso e comprometedor? Sabemos que muitos desses órgãos de imprensa não se interessaram pelo caso, tratando de abafá-lo rapidamente por puro sabujismo em relação ao governo Bolsonaro, que vem os alimentando com verbas oficiais. Mas o que chama a atenção é que, mesmo a Folha de São Paulo e a Rede Globo, que não vivem propriamente numa lua de mel com o governo do capitão, não tenham se empenhado em investigar episódio, por vários aspectos, preocupante e grave. O que aprendemos desse evento é que não podemos contar com a nossa grande mídia quando se trata de aprofundar a investigação sobre dados temas no país, notadamente aqueles que possam explicitar a qualidade da classe política que emergiu da desastrada operação Farsa a Jato e do atentado a democracia no país que foi o processo de impeachment de uma presidente legitimamente eleita e que nenhum crime de responsabilidade cometeu. Se não fosse um site de um jornalista estrangeiro, o Intercept, provavelmente jamais saberíamos de todos os crimes cometidos pelo juiz Sérgio Moro, pelos integrantes da chamada força tarefa da Lava a Jato, envolvendo também membros de outros escalões do poder judiciário, da mídia e do Ministério Público Federal. Será que vamos depender também de um órgão de imprensa estrangeiro para termos a mínima ideia do que se passou nesse inédito episódio em termos de viagens presidenciais? A mesma imprensa que fez um escândalo porque foi encontrado um DVD pirata no avião presidencial durante o governo Lula, silencia miseravelmente diante de 39 quilos de cocaína na comitiva de Bolsonaro. Será que nenhum grande órgão de mídia está interessado em se perguntar se é mera coincidência que esse fato se dê no governo de um presidente da República que pesca, almoça, participa de festas e convescotes com milicianos? Será que nenhum jornalista tem a mínima vontade de investigar se é uma mera coincidência que isso ocorra num governo de pessoas que condecoram e empregam famílias de milicianos, fazem apologia do uso de armas de fogo, que nunca lamentaram a morte de uma parlamentar que denunciava a atuação das milícias, cujos partidários vivem a caluniá-la, mesmo depois de morta?

Como disse em entrevista o presidente Lula, não se pode irresponsavelmente acusar Bolsonaro de nada, antes de se fazer qualquer investigação. Mas o que me estarrece é o total desejo de que mais um episódio vergonhoso, que mancha a imagem do país no exterior, esteja sendo jogado para debaixo do tapete, como ocorreu com o helicóptero com 450 quilos de cocaína, pertence aos Perrela. Será que vamos continuar assistindo a uma imprensa venal e parcial que só investiga os seus inimigos ideológicos? São trinta e nove quilos de desfaçatez e hipocrisia, o que estamos assistindo. As únicas fotos que temos da cocaína foram feitas por um jornal espanhol e pouca divulgação teve na mídia corporativa. O escândalo da Farsa a Jato, que vem desmoralizando de vez nossas instituições, também atinge de morte a credibilidade da grande mídia, grande fiadora das estrepolias do herói nacional, o marreco de Maringá, alçado a condição de justiceiro mor, com a colaboração da grande imprensa, que foi sua parceira na destruição de nossa economia, na retirada golpista do PT do poder e na ascensão de um governo de extrema-direita inepto, caricaturesco e destrutivo. O silêncio complacente com mais essa desmoralização de instituições tão importantes para o país, como as Forças Armadas, já atingidas pela participação nos desvarios do governo do capitão, que não tem ideia do que é ser presidente da República, leva o país para a beira de uma falência institucional completa. Se a própria mídia, que é uma instituição fundamental para a democracia, se omite de realizar seu papel de informar, de investigar, de fiscalizar as demais instituições do país, a crise institucional só se aprofunda, ainda mais. Estamos com as instituições democráticas em frangalhos, qualquer omissão agora pode nos lançar num Estado autoritário. Vocação e desejo é que não falta ao ocupante da cadeira presidencial, que passa todo tempo reclamando do funcionamento das demais instituições, do Legislativo, do Judiciário, da Polícia Federal, até da Constituição e das leis quando elas não referendam seus desatinos e não permite que governe baseado unicamente em sua vontade autoritária. Ele se apressou em criar uma teoria da conspiração para justificar o episódio insólito de ter levado na comitiva um traficante de drogas. Como é comum em alguém que ainda não desceu do palanque, que com quatro anos pela frente para governar o país já está pensando em reeleição, mesmo não tendo feito nada de concreto para debelar a crise no país, só tomando medidas que a aprofunda, tratou de culpar, como é típico dos tiranos, seus adversários políticos, o que só convence seus energúmenos seguidores. Suas acusações prévias e sem prova soa como uma cortina de fumaça, para encobrir o que talvez seja um evento de gravidade ainda maior do que supomos. Até quando a grande imprensa vai continuar se fazendo de morta diante de um acontecimento de tal gravidade? Está na hora da cidadania cobrar dessa mídia que cumpra com seu papel social de informar e investigar. Mas como esperar isso num país em que um jornalista que realiza seu trabalho pode estar sendo investigado por órgão de fiscalização e polícia subordinados àquele atingido pelas denuncias, que usa, assim, seu cargo para realizar intimidação e perseguição? Vivemos tempos sombrios e esperamos que o jornalismo lance luz no fim desse túnel como vem fazendo a Vaza Jato, também no caso do tráfico de drogas em comitiva presidencial, creio que algo inédito no mundo, bem Made in Brazil (com z mesmo, já que nosso presidente vai a festa da independência dos EUA e posa vestido de astronauta da Nasa, verdadeiramente um patriota, colocando o Brasil acima de tudo, menos dos EUA pelo que parece). Tempos de vergonha sem fim para quem tem um pingo de decência e amor a esse país e a seu povo.

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Durval Muniz de Albuquerque Jr. é professor, historiador e escreve aos domingos

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