OPINIÃO

Uma geração que não entendeu nada

Em bate papo com o filho Pedro, ele comentou, espantado, que entre os fãs da interminável série de mangá/anime “One Piece” há jovens bolsonaristas e conservadores. O espanto de Pedro se dá devido ao conteúdo da série: Jovens que enfrentam um governo totalitário e repressivo e que tem entre os heróis, gente nada convencional como travestis e pessoas não-binárias.

Compartilhei com o filhote meus assombros idênticos em relação a este assunto. E, pelo que vejo, de maneira ainda mais acentuada em relação à gente de minha idade, na faixa dos 45/50 anos. Uma geração que foi criança nos anos 80 e adolescente nos 90. E que hoje, pelo menos em grande parte e de maneira bem acentuada nas minhas bolhas, vive uma contradição eterna entre ideia e prática, um fosso entre o que curte e a praxis.

Ou seja, uma geração que, por exemplo, assistia a animação europeia Os Smurfs, que tratava de uma comunidade igualitária, socialista mesmo, onde todos os problemas eram resolvidos de forma coletiva. E que adolescente curtia as HQs dos X-Men (depois vertidos para o cinema em bons filmes), quase um tratado explícito sobre diferenças, preconceito e (in)tolerância. E que hoje – mesmo gostando das obras citadas – predica justamente o oposto do que elas abordavam e defendiam.

Mas o que a minha geração mais me assusta em relação à dicotomia teoria-prática é quanto ao bom e velho Rock in roll. Tudo bem que o rock nunca foi lá tão subversivo quanto a gente imaginava nas nossas utopias e que a juventude é uma banda numa propaganda de refrigerante, como cantava Humberto Gessinger. Porém, o cenário em relação ao consumo de rock atualmente entre os “coroas” me parece distópico. Surreal mesmo.

Dia desses percebi um conhecido de adolescência que virou bolsonarista daqueles de defender “escola sem partido” e apoiar intervenção militar, postando na timeline um vídeo dele próprio ao violão cantando e tocando “Another brick in the wall”. Passei minutos aturdido e perplexo. Como assim, ele – que sabe inglês – não percebeu que a letra de Roger Waters para o álbum “The wall”, que depois virou filme clássico, critica justamente um sistema educacional repressor e um governo totalitário !? Em que momento aconteceu essa disruptura cognitiva no cidadão que ele não percebe que canta algo que ele condena nas próprias postagens ?

Gente amiga fã do U2 e que se mostra xenófoba, misógina tenho aos montes. Penso sempre em mandar traduções das letras do Bono e uns vídeos legendados dos shows aos vivos com os discursos do vocalista. Não entra na minha cabeça uma pessoa gostar de “In the name of love (Pride)” e nas redes sociais usar os termos “mimimi” e “racismo inverso”.

O amigo professor e economista Wellington Duarte volta a meia aborda esse tema, do espanto com os roqueiros conservadores, acentuadamente na cena metaleira. Não que eles não tenham o direito de sê-lo, mas causa desconforto ver a incoerência dos gostos em relação às ideias. Como fica um sujeito que canta de forma emocionada “Índios” da Legião Urbana e depois vai para as redes sociais defender que os garimpeiros invadam terras indígenas?

Tenho consciência que alguns dos roqueiros, eles próprios, se tornaram conservadores quase fascistas mesmo, casos mais notórios os de Lobão (que já reverteu essa fase e está em uma espécie de limbo) e Roger Moreira, do Ultraje e Rigor.  Morrissey, meu ícone de juventude, se tornou uma tia fascista e xenófoba. Faz parte, infelizmente. O curioso é que roqueiros reacionários, digamos, não necessariamente passam a curtir estes citados, até porque parte da obra de alguns destes vai justamente contra o que eles apregoam atualmente.

De qualquer maneira o que me aborrece e decepciona é a distância entre discurso e prática. Ou, pior que isso: A ignorância (involuntária ou proposital) sobre o conteúdo. Perdoável em pré-adolescentes imberbes, não em cinquentões com poder aquisitivo e acesso à informação.

Se bem que informação atualmente, mesmo para a faixa citada acima, é pelo zap e com excesso de fake news, não é? O que parece certo é que em relação à bagagem cultural consumida pela minha geração ao longo de quase quatro décadas ela não entendeu nada. Uma pena.

 

 

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