CIDADANIA

UFRN cancela evento sobre violência obstétrica após pressão de corporações médicas

A publicação de uma charge sobre violência obstétrica levou o Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Norte (Sinmed) e a Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Rio Grande do Norte (Sogorn) a pressionarem a Faculdade de Ciências da Saúde do Trairi Facisa/UFRN até que a instituição, localizada no município de Santa Cruz, cancelasse evento online sobre o tema.

O II Workshop sobre Violência Obstétrica seria realizado no sábado (17), pelo Grupo de Estudo e Pesquisa em Fisioterapia na Saúde da Mulher (GEPFISM/UFRN) e pelo projeto de extensão e pesquisa “Gestar e Cuidar”, coordenado pela Dra. Vanessa Patrícia Soares de Sousa. A professora confirmou em nota o cancelamento da atividade e pediu desculpas aos profissionais que se sentiram ofendidos pela arte divulgada no cartaz do evento.

O desenho é amplamente republicado quando o assunto é violência contra gestantes. A imagem mostra um obstetra em cima da barriga de uma mulher imobilizada que está também com a boca tapada por máscara. A charge original inclui a frase em espanhol “No a la violencia obstetrica”.

“Considerando a veiculação de cartaz de divulgação do referido evento, [a coordenação] vem a público esclarecer a total ausência de intenção em desmerecer a atuação de qualquer profissional da saúde, em especial o médico obstetra, o qual exerce o ofício com ética, competência e responsabilidade. Assim sendo, pede desculpas a todos que se sentiram ofendidos pela mensagem visual equivocada”, assinou Vanessa Sousa na quinta-feira (15), ao destacar também que o objetivo do workshop era reforçar a importância do protagonismo da mulher durante o período gestacional.

A Maternidade Januário Cicco (Mejc-UFRN-Ebserh) também emitiu nota deixando claro que não integrava a iniciativa e reiterou compromisso com a humanização do atendimento.

Pressão
No mesmo dia, a Sogorn havia remetido carta ao reitor da UFRN, prof. Dr. José Daniel Diniz Melo, com indignação, considerando a ilustração “agressiva, aviltante e degradante contra o médico obstetra”.

“Os médicos ginecologistas e obstetras do RN, incluindo os egressos da nossa universidade, estão desapontados, decepcionados e indignados com a expressão gráfica veiculada no folder do evento, onde foram apresentados como verdadeiros algozes”, reclama a presidente do Associação, Elvira Maria Mafaldo Soares.

Ainda na quinta-feira, o Sinmed publicou nota de repúdio em tom acusatório. “Fóruns dessa natureza tentam, de forma sorrateira, introduzir conceitos que agridem e criminalizam o papel da medicina obstétrica”, escreveu o presidente do sindicato, Geraldo Ferreira.
O texto termina com um aviso: “Fiquemos atentos e mobilizados para pronta resposta sempre que os que intentam contra os médicos e buscam difamá-los sejam combatidos e repudiados”.

Aos fatos
Violência obstétrica é como se definem abusos físicos ou psicológicos sofridos por mulheres quando procuram serviços de saúde durante a gestação e na hora do parto. O termo é utilizado oficialmente em textos na legislação de três países latino-americanos. O primeiro país a aprovar uma lei que inclui o uso do termo foi a Venezuela, seguido pela Argentina e pelo México.

No Brasil, em 2019, o governo Bolsonaro aboliu essas palavras em normas e políticas públicas, por meio de um despacho assinado pela coordenadora-Geral de Saúde das Mulheres Mônica Almeida Neri, sob argumento de que não há consenso na definição do termo.

Uma em cada quatro mulheres no Brasil sofre algum tipo de violência, de acordo com o estudo “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado”, realizado pela Fundação Perseu Abramo em parceria com o Serviço Social do Comércio (SESC), em 2010.

Sociedade civil
O Movimento pela Humanização do Parto e Nascimento do RN considera que a atividade acadêmica foi censurada e insiste na importância de discutir e combater a violência obstétrica.

“Ela não está restrita apenas à classe médica e, portanto, não havia motivo para que os órgãos representativos da categoria agissem no sentido de censura ao evento”, aponta representante do grupo, ressaltando que é preciso ampliar a perspectiva da assistência para além do atendimento medico-centrado, inserindo profissionais da Enfermagem como estratégia de vigilância da saúde materno-infantil.

A violência obstétrica é também violência de gênero e diz respeito à vida das mulheres, de acordo com o Movimento de mulheres, lembrando que a mortalidade materna no Rio Grande do Norte é alta. Levantamento do Ministério da Saúde com dados de 2017 apontou que o estado teve uma taxa de 77,9 mortes maternas a cada 100 mil nascimentos.

Também faz parte desse mesmo debate a epidemia de cesarianas. Aa comunidade internacional de saúde considera que a taxa ideal de cesáreas seria entre 10% e 15% de todos os partos. No Brasil, chegam a 80% muitas vezes induzidas pelos profissionais médicos.
“É preciso reduzir número de cesárias e os danos iatrogenias [doenças, efeitos adversos ou complicações causadas por ou resultantes do tratamento médico] em mulheres e bebês”, salienta.

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Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais

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