OPINIÃO

Um país onde a inteligência é suspeita

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Talvez nunca tenhamos vivido tempos de exposição maciça de ignorância, de falta de conhecimento, de boçalidade, como os que vivemos agora no país. De uma hora para outra, ser um energúmeno se tornou chic. Expor, publicamente, nas redes sociais, sua absoluta falta de noção se tornou regra. O não saber é exposto como virtude. Dizer todos os dias que as pessoas são uma bosta, bosta, bosta, o credencia a enviar ao Congresso proposta legislativa para retirar de um dos maiores educadores de todos os tempos, que, talvez, por mero acaso seja brasileiro, o título de Patrono da Educação Nacional. Atores pornô, com o cérebro menor de que seus membros eretos, tornam-se especialistas em educação e assessores do Ministério da Educação. Os partidários de um movimento chamado Escola Sem Partido, comparam os professores a violadores de menores, espancam nossa inteligência e a gramática para defenderem uma escola partidária, ideológica e de direita. Generais que desconhecem os livros de história e um punhado de gente que parece nunca ter lido um só livro sobre a ditadura militar e civil implantada em 1964, pedem a volta daqueles brilhantes tempos de corrupção, tortura e obscurantismo. Grupos de extrema-direita invadem os campi universitários para espancar estudantes e professores ou para nos oferecer versões sobre acontecimentos históricos, como a Revolução Russa, sem que tenham preparação para isso. Um senhor acusado pela própria filha de ter apontado um revólver para os filhos e ter ignorado o abuso sexual de que ela foi vítima, usando, segunda ela, técnicas de lavagem cerebral, aparece como o guru filosófico do momento, com milhares de seguidores. Um grupo de ignorantes moralistas se tornam especialistas em arte e retomam o bordão nazista da arte degenerada para fechar exposições, atacar museus e propor a cobertura das partes pudendas de artistas e imagens. Pretensos mitos alçados à condição de candidatos a presidente da República, vociferam bordões machistas, misóginos, homofóbicos, racistas, prometendo acabar com a violência liberando o uso de armas, após bater continência para a bandeira americana e banhar-se nas águas do rio Jordão. Para a educação a solução seria um general no Ministério da Educação e a militarização do ensino. Outro defende a distribuição de lixo liofilizado para os alunos da rede escolar, se traveste todo dia de algum personagem, enquanto desfila nacional e internacionalmente proferindo sandices com ar de revelações de um gênio.

Temos, hoje, uma das elites mais chucras, mais despreparadas, mais ignorantes do mundo. O nível de bordel da linguagem de nossas autoridades, parlamentares e empresários, flagrados em escutas telefônicas, não me deixa mentir. Um quase presidente da República, a cada dez palavras ditas, profere quatro de baixo calão (haja baralho, baralho, orra, orra). Até mesmo nossos juristas supremos, que vomitam, quando no plenário, uma oratória barroca ou rococó, quando desvestem as togas agem como moleques e trocam desaforos e epítetos de corar a vovó Mafalda. O Procurador Geral, sainte, aquele que só procurava o que queria, não cansava de trocar carícias verbais com juízes, advogados e parlamentares. A estrela maior do judiciário midiático, frequentador de telas e assentos de cinema, com saco de pipoca para assistir seus próprios feitos, agride, todo dia, a língua pátria, as leis, a Constituição e a inteligência alheia. Pastores midiático-parlamentares, que não conseguem ler um discurso escrito, por um assessor, em plenário, definem o que deve ou não constar dos currículos escolares, o que deve fazer parte dos planos estaduais e municipais de educação. Outros mais espertos transformam a ignorância e a carência social, emocional e afetiva, de amplas parcelas da população, em fonte de renda, com leituras e interpretações da Bíblia capazes de fazer corar de vergonha o mais extático dos anjos. Leituras literais das figuras do texto sagrado permitem o apoio à intolerância religiosa, à perseguição a minorias ou ao ataque a direitos fundamentais da pessoa humana. Promotores que confundem Engels com Hegel pontificam na mídia e na sua caçada fascista em nome da moralidade e do combate a corrupção, transformando presunção de inocência em presunção de culpa, ganhando os holofotes navegando na sanha punitiva, em que até japonês condenado por contrabando virou estrela. Outra sumidade do nosso Ministério Público inova completamente as interpretações históricas ao afirmar que o nazismo é de esquerda, no que é seguido por um rebanho vociferante de bestificados. A nossa mídia do “erramos” depois que o estrago nas reputações e na honra alheias está feito, depois que o cadáver do implicado jaz sepultado, das notinhas que corrigem manchetes garrafais, da mentira profissional, da má fé militante, dos especialistas em tudo e em nada, dos historiadores que não veem a poeira de um arquivo há vinte anos ou nunca pisaram numa sala de aula de História e se dão ao luxo de ter interpretação para tudo, no calor da hora, desde que a versão agrade ao patrão que o subvenciona regularmente com poupudo soldo. A mídia dos comentaristas que gritam muito para esconder sob a saraivada de perdigoto seu reacionarismo despreparado ou dos entrevistadores e apresentadores que entrevistam a si mesmos ou se digladiam com o entrevistado se esse teima em expor alguma ideia original e diferente da doxa da empresa. A mídia dos programas jornalísticos que trocam e escondem a notícia e os eventos, que se tornaram a continuação da novela, com âncoras que fazem caras e bocas, que andam por cenários futurísticos enquanto emitem opiniões que nos levam para a Idade Média. Um país presidido por um homem cumulado por denuncias de irregularidades, capaz de confundir Suécia e Noruega, cruzeiro e real, que agradeceu a propaganda após acabar de dar uma entrevista na TV, que deu a Carlos Magno os cavaleiros da távola redonda como companhia, que considerou um massacre num presídio de “acidente pavoroso”, que nos brinda com poemas e mesóclises de duvidoso gosto, extinguiu assim que tomou posse o Ministério da Cultura, fundiu o Ministério de Ciência e Tecnologia com o das Comunicações, como se ciência e mídia fossem a mesma coisa; rebaixou o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) para o quarto escalão do Ministério; mantém o Arquivo Nacional há seis meses sem diretor, reduziu drasticamente os recursos para as Universidades; bloqueou o crescimento dos investimentos em educação por vinte anos, inviabilizando o cumprimento das metas do Plano Nacional de Educação.

