OPINIÃO

Tucanagens

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O PT deveria aproveitar a primavera e enviar a Aécio Neves um buquê de rosas vermelhas, como prêmio pela maestria do senador para fazer, em pouco mais de um ano, o que a legenda lulista não conseguiu em treze anos no poder: detonar o PSDB. Ao liberar o monstrinho do rancor pós-2014, Aécio realizou o desejo secundário de derrubar o petismo no tapetão do Congresso e do STF, mas ficou sem o gozo maior — a cadeira de presidente.

No curso da vingança, descobriu que perdera também a vida e que empurrara os tucanos para o buraco que eles imaginavam haver cavado apenas para o PT. Este tem pelo menos um sol para orbitar em busca da sobrevivência, enquanto os tucanos parecem uma nuvem de meteoritos cadentes em choque uns com uns outros, na iminência da implosão definitiva.

A simbiose estabelecida com Temer e a caterva que o apoia, inicialmente para possibilitar o impeachment de Dilma e depois para para sustentar o governo golpista, consumou a volta completa do PSDB por baixo da própria história. O partido que nasceu de uma costela ética do PMDB, com a pretensão de elevar o Brasil à mudernagem socialdemocrata, traiu seu ‘mito de origem’, deixando pelo caminho a plumagem escandinava.

De volta ao ninho que haviam desertado, os tucanos parecem pintos no lixo, de tão à vontade. O preço do apagão ético para dar alguma sobrevida ao pescoço de Aécio só será conhecido nas urnas de 2018. Mas o desempenho dos nomes do partido nas sondagens eleitorais pressagiam que o custo será alto. Não haveria como ser diferente, se pensarmos nas figuras, métodos e bandeiras que o PSDB chancelou desde que cedeu completamente à obsessão revanchista de Aécio.

Para um partido que começou espelhando-se em Mário Covas, Franco Montoro e Tancredo Neves, ver-se agora pelos olhos de figuras como Aécio e Dória é de fritar coxinhas. Nem o mais gorduroso deles reconheceria na agenda retrógrada o DNA dos tucanos fundadores. E não é preciso varejar o ninho nacional para constatar a metamorfose desvantajosa. Um exame nos espécimes locais não deixa dúvidas: o PSDB é, sim, mero cover do PMDB. Está mais para Michel Temer, Eliseu Padilha e Moreira Franco do que para o trio original.

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Jornalista e Poeta