OPINIÃO

Um mapa para a ideologia

A noção de velocidade foi mesmo redimensionada nesse tempo de redes sociais. Mal começamos a digerir a notícia da prisão do ex presidente Lula e os milhares de especialistas em execução penal desapareceram subitamente das nossas TLs para dar lugar a inúmeros doutores em política internacional.

Com a rapidez dos misseis tomahalks de Donald Trump as opiniões polarizaram, partindo para o já velho e conhecido alinhamento automático quando aparece o nome “Estados Unidos” em nossas telinhas.

Os que se dizem de direita, apoiando sem concessões o grande irmão do norte, paraíso idealizado, terra prometida de onde flui leite e mel. Os que se dizem de esquerda, gritando contra as garras assassinas do maligno império do mal, do “grande outro”, fonte de todas as nossas misérias. No final das contas o que falta no Brasil quando o tema é Estados Unidos é um mapa qualquer da ideologia, que nos oriente nessa selva de retórica que é política internacional.

Não há como negar que a crise que atinge os EUA é também uma crise de ideologia. Mesmo o mais empedernido patriota norte americano, fã de carteirinha do cineasta Clint Eastwood, que parecia acreditar sinceramente que sua hegemonia estaria assegurada por ter ganho a guerra fria contra o comunismo, já sabe que a aliança Russo-chinesa será, no futuro, o seu maior polo opositor. Assim, como ficou claro que a história não acabou sepultada debaixo das ruínas do muro de Berlim, o que sobrou no cimento ideológico que justifica as lutas políticas no oriente médio, foi a noção de “choque de civilizações”. A ideia de um combate entre a democracia cristã ocidental capitalista contra o inimigo oriental, muçulmano, sino-socialista.

O problema é que fica cada vez mais difícil sustentar uma justificativa ideológica desse tipo, que demoniza o governo de Assad na Síria, um dos poucos países em que os cristãos orientais conseguem viver com alguma dignidade, enquanto da suporte a Arábia Saudita, o Estado mais anti democrático, misógino , anti-cristão e fundamentalista da região. Como não se assustar com o paradoxo de que o maior aliado dos norte americanos no mundo islâmico seja o único entre os países muçulmanos do oriente médio que substituiu totalmente, sem nenhuma cerimônia, uma Constituição Moderna, pela Shariah, a lei islâmica do século X, extraída do Corão e das Sunas que interpretavam a palavra do profeta?

O fato é que depois da invasão norte americana no Iraque em 2003, que tanto governos democratas quanto republicanos do país que em tese lidera o “mundo livre”, não conseguem dar uma bola dentro no que diz respeito ao oriente médio. Desmantelaram os regimes autoritários não fundamentalistas da região e deixaram um espaço vazio de terra arrasada para o surgimento de toda sorte de grupos salafistas, jihadistas e fundamentalistas. Acabaram dando de presente para o mundo Estado Islâmico, que assombrou seus aliados europeus com um tipo descentralizado e difuso de terror, transformando cidades de forte tradição libertária, como Paris, em uma praça sob ocupação militar permanente. Com a intervenção na Líbia, que levou o velho ditador Muamar Kadafi ao cadafalso (perdoem o trocadilho infame), acabaram criando uma zona desestruturada no norte da África, controlada por gangues mafiosas e grupelhos tribais que traficam seres humanos. Pra completar, durante o governo de Obama, os norte americanos abdicaram de derrubar Assad quando tinham chance e deram aos russos a oportunidade de intervir no conflito sírio, fazendo Putin colher o bônus de ter praticamente decidido a guerra.

Hoje, quase duas décadas após o 11 de Setembro, os norte americanos veem o eixo China, Rússia e Irã formar um cinturão no oriente médio. No fim das contas, será a China, e não os Estados Unidos, que irá reconstruir a Síria. Esse novo “plano Marshal” redigido em Mandarim, implica a reconfiguração de uma rota da seda ligando Pequim à Europa ocidental, passando pelo oriente médio e pela África.

Diante disso, amigo velho, responda com sinceridade: o que restou aos Estados Unidos, Paralisado por suas próprias contradições internas e pela fragilidade política de seu presidente?

No momento sobraram apenas os 150 tomahawks lançados para lembrar ao mundo que, mesmo tempo de baixa econômica e desamparo político, o governo de Washington ainda tem a hegemonia militar. Esse é o significado geopolítico dos ataques americanos à Síria esse mês de Abril.

O resto é ideologia.

E ideologia, como todo mundo sabe, é como mal hálito: a gente sempre nota o do outro, mas esquece de prestar atenção no da gente.

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.