Mas não há evento que tenha explicitado de forma mais clara esse verdadeiro ódio a inteligência, essa suspeita permanente e constante contra as pessoas que pensam e as instituições educacionais, científicas e culturais do país, do que o episódio envolvendo o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina. Nesse evento vimos se explicitar como os órgãos policiais e judiciários do país continuam tendo uma atitude de suspeita em relação à universidade, atitude que vem de longa data, como tentarei mostrar mais adiante. Os órgãos privados e oligopolizados da mídia também continuam tratando a universidade, e a educação em geral, como objeto de suspeição. Mesmo entre a população a universidade não aparece como uma instituição bem vista, talvez por anos de isolamento e de pouco acesso em que viveu. Sabemos que desde a colonização portuguesa a universidade não foi bem vista. Em toda a América Latina, o Brasil foi o único país que chegou ao século XX, sem possuir uma universidade. Enquanto na América Hispânica elas foram criadas logo no início do processo de colonização. No Brasil, a Igreja Católica e o Estado português, associados, nutriam uma grande desconfiança em relação à extensão do ensino superior para suas possessões coloniais. Podemos dizer que já nascemos para o mundo sob a suspeição da inteligência e do conhecimento. Nossas autoridades, desde a Colônia, aprenderam a desconfiar dos livros, dos escritos, do pensamento, da leitura, da educação. Fogueiras de livros, índex, intelectuais e artistas, fichados, presos e torturados, exilados e mortos, censura pesada sobre a produção cultural é uma constate na história brasileira. O analfabetismo e a ignorância grassavam entre grande parte de nossa classe senhorial. Muitos daqueles que tinham assento nas câmaras municipais quando muito sabiam assinar o próprio nome. O ensino superior, só alcançável frequentando a Universidade da metrópole, era privilégio de poucos.

