CULTURA

Uma noite de Khrystal no Beco das Garrafas

Cheguei na hora marcada e fui o primeiro a entrar na boate Bottles Bar, pontualmente às 21h30 de uma quarta-feira carioca de clima ameno. As ruas ao redor do lendário Beco das Garrafas, uma artéria encravada entre prédios na rua Duvivier, em Copacabana, estavam cheias de torcedores do Flamengo uniformizados à espera de mais uma partida do time pela Libertadores da América.

Naquela noite, no mesmo palco onde já pisaram estrelas da música brasileira como Dolores Duran, Baden Powell, Dorival Caymmi, Francis Hime, João Donato, Lenny Andrade, Maysa, Nara Leão, Milton Nascimento e Elis Regina, o show seria de uma natalense que duas décadas antes dera os primeiros passos na música em outro Beco, batizado “da Lama”, num Rio mais distante, Grande no nome e do Norte na geografia oficial.

Atualmente, quase 20 anos depois, essa mesma natalense é uma das estrelas do musical que conta a vida e trajetória de Elza Soares, dona de um dos maiores públicos da história recente do Beco das Garrafas. O espetáculo já rodou o Brasil e segue em temporada em São Paulo até meados de agosto, antes de voltar para o Rio.

Painel com o nome da maioria dos músicos que passaram pela Bottles bar

Não vou mentir para o leitor. Não era a estreia de Khrystal no Beco das Garrafas. A cantora e compositora potiguar canta na Casa que testemunhou o nascimento da Bossa Nova nos anos 1950 e 1960 desde meados de 2008, quando esteve no Rio e conheceu a dona do estabelecimento num desses típicos encontros e desencontros cariocas da vida. Desde então, as portas das duas boates que resistem no Beco se abrem para ela. Os shows, agora, acontecem com mais frequência em razão de Khrystal ter fixado a residência e o coração no Rio há um ano e três meses.

No tempo da Bossa Nova, o Beco das Garrafas – cujo nome era uma referência à chuva de garrafas que vinha dos prédios vizinhos em direção aos boêmios mais insistentes – era formado por três boates. Além da Bottles Bar, havia a Little Club e a Baccará. Das três, apenas a Baccará virou um quadro empoeirado na parede. Os artistas que se apresentam no lendário local se revezam entre a Bottles e a Little (um único ingresso vale para as duas boates), duas pequeníssimas casas de shows que mantém a aura de uma época em que, diferente do que ficou para a história, não havia glamour. O Beco das Garrafas era um nicho underground há 60 anos, com artistas em início de carreira que ralavam para chegar longe. O ápice foi nos anos 1960, quando a dupla de produtores Luís Carlos Miéle e Ronaldo Bôscoli transformou as três boates num trampolim para a carreira de muitos operários da música, entre elas Elis Regina, cujo primeiro show no Rio de Janeiro aconteceu no Little Club. O luxo mesmo estava a alguns metros distante dali, no icônico Copacabana Palace, no coração da avenida Atlântica, construído em 1923 e que representou um Rio que não existe mais.

Assim que paguei os 30 reais da entrada, avistei Khrystal com um cigarro na mão direita conversando com Luiz Octávio, tecladista que a acompanharia naquela noite. O show começaria dali a alguns minutos, me avisou antes de um caloroso abraço. Quando passei da porta de madeira preta, apenas o barmen e um garçom arrumavam as bebidas no balcão. Assim que peguei a primeira cerveja o telefone fixo da Casa tocou insistentemente cinco vezes até o barmen resmungar alto, como se falasse para as paredes, que apesar de três garçons ninguém atendera até aquele momento. Da porta, saiu um funcionário puxando a perna esquerda para atender o aparelho.

Placa instalada na esquina com a rua Duvivier, em Copacabana

A Bottles Bar é um pouco maior que a Little Club. No salão há nove pequenas mesas distribuídas em dois espaços: seis mesas em duas fileiras na frente do acanhado palco e mais três mesas num espaço dois degraus mais alto; um sofá com 12 lugares na cor roxa e formato em L com mesinhas redondas na frente a cada dois assentos; mais três cadeiras ao fundo (ao lado do sofá) e um balcão ornamentado com o tradicional desenho do calçadão de Copacabana. No teto são seis lustres antigos de onde refletem uma melancólica meia-luz amarela.

