DEMOCRACIA

UFRN é a 9ª universidade do país a criar disciplina sobre o golpe de 2016 e democracia

Anúncios

As universidades públicas do país decidiram reagir em bloco aos ataques à democracia institucional do Brasil. Depois que a UnB divulgou a criação da disciplina “O golpe de 2016 e a democracia no Brasil”, pelo menos mais oito instituições federais ou estaduais seguiram a ideia. Até a conclusão desta reportagem, Campinas (Unicamp), São Paulo (USP), Amazonas (UFAM), Bahia (UFBA), Ceará (UFC), Paraíba (UEPB), Rio Grande do Sul (UFRGS) e Rio Grande do Norte (UFRN) também já confirmaram as aulas. O nome da disciplina foi mantido na maioria das UFs. Universidades de Santa Catarina (UFSC), Sergipe (UFSE), Juiz de Fora (UFJF) e São João Del Rey (UFSJ) demonstraram interesse e estão avaliando a possibilidade.

A Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) cadastrou a disciplina “Seminário Temático II: o golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil” pelo curso de pós-graduação em Ciências Sociais e também vai oferecer um curso de extensão para receber a comunidade de fora da universidade em razão da demanda. A disciplina terá quatro créditos com um total de 60 horas e será ministrada por quatro professores: Homero Costa, Alex Galeno, Orivaldo Lopes Jr. e Gabriel Vitullo. Serão 15 encontros. As aulas serão às sextas-feiras no período da tarde, na sala G-4 do setor II. O início da disciplina começa em 13 de março.

A disciplina e o curso de extensão ocorrerão simultaneamente com a presença de professores da UFRN, como História Henrique Alonso de Albuquerque Rodrigues Pereira e Haroldo Loguercio Carvalho (História), Lincoln Moraes e Cesar Sanson (Ciências Sociais), Julie Cavignac (Antropologia), do curso de Direito da UFERSA Daniel Valença e de outros Estados, alguns já convidados. Já estão confirmadas aulas ministradas pelos professores Luís Felipe Miguel, idealizador da disciplina na UnB, Rodrigo Freire (UFPB), José Geraldo Vasconcelos (UFC) e Gonzalo Adrián Rojas (UFCG).

De acordo com o professor da UFRN Alex Galeno, a ideia de debater as consequências do golpe de 2016 e o futuro da democracia surgiu nos fóruns de discussão de Ciências Sociais. Após o suicídio do reitor da UFSC Luiz Carlos Cancellier de Olivo, preso pela Polícia Federal e execrado publicamente sob acusação de obstruir as investigações de um esquema de corrupção na universidade, fato até hoje não comprovado pela Justiça, cientistas sociais espalhados pelas universidades do país começaram a discutir meios de reagir aos ataques sistemáticos do Judiciário e do Governo Temer contra as instituições públicas federais e estaduais de ensino:

Anúncios

– A ideia é fortalecer esse movimento, por isso pensamos numa pós que pudesse nos ajudar a refletir sobre a realidade brasileira, tendo o cuidado de fazer essa reflexão acadêmica. Em outubro do ano passado, num encontro das Ciências Sociais em Caxambu, decidimos que seria preciso resistir e reagir de alguma forma. A criação dessas disciplinas sobre o golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil é consequência dos tentáculos desse estado de exceção do país, seja pelo Judiciário, pelo Governo ou outras instituições. É a concretização de um sintoma do golpe, que não foi dado pela violência física tradicional, mas como uma câmera de gás invisível, a partir do poder do Estado e das instituições repressivas.  

Galeno chama a atenção para a repercussão negativa na imprensa tradicional logo que surgiu a notícia da criação da disciplina na Universidade de Brasília. Para ele, a concepção das críticas passa pelo debate sobre o movimento Escola Sem Partido, que defende a imposição de uma única ideologia

– O debate sobre a Escola sem Partido tentou contaminar o movimento que nasceu nas Ciências Sociais. Veja que na entrada da UFRN foi instalado há pouco tempo um outdoor da UFRN sem Partido tentando chamar a atenção da sociedade.

A disciplina oferecida no curso de pós-graduação da UFRN vai trabalhar o histórico dos golpes no país, com foco no impeachment que afastou a ex-presidenta Dilma Rousseff. Os professores responsáveis pelas aulas vão definir nos próximos dias a ementa da disciplina.

– Vamos trabalhar esse histórico, falando do que houve em 2016, mas dizer que o Brasil tem um histórico tradicional de golpes. O objetivo é refletir sobre essa realidade brasileira, a partir de autores. O próprio professor Luiz Felipe Miguel, um dos grandes estudiosos do país sobre essa questão. Os detalhes mesmo vamos definir amanhã (sexta-feira). Além da aula normal, faremos um curso de extensão para que as pessoas de fora da universidade também possam participar. Então serão aulas e palestras, acontecendo em conjunto.

O presidente da ADURN-Sindicato Wellington Duarte destacou a importância do movimento, tanto em nível nacional como local, e espera que outras iniciativas semelhantes também aconteçam na universidade:

– Toda e qualquer forma de construir um espaço de resistência ao Golpe deve ser incentivado. Esperamos que novas ações sejam feitas pelos professores, servidores e alunos da UFRN.

 

 

Anúncios
Artigo anteriorPróximo artigo
Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"