Após a independência essa situação não mudou muito. Foram criadas algumas Faculdades responsáveis por formar as elites dirigentes, mas uma boa parcela das elites rurais continuou mergulhada na mais pura caturrice. O ensino público só foi sendo organizado aos poucos e estava muito distante do acesso às camadas populares. Numa população ainda formada por um grande número de escravos a falta de letramento e mesmo o valor da educação era bastante baixo. Até meados do século XX, era comum que grande parte das mulheres das elites tivessem educação sumária e precária, e que os pais escolhessem alguns dos filhos para estudar, mantendo outros na mais pura ignorância. Com a expansão capitalista no país, com a imigração de estrangeiros, alguns imigrantes, não propriamente destacados pelo nível educacional, chegaram a integrar a nossa burguesia empresarial. Havia empresários que o tamanho da fortuna concorria com o tamanho da falta de educação, nos vários sentidos dessa expressão. Eu mesmo sou filho de um proprietário de terras, herdeiro de famílias latifundiárias, que havia chegado a essas terras desde o período colonial que, além de semianalfabeto, não nutria nenhum entusiasmo pela educação. Se estudei foi graças aos esforços de minha mãe, embora ele também tenha contribuído com o sustento material que me permitiu fazê-lo. Muitas gerações de minha família foram marcadas por verdadeiro desapreço a educação, o que tinha valor eram terras, vacas e cheiro de bosta. Quando meu pai apresentou sua esposa sulista a meu avô, poderoso, rude e bronco, ele foi logo perguntando: “A senhora trouxe alguma cabeça de gado?”. Os meus primos, da mesma geração que eu, muitos não quiseram estudar e hoje tornaram-se proletários ou pequenos proprietários de terra que lutam com grande dificuldade.

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As próprias instituições de Estado sempre tiveram certa recusa à universidade. Desde o período Vargas, quando finalmente o ensino universitário começou a se expandir e se fortalecer no país, as instituições de ensino superior foram objeto de vigilância, censura e expurgos. O anticomunismo que se tornou estrutural no país, após a tentativa frustrada de golpe comunista em 1935, levou, como leva ainda hoje, quando o comunismo só sobrevive na paranoia da direita e nas cabeças dogmáticas e a-históricas de alguns setores da esquerda, a que a Universidade seja vista como um foco de subversão. Essa paranoia se consolidou após o golpe de 1964, que contraditoriamente expandiu significativamente o ensino superior, mas o submeteu a extrema vigilância política, dada a participação decisiva de estudantes e professores universitários, mas também do ensino básico, nas manifestações de resistência à ditadura e mesmo na composição dos grupos armados que se rebelaram contra o regime ditatorial. A associação, no imaginário do país, entre professor e estudante universitários e comunistas é uma constante, notadamente se eles pertencerem as chamadas ciências humanas. O movimento Escola sem Partido parte do pressuposto falso de que todo professor é de esquerda, quando, na verdade, o que vemos hoje são professores cada vez mais conservadores, religiosos, individualistas, preocupados com suas carreiras e não com causas sociais. O golpe do ano passado contou com apoio de destacadas figuras da universidade, inclusive da área das ciências humanas e sociais aplicadas. Como nos anos sessenta e setenta a resistência a ditadura também se fez através da contestação de valores dominantes, da adesão pelos jovens universitários à chamada contracultura, no imaginário nacional, nas mitologias que circulam socialmente e são apropriadas pelos setores mais conservadores da sociedade, inclusive pelo aparato jurídico-policial e pela mídia, todo professor ou estudante universitário, notadamente na área das humanidades ou das artes usam drogas, são “maconheiros”, são homossexuais, as meninas praticam a promiscuidade sexual, fazem abortos, etc, etc, etc, daí a proposta de militarização das universidades e do ensino de “valores” pregada pelo candidato da extrema-direita a presidência da República. A perseguição à Universidade Federal de Santa Catarina, aos seus dirigentes, não é de agora e o caso do reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo é apenas o ápice de todo um patrulhamento que vem sendo perpetrado desde quando uma reitora ligada a setores de esquerda ascendeu ao posto de dirigente máximo da instituição. Secundada sempre pela mídia local, de um dos estados mais conservadores do país, a Polícia Federal, realizou incursões no interior da Universidade, algumas sequer autorizadas pela Reitoria, o que viola a autonomia universitária, para investigar ou coibir o que seria o tráfico de drogas no campus, acusando dirigentes da instituição de serem coniventes com a situação. Dirigentes universitários respondem a processos por tentarem evitar a prisão de estudantes ou tentarem mediar os conflitos produzidos por essas ações policiais.