Sentei na segunda fileira na mesa mais à direita, colada a uma pequena grade de ferro que separa o espaço abaixo do palco da área próxima ao balcão. Na play list da Casa tocava Alceu Valença e logo depois surgiram Lulu Santos e Nando Reis. Fazia 10 minutos e ninguém mais entrara no bar, a não ser o barmen e o garçom que puxava da perna, responsável por levar comida aos clientes da Little Club, que assistam outro show desde 20h30. Às 21h41, a voz de Chico Buarque desceu: – “Não se afobe não, que nada é pra já…”, disse o compositor que não tem o nome no quadro dos artistas que se apresentaram na Bottles.

Um minuto depois, às 21h42, três jovens entraram no salão, dois rapazes e uma menina, todos na faixa de 30 e poucos anos. Às 21h44 foi a vez de Maria Rita invadir a Casa pela caixa de som do bar, seguida de Marisa Monte. Os banheiros ficam entre o palco e uma geladeira verde da Heineken, escorada por um bumbo da bateria.

Às 21h52 Chico Buarque voltou cantando Construção. No mesmo instante, uma jovem, acompanhada do baterista, ocupou a terceira mesa. Dois garçons e o barmen discutem sobre o serviço. A segunda fileira está toda ocupada por mim, os três jovens que chegaram depois e a menina que entrou com o baterista. Às 21h57 um jovem sentou num dos sofás atrás das duas fileiras de mesas. Djavan na play list às 21h59 encerrou as preliminares da noite.

Bottles bar é uma pequena casa de shows no Beco das Garrafas

Khrystal subiu ao palco às 22h02 acompanhada de Daniel Conceição na bateria e Luís Octávio nos teclados. Contei 14 pessoas no Bottle’s bar. A artista veste uma saia preta longa, uma blusa estampada com rosas e um laço na frente, e calça uma sandália trançada, estilo romana, de cor clara. Tímida, agradece a presença do público e se apresenta:

 “Olá, eu sou Khrystal. Sou de Natal, do Rio Grande do Norte, e vou mostrar um trabalho autoral de 19 anos”, diz antes de iniciar o show com “Dois Lados”, uma das pérolas do terceiro disco da carreira da artista (segundo autoral), cuja letra é uma espécie de síntese daquele show, naquele lugar, para aquele público:

Vejo que não tenho tempo pra ser uma estrela
É tanto que fazer, minha nêga, que só tu vendo pra crer
E ainda tem gente que pensa que vida de cantor é brisa fresca
Troca de vida comigo, em dois tempos tu vai me dizer
Que eu sou é muito artista, e não seja, não, pra você ver
Mato meu leão todo dia pra não ver o meu canto calado morrer
Na base do que é bom feito amigo, alegria
De outro modo é amargo, o que era pra ser delícia
O glamour tá na vida que não te custa nada, só te custa a vida”

Khrystal se apresenta no Beco das Garrafas desde meados de 2008

 Muitos aplausos ao final da primeira música, cena que se repetiria durante quase 1 hora e 20 minutos. Na segunda canção, “Compositor”, uma parceria de Joyce Moreno com Paulo César Pinheiro e que também integra há algum tempo o repertório da artista.

Luiz Octávio, nos teclados, é um déjà vu. Cego e um incrível virtuose, sorri pelas mãos e a alma, lembrando Ray Charles em transe. Khrystal o chama de “meu Steve Wonder”. Aliás, os três se divertem no palco aos olhos da pequena plateia mesmo sem nunca terem tocados ou ensaiado juntos.

Mesmo à vontade, Khrystal parece nervosa. Pede um uísque, depois lembra que já pediu. Se solta, se liberta porque não anda nem canta sozinha. Khrystal leva o Nordeste no bisaco. Ao anunciar a terceira música arranca um “eita”, em sussurro, da menina da mesa ao lado:

– Vou cantar agora João do Vale, um cabra muito foda lá do Nordeste”.

