OPINIÃO

Urgente

 

Cheiro de bolo perfumando a casa é emergência. Sinal que deu o tempo. Eu quando vou é só rotina, quando volto é emergência. Passo o dia na ânsia do retorno. Não é angústia, mal estar, sofrimento. É, simplesmente, emergência. Você é urgente que chegue logo. Pois você chegar é emergência. Ir é como um dia qualquer.

Mostram-se um tanto quanto urgentes também, a conversa à toa, o nada por fazer, o entrelaçar de dedos e de corpos inteiros. Já amanhã não é emergência. Semana que vem ou ano que vem tampouco. Porque não é certo que virão, apesar do anunciado. Já hoje se faz urgente. Como são urgentes todas as horas em que gastamos o que nos resta de vida.

Preciso fechar os olhos, não que seja emergência. Mas não subestimemos as simples necessidades. Fecho os olhos quando tenho sono, quando sofro, quando amo. Escureço todas essas emergências. É como me esconder e ver do alto: eu mesma e minhas urgências. É como dirigir minha própria existência.

E falo cada vez menos, porque já não é urgente. Ouço mais. Chego a inventar vozes, só pelo prazer de ouvir. Vozes que de tão próximas se assemelham ao meu próprio falar. Nisso, nada digo sobre o mundo que desaba lá fora. A vastidão de tudo que pode ser dito briga com o aconchego do silêncio.

A desesperança não cabe no dizer. Sufoca o pensar, nos faz esquecer as verdadeiras urgências. Agarro-me aos amores. Vejo que não perdi a voz, porque os convoco a seguirmos. Isso não chamarei de emergência, mas de cuidar na vida.

 

 

 

 

 

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Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras

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