OPINIÃO

Um Brasil Karol ConKá

O escritor Elias Canetti em seu livro “Massa e Poder”, ao fazer uma arqueologia e classificação das massas, destaca a ideia de massa de acossamento. Aquela voltada para a eliminação ou morte do outro. O episódio sobre a rapper Karol Conká e sua passagem pelo BBB21 da Rede Globo é emblemático desta visão de Cannetti. Relembremos.

A rapper foi eliminada no paredão com o maior índice (99,17%) em toda história do programa. Inclusive mundial. O Brasil parou neste dia para o julgamento de Karol. Nas redes sociais vimos um ritual no qual carrascos se juntaram em enxames de Klux Klux Klan prontos para o linchamento. Em algumas cidades, pessoas reunidas em bares e prédios a chamavam de “puta” e “macaca”. Isso tudo em decorrência do comportamento da artista na “casa” do BBB.

É preciso dizer que a mesma cometeu equívocos e acertos. Mais acertos. Entre os equívocos foi bancar a senhora palmatória do mundo com os outros participantes. A maneira ríspida com o tal Lucas, sobretudo. Cometeu excessos, mas não ao ponto de ser perseguida como uma escrava rebelde sem direito de dizer o que achava e de expressar seu ethos e sua estética.

O BBB21 não cabe e não se adequa ao perfil da cantora. Ela como uma artista de raiz popular e representante de uma pegada musical fora do mainstream da cultura consumista e homogeneizada do funk, pagode e sertanejo, destoava no espetáculo. E o público carrasco em seu entretenimento sonambúlico não a perdoa, pois prefere a imagem da mulher recatada, do lar, obediente aos bons modos em tempos das Damares em goiabeiras. Não. Karol encarna a heroína negra inteligente, com densidade musical e revozeia um discurso para desafinar contentes. Eis sua maior qualidade.

Quando vemos cenas do BBB21 ou do documentário da Globoplay “A vida depois do tombo”, saltam aos olhos a encarnação de uma heroína, por vezes, saída do mundo de Mad Max. Uma Tina Turner cantando “We don’t need another hero”. O país inteiro a cancelou! Mas ela tem enfrentado o exército de carrascos ao responder aos questionamentos de apresentadores de TV, jornalistas, além de desmentir os delinquentes digitais com as suas fake news.

Como sabemos, a unanimidade é burra. E, portanto, o percentual do paredão de Karol representa um alento político de que ela veio ao mundo para desafinar o coro de espectadores contentes. Certamente diria Drummond, “vai ser guache na vida” ou como em sua música Tombei:

“Se é pra entender o recado, então bota esse som no talo/ Mas vem sem cantar de galo que eu não vou admitir”.

 

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Alex Galeno
Alex Galeno é cientista social, professor da UFRN e escreve às terças-feiras para a agência Saiba Mais

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