OPINIÃO

Um governo que despreza os paraíbas, leia-se os pobres

Temos pela primeira vez, no Brasil, um governo que se assume publicamente como um governo voltado para atender aos interesses dos ricos e poderosos. A maioria dos governos que tivemos atenderam, preferencialmente, a demanda dos grupos dominantes, mas sempre procuravam se dizer e se mostrar como governos que visavam atender ao povo, essa entidade abstrata e sem rosto, base de toda a política moderna e republicana, desde o século XIX. O governo Bolsonaro, embora tenha contado com os votos dos pobres para se eleger, notadamente daqueles fanatizados pela atuação das igrejas evangélicas, se mostra avesso a qualquer demanda que venha das camadas mais carentes da população. Em sete meses de governo vem promovendo um verdadeiro desmonte de todas as políticas sociais voltadas para atender demandas dos setores mais vulneráveis da população. A pretexto de atender a mandamentos ideológicos de acabar com todas as políticas petistas, o que lhe garante o apoio e mobilização das falanges de direita e de extrema direita, o que o governo Bolsonaro está realizando é um desmonte do próprio Estado e das instituições públicas, dos quais quem mais necessitam são justamente os pobres e desvalidos. A crueldade do receituário neoliberal seguido à risca pelo representante dos banqueiros, Paulo Guedes, aboletado no inflado Ministério da Economia, está na clara ação de governo voltada para atender as demandas do capital e dos capitalistas e a destruição de toda proteção legal ao trabalho e para os trabalhadores. Temos pela primeira vez um governo que sequer em nível de retórica ou de discurso mostra preocupação com a miséria, com a desigualdade social, que volta a crescer, com o desemprego, com a absoluta ausência de oportunidades de futuro para os mais pobres. Em mais de uma ocasião o próprio presidente, em seus sincerissídios, deixou claro que quem gosta de pobre é o PT, e que qualquer discurso que se volte para a defesa dos mais carentes é expressão de miserabilismo e vitimismo.

A fala preconceituosa e agressiva contra os governadores “paraíba” (sic), aos quais nada deveria ser dado, é apenas a reafirmação pública de que temos um governo inimigo dos pobres, um governo assumidamente preconceituoso em relação aos mais necessitados, um governo que encarna, sem disfarces, a visão de nossa classe média e de nossas elites endinheiradas sobre o pobreza. Essas sempre fizeram uma leitura moral da pobreza, sempre colocaram na conta dos miseráveis a sua própria miséria. Numa reação psicológica comum, a da denegação, esses privilegiados tratam de dissociar a situação de carência do outro do fato de que tenham tanto, de seus próprios privilégios, tratando de atribuir à preguiça e falha moral do miserável o fato de que fique com parcela tão diminuta da renda nacional. O que incomodava muito a essa gente nos governos petistas não era apenas o fato de que esse admitia a existência da pobreza e a colocava como problema central em sua administração, mas era o fato de que pela primeira vez tínhamos um governo que associava a existência da pobreza à gritante má distribuição de renda e riqueza no país. Embora não tenham parado de ganhar dinheiro e de lucrarem durante os governos petistas, nossas elites não suportavam ter como governantes pessoas que não partilhavam seu estilo de vida ou suas ideias em relação ao mundo. Irem a reuniões com um presidente que lhes diziam que eles eram responsáveis pela enorme desigualdade social no país, os constrangia e indignava. Terem um presidente que não saiu de seu meio social, que não partilhava de sua maneira depreciativa de ver pobres, pretos, trabalhadores, favelados, catadores de lixo, moradores de rua, sem terras e sem tetos, os enchia de raiva e de revolta de classe. Por isso, mesmo diante do desastre político e administrativo que é o governo Bolsonaro, mesmo diante do despreparo notório da equipe de governo mais medíocre que a República já viu, essas elites quedam caladas e coniventes, mesmo que o país esteja indo para o buraco econômico e venha se apequenando no cenário internacional. Essa gente não pode dar o braço a torcer porque o aleijão desse governo é apenas o reflexo do aleijão moral e civilizacional das elites capitalistas, capazes de em nome do lucro e da acumulação, destinarem milhões de vidas humanas ao desprezo, ao abandono, ao desespero, ao nomadismo sem rumo e sem destino.

