OPINIÃO

Um vírus comunista

Foi o ex-chanceler Ernesto Araújo há um ano quem acusou o filósofo Slavoj Žižek de estar se aproveitando da pandemia para introduzir no mundo ocidental um outro vírus: o “comuna vírus”.

Žižek, que pensava estar dialogando com um diplomata respeitado e não com uma espécie de Beato Salú da beira do Guaíba, respondeu ao ex-chanceler dizendo que ele não havia entendido a questão.

Saber se Ernesto Araújo conseguiria entender alguma questão filosófica é um mistério para mim, mas parece óbvio que um sujeito que assume o comando da política externa no maior país da América Latina e implementa como projeto a salvação espiritual do ocidente, não entende porra nenhuma de geopolítica, a despeito de recitar trechos do evangelho em grego koiné, o que me leva a uma desconcertante suspeição acerca da qualidade das provas de seleção do Instituto Rio Branco.

Mesmo quando pensamos na “filosofia” de Araújo, que aparentava defender no cargo para onde o levaram, a noção claramente inspirada no ideário nacional-socialista de que haveria uma ligação entre as “elites financeiras globalistas” e a esquerda marxista no sentido de patrocinar “o esvaziamento espiritual do ocidente” e a escravização dos povos livres da terra; é muito difícil imaginar que o preparo intelectual do ex-chanceler o permitisse compreender as sutilezas da questão proposta por Žižek.

O fato é que talvez, de um modo enviesado e filosoficamente pouco sofisticado, o antigo responsável pela política externa brasileira pode ter, supreendentemente, feito o movimento certo, só que na direção errada.

O ponto é: e se a gente parar um segundo para pensar na tese de Araújo? E se nos defrontarmos por um instante com a hipótese de que o novo Corona Vírus possa ser realmente um “vírus comunista”?

Obviamente não no sentido do vírus, uma entidade limítrofe entre o orgânico e inorgânico, um simples pedaço de informação genética revestido de gordura, professar platonicamente alguma doutrina política moderna que emergiu no esteio da Reforma protestante (como liberalismo, socialismo ou anarquismo, por exemplo).

Mas se recolocássemos a questão nos seguintes termos: e se a pandemia do famigerado SAR-COV2, com seu dispositivo biológico cego de auto replicação intracelular, colocar em cheque, para as gerações que experimentarem seu efeito avassalador, a arquitetura ideológica que sustenta as democracias liberais?

Marcadas pela noção de que a subjetividade individual é a base metafísica de toda ordem social, essas ditas democracias até agora estão sendo as mais castigadas pelos efeitos do vírus (a julgar pelo que ocorreu nos EUA, Reino Unido e Brasil, por exemplo). Incapazes de avançar sobre supostos direitos individuais e liberdades subjetivas (como a de se aglomerar em templos, fazer festas privadas e espalhar notícias falsas nas redes sociais) essas democracias estão sendo duramente castigadas com milhares de mortos e uma desestruturação econômica sem paralelo nos últimos 70 anos. Com exceção honrosa, é importante ressaltar, da Austrália e da Nova Zelândia (que se localizam geograficamente no oriente apesar de alguns acreditarem que são “culturalmente” ocidentais), aquilo que se convencionou a chamar de ocidente está levando uma peia grande nessa pandemia.

No fim das contas são justamente os países que adotaram medidas que soariam, na perspectiva do bolsolavismo, típicas de “ditaduras comunistas”, que estão se saindo melhor no combate ao vírus.

Aqueles países que cercaram cidades, reduziram a circulação dos cidadãos, confinaram populações em apartamentos, cerraram fronteiras, rastrearam o movimento de infectados pelos celulares, impuseram toques de recolher, desobedeceram regras econômicas fiscalistas para dar suporte social as suas populações e combateram fortemente as Fakenews nas redes sem dar bola pra apelos pela “liberdade de expressão”, são os que estão conseguindo manter a pandemia em níveis sustentáveis até que o processo de vacinação se complete.

O que parece evidente é que a questão que a pandemia do SAR-COV2 nos coloca é justamente essa: para sobrevivermos aos desafios de um século que se anuncia com os ventos de uma catástrofe climática e biológica sem precedentes na história humana, precisamos enfrentar o “problema do comunismo”.

Dito de outro modo: precisamos encontrar uma resposta para a questão de como lidar com aquilo que é comum, que é do campo do partilhado, do coletivo, do comunitário. Se não reconstruirmos em nossas sociedades, condicionadas ideologicamente por um expressivíssimo romântico e de um subjetivismo liberal exagerado, o espaço do comum, do coletivo, do partilhado e do comunitário, dificilmente avançaremos pelo século que se inicia de fato agora, sem custos humanos monumentais unidos a uma desagregação política e social acelerada.

Talvez por isso, tanta gente aparentemente inteligente, se entregue com essa paixão fanática ao negacionismo. Entre a crueldade obscena do Real e as fantasias de nossas crenças ideológicas, é bem mais confortável, pra muitos, manter-se em seu sono dogmático, até que a morte, a maior de todas as professoras da humanidade, comece a exercer sua pedagogia impiedosa nas calçadas de suas casas.

 

 

 

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.

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