OPINIÃO

Um artista brasileiro

Li recentemente Torto Arado, de Itamar Vieira Jr, e foi um verdadeiro choque. De repente, estava eu juntando os pedaços de quem sou. Encontrei palavras que ressoam até agora dentro de mim, coisas que sou e havia esquecido. E agora sei mais do que nunca. Sei porque disse-me um artista.

Suas letras enchem o coração da quentura sertaneja que amorna meu corpo. Quem dera todo artista pudesse nos falar assim. Queria mesmo que vivesse cada artista a expressar seus mundos e só. Que não se perdesse de quem é. Sendo difícil o caminho do dizer, ainda assim, ao esbarrar em homens maus, que não tivessem de emudecer.

Sim, há quem queira um mundo atrofiado, sem o barulho dos que cantam, escrevem, dançam. Há também os que preferem dizer como fazê-lo. Com orgulho, lambuzam-se na autoridade medíocre e amorfa de homens vazios. Mas temem a agitação dos que sentem. Pois não há movimento que não comece com zoada.

Quando um artista brasileiro me fala, eu insisto em ter esperança. Sou rescaldo de cada um que ainda insiste em fazer-se livros, música, dança, teatro. De cada um que ainda insiste por esses lados de cá. É o que nos resta. É também o que somos e seremos sempre. Ainda que acabe o ano ou o mundo.

Nos colocam em embates dissimulados, nos dividem, nos rivalizam entre mais, menos, maior, melhor. Não brigarei por isso. Não por isso. Não quero ser herói. Pois de fato não sou. Escolham quem são seus heróis. Eu quero apenas a banalidade de ser eu mesma. Quero não ter de me fazer outra. Quero ouvir o que diz o artista. Quero o que diz a canção de ano-novo.

 

 

 

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Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras

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