O preconceito contra o nordestino, alimentado pelos próprios discursos das elites política, econômica e intelectual dessa região, que optou por viver da exploração da miséria e da pretensa inferioridade física e social desse espaço, é apenas um capítulo do preconceito contra os pobres, os trabalhadores, os pretos, os mestiços, aqueles considerados matutos, analfabetos, ignorantes. O preconceito contra o nordestino, os paraíbas e baianos, é o preconceito contra o trabalho manual, contra aqueles que exercem as atividades menos qualificadas no mercado de trabalho. A invisibilidade de outra migração nordestina, a de seus cérebros, de seus intelectuais, de seus artistas, daqueles que, nascidos entre as elites nordestinas, também tiveram que migrar em busca de um lugar de destaque na vida artística e cultural do país, deixa claro que esses não são vistos e ditos como nordestinos, esses não são paraíbas e baianos, sendo logo integrados como intelectuais e artistas nacionais, com alguns deles fazendo questão de renegar até suas origens. Se referir aos governadores do Nordeste como paraíba mostra, apenas, que Bolsonaro não é um membro das elites brasileiras que veste punho de rendas, apesar de ter sempre o chicote e o tacão no bolso. O governo Bolsonaro passará para a história como um governo que didaticamente expôs as entranhas do que é a elite brasileira. Ela pode até rejeitar se ver em seu espelho, mas ele é apenas a encarnação grotesca e grosseira do que sente, pensa e de como age as nossas elites e nossas classes médias. Bolsonaro fez uma declaração racista, mas qual a surpresa? Nossas elites são racistas, são produto de mais de quatro séculos de escravidão, de séculos ocupando a posição de senhores de escravos. Bolsonaro é misógino. E desde quando as classes dominantes brasileiras, a maioria do povo brasileiro, não foram misóginos? Bolsonaro apoia a violência, a tortura, faz apologia da morte dos mais fracos e frágeis socialmente, desde que sejam identificados como bandidos ou petralhas. E quando foi que as elites brasileiras deixaram de assassinar os pobres, de mandar eliminá-los, quando se tornaram perigosos para seus interesses e privilégios? Se ele conta com o apoio da bancada ruralista é porque assassinar camponeses e lideranças camponesas foi sempre uma prática comum no país, bem como a prática do trabalho análogo a escravo. Depois da experiência petista, quando seus ímpetos mais bárbaros e anticivilizacionais estiveram contidos, nossas elites resolveram não brincar mais de democracia e Estado democrático de direito, perpetraram o golpe, colocaram no poder quem assume e representa publicamente a sua face mais perversa e resolveram, assim, assumir de vez seus desejos mais perversos e destrutivos. Um governo que, como eles sempre quiseram, incentiva a morte de quem a eles se oponham, que decreta o liberou geral em termos de agressão a natureza, que disponibiliza armas e venenos para que essas tarefas sejam realizadas o mais rapidamente possível. Para que se enganar, esse não é um governo não desejado, uma excrescência. Bolsonaro nunca se escondeu, sempre foi o que está sendo, ele sempre foi essa pessoa truculenta e sem noção, e sempre retornou ao Congresso Nacional com grandes votações, portanto, ele representa o que pensa, sente e é, pelo menos, um terço da população brasileira, a maioria composta de homens brancos, ricos ou de classe média, moradores de cidades, com boa escolarização o que, como vemos, não impede que a ignorância reine. Nossas elites sempre se destacaram pelo letramento e pela ignorância, até pela estupidez, qual a novidade?

O que o governo Lula significou foi ser uma enorme ferida narcísica nessas elites, que viram alguém que julgavam inferior, analfabeto, ignorante, um paraíba, um sem dedo, se tornar o melhor presidente da República que o país já teve, que deixou claro o potencial de desenvolvimento com certa autonomia do país, o potencial do próprio mercado capitalista no país, coisa que nossas elites burguesas de tão colonizadas nunca conseguiram afirmar. Para o ódio absoluto de muitos, ele se tornou o presidente brasileiro de maior prestígio no exterior, mesmo sem falar inglês ou francês, aliás sem falar corretamente o português. Ele foi, na prática, o questionamento da autoimagem das elites e da classe média brasileira, ele derrubou toda a mitologia racista e classista que dava identidade aqueles que se julgam elite no país, daí seu destino só poder ser a cadeia e a tentativa de desmoralizá-lo. Já Bolsonaro é aquele que essas elites fingem publicamente não reconhecer como igual, mas que intimamente, em privado, causa enorme satisfação, causa gozos e regozijos, por dizer e fazer em público o que elas fazem em seu cotidiano: desprezar e explorar pobres, considerar negros, índios e homossexuais como pessoas inferiores e anormais, considerar as mulheres e nordestinos como seres que devem ocupar seus lugares tradicionais de subalternidade. Por que Bolsonaro foi eleito com o voto majoritário daquelas regiões do país onde as elites e a própria população se consideram brancos, mais inteligentes e trabalhadores, como dando maior contribuição para o país? Seria mera coincidência que os eleitores de Bolsonaro desprezem tanto o Nordeste quanto ele o faz? Regiões onde milhares de nordestinos e seus descendentes foram responsáveis pelo trabalho duro, que explorado fez a riqueza de muitos que se dizem descendentes de europeus, embora esqueçam que esses chegaram, quase sempre, muito pobres de seus países de origem, que lá estavam longe de formarem parte das elites. É mera coincidência que municípios que votaram majoritariamente em Bolsonaro tenham, no passado, visto parte de suas elites comprometidas com ideologias de extrema-direita como o integralismo e o nazifascismo e já expressassem um discurso de pretensa superioridade racial?

