OPINIÃO

Um [R]elicário de ideias para a memória do hotel Reis Magos

O concurso de ideias “MEMÓRIA DO HOTEL REIS MAGOS”, que teve por objetivo principal qualificar o debate sobre o tombamento do Hotel Reis Magos, partindo do princípio de que a estrutura é passível de recuperação, foi proposto e organizado pelo coletivo [R]existe Reis Magos em parceria com o IAB/RN e o IAPHACC. As propostas apresentadas deveriam discutir sobre as possibilidades de uso que considerem dois pontos, que se complementam: a preservação da tipologia do edifício, o seu reconhecimento como exemplar expressivo da arquitetura moderna brasileira – como atesta o estudo sobre a importância histórica, simbólica e arquitetônica do Hotel Reis Magos, desenvolvido por sete pesquisadores do Departamento de Arquitetura da UFRN; sobre o direito à cidade e, com isso, promover a educação patrimonial; e a necessidade de proposição de usos condizentes com a demanda social das comunidades adjacentes ao edifício, demanda essa balizada pelos documentos “Seminários Populares: O desenvolvimento da Orla pelas comunidades – Síntese das discussões” e “Reflexões e Caminhos para as Praias do Meio, Forte e Redinha” – produzido pelo Projeto Orla – que foram disponibilizados no edital do concurso.

Ressalta-se a importância de iniciativas como essa em tempos em que se vê cada vez mais forte a negação do debate democrático das ideias – em que somos diariamente bombardeados por discursos e falas de caráter estritamente opinativos e, por muitas vezes agressivos; em que se vocifera a negação da ciência e do conhecimento – É urgente, portanto, demonstrar resistência e resiliência, sob pena de sermos atropelados por interesses particulares que tentam se sobrepor ao interesse coletivo, ao direito da sociedade à sua própria história.

Quatro equipes apresentaram de modo criativo e claro o que o edital solicitou: enfatizaram a premissa de um espaço de caráter público/coletivo, cujos usos deveriam ter por finalidade incentivar o uso coletivo e priorizar a comunidade local, reforçando a memória e o uso do bem pela coletividade, de acordo com os dados apresentados nos documentos de caracterização física e socioeconômica da área; também seguiram as estratégias de projetos sugeridas com relação a ser uma proposta de intervenção em um bem de reconhecido valor patrimonial: distinguibilidade, reversibilidade e preservação da tipologia do caráter modernista da edificação existente. As equipes buscaram articular possibilidades de retomada de uso do imóvel a estratégias projetuais de preservação e valorização das características arquitetônicas do edifício modernista.

A comissão julgadora, formada pelo arquiteto André Duarte Baptista da Câmara Municipal de Torres Vedras, Portugal, responsável pelo acompanhamento dos projetos de regeneração urbana que estão em desenvolvimento nessa cidade desde 2014; pelo arquiteto George Alexandre Ferreira Dantas, professor do DARQ/PPGAU-UFRN e pesquisador do grupo de pesquisa História da Cidade e do Urbanismo (HCURB); e pela arquiteta Natália Miranda Vieira-de-Araújo, professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco (DAU/UFPE), pesquisadora e referência nacional em estudos sobre patrimônio e preservação que atualmente se encontra em Roma para estudos de Pós doutoramento. A comissão julgadora analisou as propostas e emitiu pareceres que serão apresentados a seguir.

A equipe [R]ELICÁRIO, vencedora do concurso, apresentou várias referências conceituais importantes, incorporando conceitos centrais a reflexão do problema em questão com destaque para os conceitos de conservação integrada, autenticidade e integridade. Propõe o uso misto – demonstrando viabilidade arquitetônica em um novo arranjo dos módulos para diversos tipos habitacionais nos pavimentos superiores, além de espaços de serviços, comércio e cultura e lazer no subsolo e no térreo – é uma contribuição importante dessa proposta. Verifica-se um esforço para aproveitar ao máximo o edifício preexistente, contribuindo não apenas para a preservação do patrimônio, mas também para a sustentabilidade ambiental, reforçada pelas soluções de projeto.

A equipe PRUMO parte da ideia de revitalização do HIRM a partir da inserção de um uso misto para um “Centro de Arte e Cultura” que contempla partes expositivas e educacionais. O uso proposto considera o envolvimento e a interação com a ocupação do entorno imediato. A partir da adoção de um partido que pretende se ligar ao conceito de “Ciranda”, a equipe propõe integrar o edifício com o contexto urbano e apresenta em seu texto a forma como pretende atingir esse objetivo: “através da ligação com ciclovias, abertura integral do térreo com uma praça coberta para possibilitar a fruição e a incorporação de um traffic calming, para garantir um modelo viário mais inclusivo, priorizando os pedestres, ciclistas e outros modos ativos.” A proposta de inserção de cobertura e criação de um terraço superior com uso de placas fotovoltaicas evidencia uma preocupação com o aproveitamento geral do espaço e com a sustentabilidade ambiental do edifício.

A equipe DRAD propôs recuperar, em parte, do uso original do edifício como Hotel, mas dessa vez com uma perspectiva de se tornar um centro Profissionalizante, além de abrigar área de exposições e restaurante. A proposta desse tipo de uso misto se apresenta como uma grande qualidade da ideia apresentada, pois leva em conta simultaneamente tanto o contexto atual de inserção do hotel quanto a sua vocação inicial. Vocação, diga-se, que ainda forte relação com os moradores das comunidades vizinhas. Este grupo enfrentou o problema da circulação vertical e sua adequação ao edifício. O volume da escada inserido é explorado na sua representação gráfica da ideia projetual demonstrando a solução técnica e a criatividade da proposta.

A equipe CUCA propõe uso semelhante denominado como “Centro de Cultura e Arte Reis Magos para jovens e adultos”. A tentativa de trabalhar o conceito quadra-aberta e, ao mesmo tempo, a combinação com uma área com acesso restrito demonstra uma preocupação importante para a questão da inserção urbana do equipamento.

O parecer também destaca as múltiplas possibilidades de uso aventadas pelas equipes, atestando a qualidade do projeto original do HIRM, de autoria de Waldecy Pinto, Antonio Didier e Renato Torres. A lógica estrutural e espacial do edifício permite ainda hoje especular novos arranjos e soluções projetuais, podendo ser adequado muito bem às demandas contemporâneas.

Os integrantes da comissão julgadora reforçaram a satisfação em contribuir para um debate de tanta relevância para a preservação do patrimônio moderno potiguar – que pode e deve ser valorizado como elemento que ajude a impulsionar o desenvolvimento econômico, urbano, social e cultural.

Todas as propostas podem ser vistas no site do concurso:

https://rexistereismagos.wixsite.com/concursodeideias/vencedoresdoconcurso

Parabenizamos as equipes que, através de suas propostas, se somaram a essa discussão e colaboraram para desmistificar a falsa ideia de que quem defende a preservação do Hotel Internacional dos Reis Magos é contra o desenvolvimento da orla de Natal. As propostas demonstram que, com criatividade e respeito ao patrimônio e a memória da cidade, é possível conciliar novos usos, interesse social e econômico.

Observação: as imagens aqui utilizadas foram retiradas do conjunto de pranchas enviadas pelas equipes, conforme solicitado pelo edital do concurso.

Eunádia Silva Cavalcante

José Clewton do Nascimento

Professores do Departamento de Arquitetura da UFRN

Integrantes do Coletivo [R]existe Reis Magos

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