OPINIÃO

Uma segunda chance

Se eu tivesse uma segunda chance…
Me agarro, os que me conhecem bem sabem disso, à esperança de que possamos ter novas chances.
De voltarmos.
Ah se eu voltasse…

Se pudesse queria de novo nascer em São Tomé, ser filho de ‘seu’ Sinedino e ‘dona’ Toinha e ver alguns filmes de Tarzan no cinema da cidade, dirigido por ele, meu pai. E queria ter descoberto naquela noite, quem foi o desinfeliz que botou a tábua no meio do meu caminho – no salão do cinema cheio –  provocando uma queda e minha maior vergonha (boba) dos tempos de criança.

Queria pode pular de novo no Rio, Potengi, na sua enchente de festas de inverno, e gritaria de cima do pé de umbu do sertão, dando aquele gripo de “Joni Vessimiíler” – Uooooooooooooooooooooooooooooooooooooouuuuuuóóóó! Claro, imitando o nosso herói Rei das Selvas, filme mais visto pela garotada.

Juro, nem acharia ruim repetir a viagem em cima de um caminhão de mudanças, doída na época, para morar na capital, dos sonhos, dos medos, onde, tinha certeza, me tornaria um grande jogador de futebol, igual a Pancinha, Véscio, Zé Ireno, Arandir, Debinha, Jorginho Tavares, Elson e Burunga, meus grandes ídolos do pé de rádio.

Ah! Se eu voltasse eu queria a chance de ser moleque de novo sob o comando de Olinto Galvão e Artur Ferreira no futebol de salão do América. Chegar da aula nas quartas-feiras, correndo, trocando de roupa, esquecendo o jantar para não chegar atrasado aos treinos que começavam às 19h numa das quadras onde hoje está construído (que triste!) um condomínio super luxuoso.

Nos domingos, o outro dia de treino, sair logo cedo, escondido, antes que “Dona” Toinha me acordasse para assistir a chata missa da Igreja do Galo.

E nem ligaria se não tivesse dinheiro para comprar um tênis moderno, caro, entraria em quadra feliz,  de Kichute, meião velho, rasgado, motivo de chacota dos meninos ricos da escolinha mas de quem, ao longo dos treinos, pela bola que jogava e gritos que dava (reclamava mais que jogava) acabei conquistando o respeito, ou medo, não sei.

Queria sim de novo ser estudante do Atheneu, ídolo do Manuel Filgueira, o “Pecado”, nosso treinador, diretor, supervisor, faz tudo, e que vivia me adulando para que eu disputasse os Jogos Estudantis na modalidade de futebol, pois ficava muito triste quando me via treinar handebol (goleiro), com o professor Marcos Farias. Queria muito, de novo, vestir aquela camisa 10 do time verde e branco e marcar mais gols contra os colégios de elite – Salesiano, Marista, Auxiliadora e outros – me transformando em figura das mais conhecidas e queridas do colégio graças à bola.

Queria poder andar de novo falando sozinho pela rua, narrando meus gols, imitando os dribles de Garrincha em sonhos mirabolantes com a camisa do Botafogo. O que é que tem? Vestiria de novo com mesma felicidade as camisas do Força e Luz, do Alecrim, ABC, de Arês, Goianinha, Bento Fernandes, Potengi e Internacional de São Tomé e todos os times de minha infância feliz em Natal – Independe de Edival Burrão, América de Damião, time da lanchonete Chapinha do meu amigo Canela, Botafogo de Hélio, meu Goiás, enfim.

Só queria mais uma coisinha diferente do que muito sonhei no passado. Não queria  vestir a camisa da seleção brasileira. Essa não. Esse símbolo de uma elite doente raivosa, discriminadora, responsável por todas as desgraças que esse país atravessa, juro, não mais faria parte dos meus sonhos.

Queria vestir a camisa de uma Seleção genuinamente brasileira. Que não tivesse nada a ver com canalhice, corrupção, conchavos, preferências, reverências, que fosse completamente desligada da “Casa Bandida”.

E, finalmente,  queria só mais uma coisinha, pequetita, pequetita: que o povo potiguar gostasse um pouco mais de sua própria gente, reverenciasse, de verdade, os bons do futebol, da música, da literatura, teatro, enfim, que não fosse tão dominante entre nós esse horroroso complexo de vira-latas.

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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