 Desce Carcará, aquele bicho que avoa que nem gavião. É a metáfora do artista que também pega, mata e come. Khrystal anda acompanhada. Apresenta parcerias com os conterrâneos Luiz Gadelha, Sami Tarik e com o vizinho Chico César. A cantora e compositora que veio do Rio Grande do Norte mantém a cabeça erguida durante todo o show. Elogia os compositores que fazem parte de seu percurso de quase 20 anos e os músicos que tocam com ela:

– Outras coisas não, mas isso a música me dá. Encontrar pessoas que pensam o Brasil como a gente pensa”, se derrete.

Em mais uma parceria, cita o músico potiguar Paulo Oliveira: “meu baixista a vida inteira. Estou com saudades dele”, diz, como se falasse para o espelho, antes de tocar canções de Luiz Gonzaga, Gonzaguinha e refletir, do jeito dela, sobre a música brasileira, no palco consagrado pela Bossa Nova e o pelo samba-canção:

A música brasileira é como “Um minuto de sabedoria”, aquele livrinho. Você abre e tem uma coisa boa pra ver, né ?”, diz.

O Nordeste baixou na Casa da Bossa sem discursos políticos. Teve xote, baião e teve côco. E teve história. No primeiro disco da carreira, lançado em 2006, a potiguar homenageou um conterrâneo. O embolador de côco Chico Antônio, natural de Pedro Velho, foi descoberto, em 1929, na viagem que o pesquisador paulista Mário de Andrade fez ao Norte e Nordeste do país, estudo que originou o livro “O Turista Aprendiz”.

Khrystal ao lado dos músicos Luiz Octávio e Daniel Conceição

 História devidamente registrada e creditada no palco pela artista, emboladora de coco na palma da mão. “Lambada de Serpente”, do alagoano Djavan, também pisou no palco. Um homem se arvora em fazer um pedido:

“Canta Elza Soares”, pede, quase o óbvio ululante, que faz lembrar Nelson Rodrigues, o pernambucano, mais um nordestino, esse o mais carioca de todos.

E lá vai Khrystal promover o reencontro entre a bossa nova, o samba-canção e a carne mais barata do mercado. O show termina. Sem bis. O público aplaude e aplaude mais. Khrystal abraça Luiz Octávio e Daniel Conceição. Está feliz, parece em casa. Agradece aos músicos, ao público.

A luz acende, mas ainda é meia-luz. É noite, na verdade. Uma noite de Khrystal.

No Beco das Garrafas.

 

Khrystal: “Não posso negar que estou feliz”

Khrystal está feliz e realizada com o novo recomeço da carreira

Khrystal está realizada com o novo recomeço da carreira. Ela é uma das sete estrelas que interpretam a cantora Elza Soares no musical “Elza”, em cartaz atualmente em São Paulo. Há um ano e três meses morando no Rio de Janeiro, a natalense nem pensa em voltar para casa. Conversei com Khrystal após o show que ela fez na Bottles bar, um das casas de shows lendárias do Beco das Garrafas, casa da Bossa Nova e do samba-canção no Rio Janeiro:

Saiba Mais: O Beco das Garrafas é um lugar histórico, lendário. É diferente para você tocar aqui ?
Khrystal: Eu sinto porque as pessoas que tocaram aqui no passado fazem parte da minha formação musical, mas pessoas que não ligam muito para a bossa nova e o jazz acho que não ligam muito. Eu ligo. Saber que Lenny Andrade pisou aqui, saber que Elis Regina começou aqui, saber que Baden Powell passou aqui… claro fico “pô mermão, que foda, tô aqui também (risos), tô na batalha” não me igualando a eles de jeito nenhum, mas olhando para eles como um norte. Pra mim faz diferença, emocionalmente faz.