O ódio preconceituoso e ressentido que o presidente e seu Ministro da Educação devotam a cultura, a educação, a universidade, é algo novidadeiro quando se trata de nossas classes dominantes? Fomos o último país da América a criar universidades, isso diz muito sobre o valor que nossos dirigentes sempre deram a educação. Nossas elites sempre temeram o conhecimento, a inteligência, sempre quiseram fazer deles motivo de distinção e privilégios. A cultura sempre foi passível de censura e policiamento, sempre foi suspeita de ser subversiva e comunista. O fim do Ministério da Cultura, o ataque à Lei Rouanet, o ataque a Ancine, são apenas mais alguns capítulos na longa história de abandono e perseguição das/as atividades culturais no país. Qual a novidade em vermos os representantes do que há mais superficial, mercadológico, banal em termos de produção cultural apoiar Bolsonaro e sua turma, embora ícones do que consideramos o melhor de nossa produção cultural também tenham embarcado no bolsonarismo, já que os valores de classe média e seus preconceitos falam mais alto, nesses casos. O espetáculo deprimente de um presidente bicão, que entra em gramados e estádios, impondo sua presença a torcedores, jogadores, comissões técnicas, é coisa nunca vista no país. A falta de decoro e de noção do que seja a liturgia do cargo, nos deixa perplexos. Fico imaginando se fosse Lula, a correr pelo gramado do estádio do Corinthians, agarrado com a taça, tirando foto da vitória com os jogadores, colocando medalhas no pescoço dos vencedores, o que não iriam dizer o Jornal Nacional, o Galvão Bueno, o Estadão, a Jovem Pan, a CBN e assemelhados. Tão deprimente quanto o presidente bicão, é uma penca de jogadores de futebol, vindos das condições sociais de que vêm, a maioria negros e mestiços, demonstrarem tamanha alienação e sabujice, chegando ao ponto de entoar gritos de mito para quem deveria respeitar o fato de que a seleção é, ou foi, um símbolo nacional, que não pode ou deve ser partidarizado. Tudo começou quando os coxinhas elegeram a camisa da seleção para farda do golpe de 2016, a pretexto de dizerem que o verde e amarelo é um patrimônio exclusivo da direita que, no caso brasileiro, máxima contradição, quase sempre foi entreguista, colonizada e associada aos interesses imperialistas e do capital estrangeiro. Os jogadores da seleção que deveriam, por respeito a milhões de brasileiros que não são de direita e não votaram em Bolsonaro, evitar o assédio constrangedor de um presidente “beijoqueiro”, um presidente invasor de gramados e vestiários, participaram gostosamente da cena patética e que vai destruindo o vínculo de parte da população com o que um dia foi um símbolo nacional. A conivência da CBF e da Commebol com tal cena não causa nenhum espanto dada a história de promiscuidade dessas entidades com todo tipo de governo e de autoridades. Sabemos que a própria identificação desses jogadores com o país vai se tornando pequena à medida que se tornam jogadores internacionais. Mas talvez seja a urgência em se mostrar diferentes dos pobres, de negar de onde vieram, adotar vida e visões de mundo das elites endinheiradas das quais passaram a fazer parte, que explique tanta alienação e sabujice. O caso da nossa maior estrela, que sequer consegue efetivamente jogar em qualquer lugar, totalmente entregue a uma vida alienada por dinheiro, luxo, mulheres (e tivemos um exemplo do tipo de relação que com elas mantém), que não se furta a posar sorridente com e defender o presidente bicão. Tudo ele faz e fará para negar que um dia foi pobre e mulato, já que segundo nossa ideologia racista, quem enriquece embranquece.

