OPINIÃO

Uma final argentina no Maracanã

Confesso. Estou com muito medo de ter que “engolir” uma final argentina no Maracanã. Como gostaria de estar enganado e ter mais confiança nos clubes brasileiros. As semifinais que começam a ser disputadas nos dias 5 e 6 de janeiro são duelos que mexem, muito, comigo desde que me entendo de gente. Perder dos argentinos sempre é muito doído, que bobagem né não? Mas padeço desse mal. Tenho uma teoria muito minha que, imagino, pouca gente pensa igual. Desde a vitória do Brasil na Copa de 1994, com aquele time meia boca salvo por Romário, Taffarel e boa defesa, temos sofrido com que classifico de “Era Parreirista” no futebol do Brasil, uma espécie de enfeiamento, acovardamento do esporte que sempre foi considerado o melhor e mais bonito do mundo.

Quase todos os treinadores “vencedores” do futebol do Brasil dessa data em diante, formados nos círculos CBFianos, tiveram Carlos Alberto Parreira, o cara do plágio do livro de táticas, como mestre e mentor. Espalhou-se pelo nosso país (continuo explicando que é uma teoria minha, muito particular) uma revoada de treineiros retranqueiros do tipo que se sustentam nos empates, nos “jogar por uma bola” e na garantia do emprego, eles os inventores dos brucutus volantes, das entrevistas de enciclopédia, do falar bonito e vazio, na criação de esquemas mirabolantes, fazendo dessa posição que nem existia – cara parado na frente da defesa dando botinada e batendo no braço em sinal de garra, jogando pra inocente torcida – talvez a posição mais valorizada nas últimas décadas.

Antes, os clubes primavam por atacantes e meias criativos em seus plantéis, desde então o número de camisa 5, marcadores, os “homens de pegadas” são em muito maior número desde o endeusamento da dupla ruim Mauro Silva e Dunga, que ainda tinha Mazinho que não era meia e Zinho, o “enceradeira”, na seleção “vencedora”.

O último absurdo de Parreira, já faz tempo, mas ainda ecoa nos meus ouvidos, declaração super destacada pela imprensa esportiva burra e cega do Brasil formada, em sua maioria, por mauricinhos de ótima memória e conhecimento de futebol de essência nenhum, foi que “o jogador precisa passar pela Europa para vestir a camisa da seleção”. Por essas e outras que temos que suportar os Firminos, Fabinhos, Williams, Neris, Alans, Danilos e até Coutinhos da vida, jogadores que já provaram que a cor amarela das camisas não combina com o amarelão deles em jogos decisivos, principalmente, de Copa do Mundo.

A imprensa brasileira prefere repetir Parreira e esquecer o que sempre fala Guardiola ou o que realizaram, formaram e deixaram de ensinamentos mestres como Telê  Santana, Didi, Oto Glória, Flávio Costa e Cilinho, para citar esses poucos. E seus exemplos, seguidores de Parreira, estão fazendo o futebol do Brasil descer a ladeira, estando hoje, infelizmente, muito atrás da Europa e correndo o risco de deixar de ser o melhor até mesmo da América do Sul.

Por isso meu temor nas próximas decisões contra argentinos. Agora, explico meus motivos: o Palmeiras me encantou. E por conta de Veron, claro, passei a ser Verdão de corpo e alma, e mais quando o time está jogando sem o Felipe Melo, perna de pau bolsonarista, ou vice e versa. Aí veio o jogo contra o Libertad, quartas de final que imaginei ser barbada. O estranho 1 a 1 sofrido no Paraguai e os 3 a 0 em casa, mas só depois da expulsão. Acompanhei os 90 minutos, analisando com frieza o time que vinha de goleadas em Brasileiro e na competição da Conmebol. A minha decepção, desculpem palmeirenses, foi total.

Que porra de opção tática foi essa? Esperar? Dar campo? Jogar no contra-ataque contra a equipe de pior desempenho entre os quadrifinalistas?  Abel Ferreira caiu por terra em meu conceito. A partir dessa desilusão dei uma olhada nos rivais da taça do time verde desde o começo. Abençoado Palmeiras, a partir da fase de grupos sempre se batendo contra clubes muitos mais fracos e sem tradição. Para piorar a situação, minha confiança despencou mais um pouco com o empate chinfrim diante do América Mineiro (que merece meu respeito, mas é Série B) em partida de semifinal da Copa do Brasil.

É daí que me vem a incerteza maior. E  fico pensando que, se o Palmeiras oferecer o campo e bola ao para o Ríver Plate de Marcelo Gallardo ditar a partida, tenha absoluta certeza que vamos ver aumentar para 7 o número de triunfos dos Hermanos. Tomara que possamos ver a repetição de 1999, justamente o último duelo entre os dois há 21 anos, derrota de 1 a 0 em no Monumental, placar garantido aos milagres do goleiro Marcos, com 3 a 0 no jogo da volta, em show de Alex na finalíssima em São Paulo. No histórico das duas equipes, muito difundido na imprensa argentina, vitórias do atual vice-campeão em 6 dos 12 disputados, contra 3 vitórias do Verdão e 3 empates. Mas aí, no geral, contra todos os clubes Hermanos o histórico do Palestra é bem positivo, em 33 confrontos, venceu 14, empatou 11 e foi derrotado em 8. Que assim seja, amém!

E o outro duelo? O Santos contra o Boca Juniores. Os caras falam que o Tevez está jogando muito, que o time é isso, aquilo, mas não vejo, não sei se é minha cegueira nacionalista. Entretanto, quando olho o Santos jogar, confesso, não me animo tanto, e meu medo maior, volto a falar de treinadores, se concentra justamente na forma como os brasileiros se comportam em decisão. A minha maior decepção em duelos, esse no Mundial, foi quando o Santos de Neymar e Ganso, um time que sabia, que podia jogar muito mais, se encolheu, se acovardou e tomou a goleada na final contra o Barcelona, em 2011, 4 a 0. Um vexame que atribuo, 200% por cento à covardia de um treinador brucutu e retranqueiro e até hoje reverenciado pela mídia do Brasil, o Muricy Ramalho. O Santos que tinha os dois meninos jogando o fino da bola, concordo, o restante do time não era grande coisa, mas nunca para ficar apenas 29% de posse de bola e chutar a metade de vezes ao gol. Uma vergonha inesquecível.

Tenho medo de Cuca repetir Muricy. Aliás, um comandante que nunca me convenceu como treinador, ainda mais quando sabemos das suas superstições exageradas, besteirol que muito mais atrapalha. Não! Nada contra supersticiosos, faz parte,  o futebol acomoda sim esse tipo de coisa desde que existe, mas não da forma exagerada do Cuca. E no quesito jogo jogado, time por time, acho, se equivalem, mas a forma de jogar, o posicionamento, a definição da tática, de como vai ser a postura e, acima de tudo, o emocional dessa decisão entre os maiores do Continente – Brasil x Argentina – será componente decisivo.

Será que os festejados jogadores, “craques”, do Santos são mesmo merecedores de serem elevados ao “patamar” de grandes decisões de Libertadores, e ainda mais contra os mais poderosos rivais? Tomara que sim. No duelo dos treineiros, o Cuca pode até me surpreender e ver no outro dia as besteiras dos clichês de que ele deu “nó tático”, mas  tenho pouca fé e acho que o Miguel Ángel Russo muito mais treinador.

 

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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