O caso do reitor Luiz Carlos Cancellier é exemplar desse clima de eterna suspeita em relação à universidade, que teve que burocratizar ao extremo todos os seus procedimentos e atividades internas por causa da judicialização generalizada. Qualquer coisa passou a ser motivo de denuncia ao Ministério Público e ao poder Judiciário. Os próprios professores, estudantes e funcionários passaram a acionar a Justiça sempre que veem seus interesses contrariados. A denúncia anônima, o dedurismo (que se alastra em todo momento de exceção) como no caso do reitor, tornou-se tão comum quanto a delação premiada, nesse momento em que todo mundo é suspeito, senão criminoso, até prove o contrário. A paranoia punitiva retirou o ônus da prova de quem acusa transferindo para quem é acusado, numa subversão de um principio basilar do direito. A espetacularização das atividades policiais e judiciárias, que começa com a transmissão ao vivo pela TV de julgamentos, uma jaboticaba tipicamente brasileira, se espalha levando juízes e procuradores a se tornarem justiceiros e paladinos da moralidade pública, em busca de seus dez segundos de fama. A juíza Janaína Cassol Machado conseguiu seus segundos de celebridade ao decretar a prisão preventiva (que se tornou carne de vaca no país, logo transformadas em prisões temporárias que não acabam nunca) de um reitor que sequer havia interrogado ou que sequer havia sido comunicado do que estava sendo acusado. Um jurista, com residência fixa, com bons antecedentes se vê preso e acusado de obstrução de justiça por querer se informar do andamento de uma investigação, mantida em sigilo pelo corregedor da UFSC, Rodolfo de Prado, que era um seu subordinado direto, mas que se negou a repassar as informações solicitadas, prejudicando a Universidade que teve suspenso o envio de recursos pelo MEC para o programa de ensino à distância. Embora nunca tenha sido acusado de desviar os recursos, sua prisão foi coberta ao vivo pela mídia (sempre avisada pela PF, que chegou a deslocar cerca de 100 homens de todo Brasil para montar o espetáculo, talvez em busca de reproduzir a película cinematográfica de baixa audiência que protagonizou), que passou a veicular de forma criminosa de que ele havia participado do desvio de 80 milhões de reais, quando esse era o total de recursos a ser repassado para o programa. O desvio teria sido na verdade de cerca de 300 mil reais, e teria acontecido em período anterior a seu reitorado. Não satisfeitos com a humilhação pública, com a exposição midiática de uma autoridade universitária acusada de ser ladrão, foi levado para uma carceragem onde foi mantido nu e submetido a uma vistoria anal (com que finalidade não é possível atinar, que eu saiba a obstrução não era da via retal). Os grandes órgãos da mídia nacional secundaram a mídia local na execração pública. A sanha antiuniversitária, o desejo de macular a Universidade pública, visando sua privatização, o anticomunismo ou o antiesquerdismo chulo, se reuniram para produzir uma tragédia anunciada. Humilhado, impedido de entrar na Universidade a que dedicara toda a vida, com sua honra irremediavelmente manchada por uma exposição que fere completamente o caráter sigiloso que uma investigação deve ter, ele foi solto um dia depois pela juíza substituta Marjôrie Cristina Freiberger, que em seu despacho diz não ter encontrado motivos para a detenção espetaculosa. Isso foi o bastante para acender a ira da colega que mandara prender o reitor que, contrariando a Lei Orgânica da Magistratura, veio a público assacar críticas contra a colega que, como é comum nos dias que correm, por cumprir a lei foi acusada de ser conivente com a corrupção. Só restou ao reitor, como um gesto de denuncia da injustiça sofrida, como uma forma de alertar o país para o perigoso caminho que está trilhando, sabendo-se já morto socialmente, como uma forma de defesa da Universidade pública – a causa de toda sua vida, desde que foi militante estudantil -, se atirar em pleno paraíso do consumo, o templo simbólico desses tempos em que vivemos de apreço pela mercadoria e desapreço pelo conhecimento, pela inteligência, pela vida humana, o shopping center Beiramar. Mas mesmo depois de morto, juízes federais saíram em defesa do abuso de autoridade e do arbítrio de que ele foi vítima e a mídia silenciou sobre sua participação nos feitos, usando pequenas notinhas para agora dizer que ele era apenas um investigado de obstrução de justiça, não de roubo. Mas nesses tempos de pós-verdade, para os carniceiros das redes sociais seu gesto foi confissão e ele continua a não merecer sequer o benefício da dúvida. Afinal, era da Universidade, era um professor, era um educador, portanto um suspeito em potencial. Como construir cidadania num país em que ser inteligente é crime, em que ter conhecimento é motivo de suspeita, em que ter senso crítico pode ser a antessala da prisão, em que o corpo docente pode terminar nu e seviciado?

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Durval Muniz de Albuquerque Jr. é professor, historiador e escreve aos domingos