Foi diferente a primeira vez ?
Eu já toquei aqui muitas vezes, mesmo quando eu morava lá em Natal. Sempre que eu vinha aqui ao Rio… porque Amanda é muito minha amiga, ela é filha do Durval Ferreira, compositor, pai da Bossa Nova. Quem me apresentou a ela foi a Liz Rosa, outra grande cantora (potiguar, que hoje mora e trabalha em Nova York). E ela fez essa ponte minha com a Amanda. Acho que foi em 2008 ou 2009, por aí. Depois voltei a Natal e fiquei em contato com a Amanda. E quando vim para o Rio fiquei muito tomada pela agenda do (musical) Elza e deixei a música assim de lado um pouquinho… porque estou me satisfazendo tanto com o musical que não quero mais jogar esse peso da minha carreira toda na música, como eu fazia no passado.

Mas o “Elza” vai acabar um dia…
Vai… um dia né ? Mas vejo uma estrada muito longa, a gente não para nem tão cedo. Férias estratégicas, mas parar mesmo não sinto muito essa áurea. E eu sinto que me completa muito porque me leva para um lugar nada estereotipado, para outro lugar, me leva para outro sentimento. Passei a vida inteira muito estereotipada, né ?

De que forma ?
A cantora dos cocos, dos baiões, que eu amo, mas são nascedouros… em Natal foi meu nascedouro. Mas aqui é meu nascedouro também porque Amanda me dá carta branca. Não sou conhecida aqui, então é começar do zero mesmo. Faço essa conexão.

Você tinha esse desejo de cantar para multidões? Hoje você cantou para 14 pessoas e mesmo assim você está muito feliz…
Estou muito feliz. Eu gosto muito de músico, adoro músico bom. E tocar com esses músicos me dá uma alegria muito grande. Entendo que é um recomeço. E todo recomeço é essa peleja mesmo. Não tenho medo de recomeçar. Sempre lembro de um ditado que minha mãe dizia: “quem tem medo de cagar, não come”. Eu acho que é por aí. Não tenho medo. Vamos seguindo. E é como lhe disse: o musical Elza me completa tanto que não tenho mais esses bodes.

Mas antigamente você tinha ? De chegar numa casa com poucas pessoas…
Tinha. Quando chegava numa casa e tinha pouca gente eu queria morrer. “Meu Deus eu devo estar fazendo tudo errado”, e entrava numas. Mas hoje eu entendo que numa cidade como o Rio de Janeiro, isso faz parte do jogo e todo mundo está nessa peleja. Os artistas fodas que vivem aqui… João Cavalcanti, Moyses Marques, Alfredo Del Pinho. Hoje eu olho para a música de uma maneira muito mais leve. Antes tinha que fechar show para pagar a conta, filho… e hoje eu já sou avó ! Só que eu não jogo mais esse peso todo em cima da música. Isso não existe mais. E devo isso ao musical Elza.

O que tem mais te realizado no musical ? É a experiência, a grana ?
É o conjunto da obra. É a grana também, porque me desobriga de jogar esse peso todo na música. Mas o tipo de trampo mesmo. Não sei se eu tive muita zona de conforto na vida, mas é mais um capítulo novo. Eu já estava me cansando muito. Estava entrando num clima triste em Natal, de que realmente não tinha dado certo. E o que faz ? Senta e chora ? Mas aí veio o convite do musical, uma coisa totalmente nova. Aqui mudei, encontrei um amor…. mudou tanta coisa pra mim… descortinou muita coisa, eu estava precisando disso.

Percebo que no palco você traz todo o Nordeste contigo…
É o certo, é o que faz parte da minha vida. “Canta tua aldeia e serás universal”. Acho que sou a Khrystal de sempre, um pouco mais velha, com o cabelo um pouco mais claro, mas não preciso inventar nada. Não posso negar que estou feliz. No começo dei uma sofridinha, meus pais não estão aqui, meus filhos, mas…

Planos ?
Trampo novo que não posso falar ainda, composições novas, parceria com Laryssa Luz, Chico Cesar, Cátia de França, uma deusa na minha vida, sempre foi um norte na minha vida. E ela tive que conquistar na presença física porque não usa whatsaap, é à lenha (risos). O Nordeste está aqui comigo. Se você não é um truque acho que você vai ser o que você é em qualquer lugar. Eu gosto muito de ser quem eu sou, gosto de como eu canto. Eu não queria ser outra pessoa, não. Eu queria ser a Khrsytal mesmo.

 

 

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"