OPINIÃO

Uma centelha na pradaria

Em 2013 eu estava em Salvador um pouco antes do carnaval. Ainda não havia ocorrido as jornadas de Junho e não existia nenhum indício evidente no ambiente político dos acontecimentos que despontariam naquele ano e que levariam a derrubada do PT do poder três anos mais tarde, culminando, por fim, na eleição de Bolsonaro, naquele fatídico ano de 2018.

Na ocasião eu conversava com um conhecido que trabalhava pro sistema financeiro e que se considerava “conservador nos costumes e liberal na economia”, antes de ser “modinha”. Lá para as tantas, em meio a argumentos atravessados aqui e acolá, ele disse: “Você tem de entender que a esquerda usa uma tática gramsciana de controle da hegemonia social através do aparelhamento do Estado.” Na mesma hora eu arregalei os olhos. Estava embaraçado, na verdade estava bem envergonhado. Como era possível que um cara como ele, conservador de direita, amante de um suposto modelo econômico liberal norte americano, atuando no sistema financeiro e com formação na área de administração de empresas, tivesse lido a obra de Antônio Gramsci, e eu não? Fiquei calado e deixei que ele concluísse o discurso com um augúrio sinistro contra a minha pessoa: “Quando o PT completar seu plano de domínio social, vocês liberais de esquerda serão os primeiros a ir para o paredão!”.

Um ano depois, em pleno calor da campanha eleitoral de 2014, enquanto ainda tentava entabular pelas redes sociais algum diálogo com um advogado conhecido, antipetista radical, ouvi novamente aquele diagnóstico, praticamente com as mesmas palavras: “Você tem de entender que a esquerda usa uma tática gramsciana de controle da hegemonia social através do aparelhamento do Estado”. Na mesma hora eu pensei: “Opa. Que porra é essa? Tem alguma coisa errada aí”.

Tempos depois descobri o que era.

Meio que por acaso, acabei cruzando com um vídeo de Olavo de Carvalho em que “o guru” da bolsomania, junto a seus usuais xingamentos, palavrões e exuberantes imagens proctológicas, defendia a tese de que Gramsci teria pensado um método conspiratório infalível para o domínio das massas: “a esquerda usa uma tática gramsciana de controle da hegemonia social através do aparelhamento do Estado e blá blá blá”.

Foi um alívio saber que meus interlocutores, assim como eu, não haviam lido Gramsci, apesar de usá-lo de modo tão incisivo em suas argumentações. Mesmo sem nunca ter me aprofundado em Gramsci ficava encucado como era possível que esse povo, situado mais à direita no campo político, tivesse tanto medo de um eurocomunista sem gordura hidrogenada, que havia morrido de modo trágico em uma prisão de Mussolini e que havia supostamente pensado uma estratégia universal de implantação de uma revolução mundial por meio de um método de instalação de regimes comunistas, tão inofensivo, que nunca teve sucesso em lugar nenhum da terra?

Só mesmo Olavo de Carvalho para alimentar esse tipo de paranoia.

Pensei comigo mesmo: “Esse povo tá com medo de Gramsci? Imagine quando eles conhecerem Mao Tsé Tung.”

Assim como Ho Chi Minh nos anos de 1920, Mao compreendeu a necessidade de construir uma adaptação do marxismo a uma base cultural oriental, que permitisse que as ideias de Marx e Engels pudessem fazer sentido para as massas camponesas da China profunda. Ao contrário do seu camarada vietnamita, no entanto, que era filho de nobres mandarins e havia sido educado nas melhores universidades francófonas durante a ocupação colonial, Mao era um legítimo representante da classe campesina. Foi justamente essa base rural, fincada em uma origem provinciana do sul da China, que permitiu a Mao traduzir e adaptar o leninismo ao espírito mais autêntico do povo chinês de modo que a ideia de revolução pudesse fazer sentido, não para uma elite de intelectuais universitários concurseiros (como imaginam os olavetes brasileiros), mas para as massas camponesas.

A tese fundamental de Mao era a de que, em cada situação específica, há uma contradição particular diferente que é expressão de uma contradição geral, mais ampla. Para se vencer a guerra revolucionária seria preciso enfrentar a contradição específica, tomando-a como principal, de modo a se ultrapassar, passo a passo, meticulosamente, todas as barreiras em direção à revolução.

Com o lema: “de derrota em derrota até a vitória final”, Mao seguia a ideia de Rosa de Luxemburgo, em sua crítica ao reformismo social democrata, e sabia que não bastava esperar pacientemente um “momento certo” para a eclosão de um levante popular. Ele tinha plena consciência de que, no campo das revoluções, quanto mais se espera por elas mais distantes elas ficam.

