OPINIÃO

Uma busca desleal

Caro leitor, caro leitora, cá estamos nós aqui mais uma vez para outra viagem por parte da história esquecida do povo preto potiguar. Para quem não leu o primeiro texto – “Gregório, onde está você?” -, peço por favor que o faça.

Confesso que minha intenção não era nem continuar batendo a história do menino Gregório. Porém, a forma abrupta que se encerrou a história de Gregório nos jornais de Assu inquietou-me. Pelo que passaram seus pais Luiza e Francisco da Gama, sem o mínimo de notícia que fosse e muito provavelmente sem a mínima condição de encontrar o filho? Lembrei-me também das crianças desaparecidas do Planalto, cujo o 1º dos 5 casos acaba de completar 20 anos em novembro.

Então, tomado por um desejo de resposta, como que fosse uma necessidade de dar algum tipo de resposta a Luiza e Francisco, caí mais uma vez nos arquivos digitais da Biblioteca Nacional, mesmo consciente de que pouco conseguiria. Sabia que a última pista de Gregório era a de que tinha sido levado pelo mercador de escravos Felippe Máximo da Rocha Bezerra de Macau ao Recife e vendido na capital pernambucana no primeiro semestre de 1877. Mais uma vez os jornais nos ajudam. Pouco, mas ajudam.

Em periódicos como Jornal de Recife, Diário de Pernambuco e A Província são inúmeros os registros de entradas e saídas do mercador de escravos no porto do Recife, antes e depois da data em que Gregório foi levado do Rio Grande do Norte.

As notas indicam ainda um negócio que Felippe Máximo era sócio na capital pernambucana, mostrando que ele não era um simples negociantes, visto que também são vistos registros do seu nome levando escravos até o Rio de Janeiro!

Pois bem, isto posto, voltemos a Gregório. Não há condição alguma de informar que os escravos de nome Gregório que aparecem 8 vezes em jornais de Pernambuco e do Rio de Janeiro – os locais frequentados por Felippe Máximo – são o Gregório potiguar, retirado dos seus pais com a ajuda de juízes e políticos para ser vendido.

Um fugiu do engenho Santo Amarinho, em Afogados-PE, em junho de 1881 e outro do engenho Amaragy, onde hoje é Rio Formoso-PE, em abril do mesmo ano. Já outro – ou seria o mesmo, seria o potiguar? – Gregório foi libertado por D. Umbelina Amalia de Mello em 1883. Quais desses seria o filho de Luiza e Francisco?

Em comum a todos esses homens resta ao todo sempre a falta de história, de raiz, de sobrenome. Todos homens pretos sem direito a nenhum tipo de memória que não seja essa arrancada a força de folhas antigas de jornais que não deixaram ao menos seus nomes serem apagados. Tal qual um oroboro, a serpente que morde a própria cauda, deixo mais uma vez a pergunta que intitula o artigo anterior: Gregório, onde está você?

P.S.: Deixo aqui registrado o alerta que recebi de que a história do menino Gregório foi abordada em dois artigos apresentados em 2016, no campus de Caicó da UFRN. Aos historiadores Aldinízia de Medeiros Souza, Antonia Márcia Nogueira Pedroza, José Evangelista Fagundes, Clara Maria da Silva e Aristildes Morais da Silva Neto, que anteriormente percorreram o mesmo caminho que eu fiz pelos jornais da Biblioteca Nacional, parabéns pela iniciativa de resgatar a história do povo preto e abrir novos flancos fora do cânone da historiografia local.

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