OPINIÃO

Um Oscar popular?

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que anualmente concede os Oscars, anunciou, há duas semanas, que pretende criar uma nova categoria: o Oscar para melhor filme popular. A proposta faz parte de uma série de medidas que a entidade quer implantar nos próximos anos e que foram votadas no dia 7 de agosto.

Essas novidades tentam reverter um panorama de distanciamento do Oscar com o público. Este ano, a cerimônia que premiou A Forma da Água teve queda de 19% de audiência televisiva em relação ao ano passado, segundo noticiou a Folha. Em 2017, o filme que ganhou a estatueta de melhor filme, Moonlight, arrecadou 65 milhões de dólares. Muito pouco, perto da bilheteria de Capitão América – Guerra Civil, um dos mais vistos no mesmo ano: 1,15 bilhão de dólares.

O que está em jogo, portanto, nessa proposta de um Oscar para o melhor blockbuster (como são chamados os sucessos de bilheteria nos cinemas), é muito mais que a velha dicotomia do gosto popular versus gosto erudito. O retrogosto dessa novidade é a crise existencial de uma entidade que está sendo acusada de não dar visibilidade a minorias (lembremos do #Oscarsowhite) e que agora sente que está cada vez mais distante do público jovem, que banca ingressos, e todos os outros produtos decorrentes dos filmes.

A tentativa de aproximação é um movimento natural de qualquer organismo representativo que se perceba atrasado. E isso acontece por aqui também. O Festival de Gramado, que começou na última sexta-feira, por exemplo, prestou uma homenagem pela carreira de Carlos Saldanha, o cineasta que dirige animações em Hollywood (A Era do Gelo 2 e Rio são assinados por ele). Que filmes da carreira de Carlos Saldanha foram feitos no Brasil e que poderiam ser exibidos no Festival de Gramado? Nenhum. Mas o Festival de Gramado entendeu que ele merece o prêmio. Será que alta lucratividade das animações do cineasta tem a ver com isso?

O que essa discussão tem de interessante é o questionamento que se pode fazer, a partir dela, quanto ao valor que nós, meros espectadores, damos a prêmios como o Oscar e o quanto eles pesam na hora de valorizarmos um filme. Se o Oscar que se aproximar do que nós elegemos como melhor, por meio da medida das bilheterias, estamos nós ainda utilizando métricas como a do “filme premiado” na hora de escolher um filme?

Ouso apostar que não. Com o aumento da gama de opções de filmes via streaming, o selo “vencedor do Oscar” que saltava do cartaz na locadora deixou de ter destaque. A indicação dos amigos em redes sociais e os algoritmos do Netflix, que indicam o que pode se adequar mais ao gosto de cada um, parecem ter disparado na corrida de critérios do espectador. Além disso, com o acesso à informação facilitado como nunca pela internet, posso saber hoje qual o filme premiado no Festival de Cinema Fantástico de Sitges e ter, em algumas horas, esse filme no HD do meu computador.

O que os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood já perceberam, e não podem admitir, é o que o Oscar perdeu em relevância nos últimos anos, por uma questão geracional, e não de critérios. Os prêmios são muitos, os filmes, inúmeros, e o acesso, quase que irrestrito. Não é mais o Oscar que diz o que é bom e o que é ruim. E isso é maravilhoso.

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