As revelações feitas pelo Intercept Brasil, de toda a trama que levou ao golpe de 2016, que teve na operação Lava Jato seu ponto de toque, mostra bem quais os valores e conceitos que definem a vida das elites e da classe média brasileiras. Vai ficando claro que a trama é muito maior do que aquela montada na república de Curitiba. Agora sabemos que Moro e Dallagnol são apenas dois ambiciosos, periféricos e caipiras, com recursos intelectuais limitados, que foram alçados ao estrelato por uma mídia golpista, propriedade de grupos familiares que representam bem o ódio dos poderosos aos pobres, negros, aos deserdados desse país. A mídia, no Brasil, com raras exceções, sempre esteve a serviço dos interesses empresariais de seus proprietários e daqueles que os financiam. A reunião secreta de Dallagnol com representantes de grandes bancos nacionais e internacionais, deixa claro aos interesses de quem o golpe, a Lava Jato, a prisão de Lula, e a ascensão de Bolsonaro estão a serviço. Um promotor e um juiz do Supremo Tribunal Federal, Luís Fux, em reuniões secretas com banqueiros para discutir as eleições do ano passado, é preciso dizer mais alguma coisa? Um juiz, que por coincidência, impediu uma entrevista de Lula durante o processo eleitoral, motivo de preocupação histérica dos procuradores lavajateiros. Fica claro que tanto Moro, quanto Dallsagnol, estavam pouco se lixando para o combate a corrupção, cumpriam ditames políticos, possivelmente advindos dos grupos empresariais, de mídia e internacionais que lhes davam suporte midiático e estratégico. Eles viram na Lava Jato a oportunidade de ganharem dinheiro com a fama alcançada e, no caso de Moro, foi picado, inclusive, pela mosca azul do desejo de ser uma figura política de proa, no país, condenando, prendendo e mantendo em silêncio a maior liderança política do país. Em todo seu comportamento as formas de ser e viver da classe média brasileira, sempre desprezando os de baixo e ambicionando tornar-se um da minoria que ocupa o topo da pirâmide. O deslumbramento dessa gente com o fato de estarem frequentando salões e ambientes em que nunca pensaram entrar, a ideia que de que estavam finalmente sendo aceitos entre os de cima, fez com que passassem os pés pelas mãos e cometessem tantas arbitrariedades, toleradas por estarem fazendo o serviço sujo, o serviço que capangas, jagunços, capitães do mato, pistoleiros, esquadrões da morte, torturadores e milicianos sempre fizeram para nossa civilizada elite. A falta de escrúpulos de alpinistas sociais fica evidente e a ânsia por dinheiro e notoriedade também. Diante disso onde ficam os pobres? Destruir milhares de empregos fechando e desvalorizando as empresas nacionais é um preço muito pequeno a pagar se o resultado é a fama e o ganho, se é a simpatia dos poderosos, daqueles que podem ser generosos pagando alguns mis reais para ouvirem a fala hipócrita de um paladino da moral que está tendo sua reputação regiamente remunerada. Os trabalhadores ganham muito, tem muitos direitos segundo o nosso presidente, enquanto empresários pagam muito imposto, enfrentam muitas dificuldades legislativas, ambientais, inclusive devendo ser poupados dos cortes na previdência social, esses são o mantra do governo dos ricos.

A chamada reforma da previdência, aprovada em primeiro turno na Câmara dos Deputados, é a explicitação de que esse é um governo que governa de costas para os pobres. A pretexto de acabar privilégios, ela só aprofunda os privilégios, sendo um poderoso fator de ampliação das desigualdades sociais. Toda a economia que promete fazer sairá das costas e das contas dos mais pobres e vulneráveis. A vergonhosa exclusão da cobrança de uma alíquota maior sobre a propriedade, para atender aos ruralistas, acompanhada do fim da aposentadoria especial para os professores, de redução do valor das aposentadorias para os mais carentes é um atestado que estamos diante de um governo que assumidamente tomou o partido dos poderosos, revoltados com alguns anos em que o Estado resolveu também atender as demandas dos mais necessitados. Em toda sua arrogância e insensibilidade social nossas elites pariram esse enorme rato, que é esse governo de pessoas primárias e xucras, revelando o lado mais selvagem e incivilizado daqueles que dominam a nossa sociedade e ocupam a posição de privilegiados.

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Durval Muniz de Albuquerque Jr. é professor, historiador e escreve aos domingos

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