CIDADANIA

Uma tarde na Fazendinha de respeito às ‘minas’ e amor pelo futebol

O termômetro do Parque São Jorge marcava 31 graus na tarde ensolarada de domingo (15) atípica, em São Paulo. A temperatura no campo da Fazendinha, no entanto, era muito mais alta. Muito por conta da energia que as 5.322 pessoas – público oficial do jogo – emanavam da arquibancada até o gramado.

As jogadoras de Corinthians e Flamengo fizeram uma semifinal muito disputada e venceu o time que, mesmo com a vantagem do empate, procurou o gol o tempo inteiro. As atletas corinthianas se emocionaram com o calor da fiel torcida e devolveram o carinho da galera no placar de 2 a 0 e um caminhão de gols perdidos, especialmente no 2º tempo. Essa foi 32ª vitória consecutiva do time paulista, um recorde mundial.

A partida era válida pela semifinal do campeonato brasileiro e começou sob o sol das 14h, uma amostra de insensibilidade da CBF. As corinthiana Tamires foi o destaque do jogo com um lindo gol no final da primeira etapa. Ela e Erika disputaram recentemente a Copa do Mundo pela Seleção Brasileira. A decisão do Brasileirão será contra o time da Ferroviária, que venceu no sábado a equipe do Kindermann. A data da partida ainda será divulgada pela CBF. Os dois times também disputam a finalíssima do campeonato Paulista.  

A agência Saiba Mais em parceria com o portal Fut das Minas cobriu a partida ao lado da torcida corinthiana. Os flamenguistas não somavam 30 pessoas e ficaram localizados na parte descoberta da arquibancada.

Nos ombros do pai, a pequena corinthiana comemora classificação do todo poderoso Timão, na Fazendinha (Foto: Rafael Duarte)

O respeito da torcida em relação às jogadoras e ao trio de arbitragem chamou a atenção logo no início e ia além da campanha Respeite as Minas, lançada em 2018 pelo Corinthians. Numa disputa dura de bola que terminou em falta da flamenguista sobre a adversária, um sujeito esbravejou contido como se estivesse ouvindo uma ópera:

– Não seria a hora de um cartãozinho para ela, senhora ?

A senhora, em questão, era a árbitra Adeli Maria Monteiro. A educação do torcedor não convenceu a juíza. Segue o jogo. Aliás, poucos palavrões foram ouvidos na arquibancada. A cerveja sem álcool vendida no único bar aberto no estádio e a concentração de crianças e mulheres, muitas idosas, inibiram os mais exaltados.

Atenta, a pequena Letícia Silva, de apenas 10 anos de idade, passou os 90 minutos enrolada numa bandeira do Corinthians. É corinthiana desde que nasceu, afirmou com o sorriso no rosto. O jogo contra o Flamengo foi a segunda partida que ela viu no charmoso estádio da Fazendinha. E emplacou a segunda vitória consecutiva:

– Sou pé quente, disse jogando para escanteio a modéstia.

A menina acompanha e sabe o nome das jogadoras Tamires, Erica e Gabi. Quando o repórter compara os times masculino e feminino do Corinthians, Letícia crava uma óbvia análise entre as equipes

– Eu acho que esse ano o feminino está melhor, viu ?

Letícia da Silva está invicta na Fazendinha: dois jogos e duas vitórias. (Foto: Rafael Duarte)

Letícia não foi a única criança a sorrir no Parque São Jorge. Boa parte do público que prestigiou o clássico era formado por crianças. Os sacos de pipoca se multiplicavam na arquibancada. O bordão “Vai, Corinthians!” surgia a todo instante com o timbre agudo e esganiçado dos pequenos.

O futebol feminino vem atraindo um público próprio que não é necessariamente o mesmo que acompanha os jogos do time masculino, em Itaquera. Mayara Dias viu o primeiro jogo da vida num estádio no domingo. Levou o marido, o pai e as duas filhas. Ao final da partida, cantava o amor pelo time a plenos pulmões.

– Vim porque sou corinthiana, meu marido me trouxe e viemos com as crianças. O futebol feminino está crescendo muito”, disse.

Bruna Marques se diz orgulhosa do lugar onde já chegou o futebol feminino no Brasil (Foto: Rafael Duarte)

 Além do perfil do público, chama a atenção o respeito no estádio. A semente plantada no futebol feminino já começa a mirar os marmanjos. Bruna Marques segurava uma faixa com os dizeres “Respeita as Minas” e se disse orgulhosa do patamar que as mulheres vêm conquistando aos poucos.

– Antigamente eram poucas pessoas e hoje o estádio está praticamente lotado, dá muito orgulho. Venho nos jogos do Corinthians e da Seleção. A família está vindo, tem muita criança, é respeito mesmo. Não é apenas a campanha “Respeite as Minas”, é um respeito em geral. Meu sonho é que isso vá para o masculino também. Que a gente leve para os estádios o respeito e as famílias”, afirmou, exibindo a faixa.

 Tamires: “A gente joga por amor”

A atacante Tamires foi o destaque da partida e marcou um golaço no 1º tempo (foto: Bruno Trolo / Corinthians)

Uma das chaves para entender esse respeito e a valorização crescente do futebol feminino está no amor. É o que defende Tamires, principal jogadora do Corinthians e autora do primeiro gol da partida.

Questionada pelo Fut das Minas/Agência Saiba Mais durante a coletiva de imprensa após o jogo sobre o que o futebol feminino está ensinando ao masculino, a atleta destacou o desequilíbrio financeiro entre os gêneros:

“A gente joga por amor. No futebol feminino a questão financeira ainda é muito abaixo do masculino, então se existe algo que vale ponderar é o amor à camisa, não só jogar por dinheiro. Não estou falando que o masculino é assim, mas a gente sabe que é uma situação totalmente diferente que envolve o masculino. Eu sou uma atleta que gosta muito de assistir o futebol masculino, a explosão deles, a gente cresce muito assistindo. Mas futebol é futebol, esse respeito é muito importante. Eu estava até pensando antes de entrar em campo: “seria tão legal se a gente pudesse assistir os jogos do masculino e eles pudessem assistir aos jogos do feminino, fazer essa conexão, esse intercâmbio”, disse.

Para Tamires, o amor à camisa é uma das causas do respeito que o futebol feminino tem alcançado (foto: Rafael Duarte)

Tamires também falou sobre a emoção de voltar a jogar num estádio cheio, com o público disposto a torcer e prestigiar o futebol jogado por mulheres:

– Estou muito feliz, porque hoje, 2 horas da tarde, você ver a Fazendinha lotada do jeito que estava é muito especial, é algo inexplicável, realmente emocionante ver a proporção que o futebol feminino está tomando, criancinhas e idosos acompanhando e torcendo por nós. Isso me faz me doar mais. Fico muito feliz e espero que seja daí para mais. Quando eu sair do Brasil para agora é surreal, está evoluindo muito “, disse.

 

 

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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