OPINIÃO

Vamos falar de Teatro

Rodrigo Bico escreve às quartas-feiras na agência Saiba Mais
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O Rio Grande do Norte tem se destacado no cenário cultural nacional pela escassez de casas de espetáculo para receber obras artísticas cênicas e musicais. Muito se fala no fechamento do Teatro Alberto Maranhão, mas não podemos esquecer o Teatro Sandoval Wanderley (Natal/RN), o Teatro Lauro Monte Filho (Mossoró/RN) e o nunca inaugurado Teatro do Departamento de Artes da UFRN.

O primeiro ponto que gostaria de ressaltar sobre o funcionamento de equipamentos públicos desse porte é o da importância de sua manutenção. Qualquer prédio deve passar anualmente por uma manutenção que garanta a sua vida útil por muito tempo. No caso dos três teatros públicos citados acima, excetuando o Teatro da UFRN, tais estruturas nunca passaram por manutenções que de fato viessem a contribuir com sua usabilidade. No caso do TAM a questão é mais grave por se tratar de um prédio histórico e, quando interditado em 2015, havia passado apenas 11 anos de sua última reforma, ou seja, uma reforma que priorizou apenas a parte visual do prédio e negou toda sua infraestrutura elétrica, hidráulica e de acessibilidade e saídas de emergência, além de agredir fortemente questões patrimoniais ao modificar boa parte da arquitetura original do Teatro ao acabar com o jardim de sua entrada, substituindo-o por uma praça em granito.

O Teatro Sandoval Wanderley não se trata de um prédio tombado, mas abarca parte importante da história do teatro de Natal que foi abandonado pelas gestões de Carlos Eduardo Alves e Micarla de Sousa. Emendas parlamentares e verbas oriundas do Ministério da Cultura foram canceladas por falta de competência, prioridade e vontade política de resolver tais problemas. Na época de seu fechamento os custos nem eram tão altos assim, mas sabemos que a ação do tempo deteriora tais prédios a cada dia que passa e consequentemente tais orçamentos vão encarecendo, aumentando a fundamentação do discurso na boca dos gestores de que tais obras são inviáveis e que o melhor a ser feito seria vender e se desfazer de tais equipamentos, acreditando, assim, na ingenuidade da população. Os burocratas acreditam que o povo não sabe que foram eles próprios que sucatearam esses bens públicos.

O Teatro Lauro Monte Filho, em Mossoró, talvez seja o que tem sua novela mais antiga. O impacto para a cidade não é tão grande como é o impacto de dois teatros fechados em Natal, pois Mossoró ainda conta com o Teatro Municipal Dix-huit Rosado, que mesmo com dificuldades tem conseguido suprir parte da necessidade da cidade. No caso do Teatro Lauro Monte Filho os problemas são bem parecidos com os do TAM e do TSW: falta de manutenção e problemas nas instalações elétricas, hidráulicas, acessibilidade, saídas de emergência e projeto de combate a incêndio, mas reitero que com o passar do tempo surgem novos problemas que sempre encarecem e (in)justificam possíveis superfaturamentos nas obras.

Tais equipamentos passam por um problema fundamental: falta de gestão qualificada. Ao longo dos anos, foram nomeados para administrarem esses espaços pessoas ligadas ao colunismo social potiguar, com pouco compromisso com o bem público, com o Patrimônio Artístico e Histórico do nosso Estado e sem compromisso com a arte produzida em nosso território, com raras exceções. E mesmo estas pessoas pouco tiveram de autonomia para modificar radicalmente o modelo de gestão desses equipamentos.

Por isso não podemos olhar de maneira isolada para a gestão de um equipamento público para as artes, devemos tentar visualizar sua gestão dentro de uma gestão maior para a Cultura do nosso Estado. Os gestores da Fundação José Augusto e das Secretarias Municipais de Cultura de Mossoró e Natal devem preparar para tais espaços um plano de ocupação responsável, com pautas subsidiadas, com projetos de residência artística de grupos de dança, teatro e música e é fundamental que os gestores da Cultura tenham autonomia para gerir minimamente seus Fundos de Cultura com conta bancária própria. Falo isso porque ao longo dos anos acompanhei enquanto artista e, em pouco tempo, enquanto gestor que o dinheiro que Espaços Culturais como TCP, TAM, Fortaleza dos Reis Magos e Cidade da Criança arrecadam não são depositados na conta do Estado. Isso abre brechas para corrupção, mau-uso da verba pública, dentre outros problemas burocráticos, jurídicos e trabalhistas. Se os Fundos Estadual e Municipais de Cultura tivessem uma conta própria, esse dinheiro arrecadado com pagamentos de pauta e bilheteria seriam depositados nessas contas e administrados dentro das regras contábeis de forma a garantir a manutenção e funcionamento básico desses espaços. E ainda poderíamos ter uma fonte de arrecadação que mais na frente poderia se converter em orçamento e verbas para editais, sem que tal dinheiro perca-se no limbo da “fonte 100” e da conta única do Estado e dos municípios. Para tal, precisaríamos de Gestores culturais comprometidos com a máquina pública e não com seus projetos pessoais, precisaríamos também de prefeitos e governadores sensíveis e dispostos a radicalizar no modelo de gestão da Cultura em nosso estado e nos municípios.

Por mais que tenha falado do Teatro enquanto equipamento público, faz-se necessário entender bem o momento em que estamos vivendo e olhar atenciosamente para as produções e espaços alternativos que surgem em nosso Estado. Grupos de Teatro resistem à ausência total de políticas públicas para esse setor nas esferas municipais, estadual e federal, espetáculos estão sendo montados com pouca grana, circulações acontecem graças ao projeto Palco Giratório do SESC. A Casa da Ribeira, Barracão do Clowns, A.Bo.Ca espaço de teatro, TECESol (dos Grupos Facetas, Estação e Estandarte), espaços dos grupos A Máscara, Cia Pão Doce e Escarcéu de Mossoró, Ciranduís em Janduís, Cia Trapiá e os demais grupos do Movimento Cultural de Caicó, Cia Arte e Riso em Umarizal e de tantos outros grupos de teatro que fazem do seu ofício lugar de resistência, suspiros de luta e territórios de vivência.

Que possamos continuar produzindo, que façamos das nossas casas e garagens lugares para espetáculos e que os teatros quando reabertos sejam por nós ocupados, com editais de ocupação e residências artísticas, com pautas subsidiadas e que não estejam somente na mão de produtores, mas que possam ser distribuídas de forma equânime, pois um teatro público não pode estar somente à serviço de fins comerciais e privados, deve ser ocupado por artistas potiguares e suas galerias devem estar sempre lotadas com o nosso povo.

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