OPINIÃO

Vamos fugir, baby? Para outro lugar!

Vamos fugir! Deste lugar, baby!  Vamos fugir! Para outro lugar! Tô cansado de esperar Que você me carregue!…

Como quase todo mundo sabe trata-se da letra da maravilhosa canção de Gilberto Gil que recebeu uma bela versão da banda Skank. Fala de um desejo comum a todos nós, aos humanos em geral, a fuga em caso de necessidade, por razões emocionais, operacionais, ideológicas ou circunstanciais.

Quem nunca pensou em fugir, ao término de um relacionamento amoroso, saindo de um emprego, envolvido em problemas financeiros, em crise familiar, que levante a mão! Todo mundo pensou nisso nem que tenha sido uma vez na vida. Quase sempre não importava sequer o lugar (Guaporé, Marajó, Irajá…) mas sim, a fuga, o ato de deslocar-se do local dos problemas ou da dor e recomeçar (ou apenas espairecer) em algum outro lugar, real ou idealizado.

Mas, chegamos todos, enquanto Humanidade, a um desafio e um conflito de dimensões brutais: hoje, não há para onde fugir. Uma pandemia que afeta a todos os países, alguns de maneira devastadora, joga por terra o citado impulso acima de fugir do local do problema.

É isso. Hoje o problema, além do vírus em si e as mortes e colapso nos sistema de saúde que ele provoca, é o confinamento, necessário, mas, doloroso.

Claro que o confinamento, ou isolamento social ou quarentena, como queiram, é o menos pior dos quadros possíveis. Tem gente que está aproveitando o período para se dedicar a trabalhos antigos, curtir a família, realizar coisas lúdicas ou de lazer.

Mas, há o outro lado. Pessoas solitárias, gente com ansiedade e depressão, pessoas em situação de vulnerabilidade ou situação financeira difícil, isso sem falar dos índices de violência doméstica, que vem aumentando com o isolamento. Enfim, os efeitos colaterais da obrigatoriedade de se ficar trancado (e essa palavra permite aqui diversas interpretações) em casa.

Claro que em casos extremos na vida normal, podemos sempre ameaçar a fuga para outro lugar, ou planejá-la e jamais realizá-la, mas existe sempre a possibilidade de que isso aconteça. Hoje, nem possibilidade. Estamos todos presos e impossibilitados de fugir para qualquer outro lugar.

Recordo de uma meme/piada bem velha e comum: se é para sofrer, então prefiro sofrer em Paris! Que justamente trata daquilo de se deslocar do lugar de onde se sofre ou pelo menos sofrer em outro lugar, mais glamouroso, diferente, com outras possibilidades; Hoje, não. Se for para sofrer, sofreremos confinados em nossas casas ou no lugar que escolhemos para fazer o isolamento e com as pessoas escolhidas para tal.

Essa situação guarda até um paradoxo e uma ironia: Mesmo as pessoas mais ricas também não podem fugir. Tudo bem que curtem o isolamento em mansões ou apartamentos de luxo, cercadas por mimos, mas… não podem, como em qualquer outra situação até agora, se refugiar em Miami, Cancún ou paraísos tropicais ou europeus. Podem estar em confinamento de luxo, mas, ainda assim, confinamento.

Quase diariamente amigos, parentes, filhos, me perguntam em quanto tempo isso vai acabar. Assim, como todo mundo, não sei. O otimismo tenta me convencer que mais algumas semanas e tudo volta aos normal. Já a leitura atenta do noticiário internacional indica que a situação vai se prolongar por meses a fio. Até lá, o desafio de todos nós é de manter a sanidade e cuidarmos uns dos outros.

Quando acabar tudo isso, seja quando for, a gente retoma a música de Gil: Vamos fugir/ Para Qualquer outro lugar comum/Outro lugar qualquer…

 

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