Para que a revolução pudesse acontecer no oriente, o grande timoneiro (como era chamado o líder chinês), produziu uma poderosa desleitura de Marx, subvertendo os conceitos típicos da filosofia ocidental para uma base confucionista e taoista, mas afeita ao entendimento do povo que habitava aquele que foi chamado por séculos de “O império do centro”. Assim, o “homem superior” confuciano, tradicionalmente vinculado aos modos refinados e eruditos da intelligentsia elitizada de Xangai e Pequim, ganhou uma conotação de força física, disciplina militar e rigidez moral próprias das camadas populares.

Do mesmo modo, em seus escritos, Mao usava termos tradicionais chineses para descrever as ideias marxistas (inseridas em uma tradição de pensamento derivada de conceitos gregos e da filosofia hegeliana). Dessa maneira, ao invés de falar sobre “comunismo” (algo difícil de traduzir em Mandarim ou Cantonês), Mao falava sobre “grande harmonia” e sempre que ia fazer referência a dialética hegeliana ele usava o conceito taoista de equilíbrio e unidade de opostos, presente no símbolo do Tao (mais conhecido por esses litorais, pela galera do surf e da macrobiótica, como “Ying/Yang”).

Mas a expertise estratégica da guerra de guerrilha do “grande timoneiro” não se deu fundamentalmente em algum campo cultural abstrato, como acreditam os olavetes tupiniquins.

Em uma carta escrita com críticas a “certas visões pessimistas” existentes no partido comunista chinês, e datada de 05 de Janeiro de 1930, com o título “Uma só centelha pode iniciar um incêndio na pradaria”, o camarada Mao explica como produzir as condições para o que ele chamava de “maré alta da revolução”.

Nessa toada, o líder comunista elencava, bem no espírito de Sun Tzu, o mestre da estratégia militar chinesa, quatro princípios fundamentais da guerra de guerrilha, que depois iriam ser reproduzidos com mais ou menos sucesso, mundo afora, durante todo o século XX: 1. Dividir as forças para instigar as massas e concentrar as forças para lidar com o inimigo; 2. O inimigo avança, nós recuamos; o inimigo acampa, nós o fustigamos. Ele se cansa, nos o atacamos. Ele retrocede, nós o perseguimos; 3. Para ampliar nossa área de influência, avançar em ondas. Quando perseguidos por um inimigo mais poderoso, empregar a tática de rodeá-lo; 4. Incitar grandes setores das massas no menor tempo possível e pelos melhores métodos possíveis.

No fim das contas, o que o camarada Mao buscava em seu texto era alertar que: “a realização da grande tarefa revolucionária não é trabalho simples e fácil e dependerá inteiramente das táticas corretas e firmes do partido proletário”.

Só aí os olavetes já poderiam suspirar aliviados porque, afinal, a esquerda brasileira é pródiga em fazer análises de conjuntura delirantes e, como consequência, é useira e vezeira na aplicação de táticas muito pouco corretas e firmes.

Mas, como as narrativas ideológicas são mais sedutoras, em seu conteúdo paranoide, do que análises políticas mais realistas, no Brasil do bolsonarismo, se enxerga um agente gramsciano do marxismo cultural em cada professora primária, jornalista de portal de fofoca, escritor de livro paradidático pra sexta série ou ator que anima festa de criança com encenações das princesas da Disney.

Pelo andar do grande e lento carro de boi da política brasileira, esse cenário de surto ideológico ainda vai durar um bom tempo. Até porque não há psicotrópico suficiente no mercado para apaziguar a viagem imensa de muitos influenciadores digitais tupiniquins e o eletrochoque anda meio fora de moda, depois que Foucault tacou fogo nos hospitais psiquiátricos com a publicação do seu “A história da loucura”.

Mesmo assim, a gente precisa sempre bater na tecla de que o camarada Mao (que ao contrário de Gramsci liderou uma guerra revolucionária raiz) sabia perfeitamente que essa balela de hegemonia cultural, por si só, não dá liga pra revolução e repetia a todo momento: “devemos ter consciência de que o poder político só vem do cano de um fuzil”.

É por isso, amigo velho, que sempre que seu olavete de estimação vier com esse papo de “a esquerda tem uma tática gramsciniana de controle da hegemonia social através do aparelhamento do Estado e blá blá blá” seja piedoso. Respire fundo e pergunte: “Esqueça Gramsci. Você já ouviu falar do camarada Mao?”

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.

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