OPINIÃO

Vamos problematizar! Enfrentar o bolsonarismo a gente deixa para depois!

Como muita gente, vibrei com a nota pública que o diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, divulgou em resposta contundente ao despresidente Bolsonaro. Quem leu a nota, viu que ela desafiou Bolsonaro a apresentar provas sobre corrupção na agência ou contra o próprio Barra Torres sob pena de prevaricar. Concordei com quem escreveu que a nota foi uma das maiores humilhações sofridas por um presidente da República no exercício do cargo, na história política do Brasil. Nas entrelinhas e na prática, Jair foi chamado de corrupto, ladrão, covarde, sem caráter, falso cristão e otras cositas más.

Também percebi que a nota ou carta teve um caráter pessoal. Torres lembra ao despresidente que serviu à Marinha como oficial-general. Fala de valores e posturas cristãos.  Achei interessante justamente pelo diretor da Anvisa não utilizar os códigos oficiais da democracia ou do serviço público, que todos os seus críticos usam e o presidente ignora solenemente. As tais e inúteis notas de repúdio, enfim.

Daí minha surpresa logo depois ver gente de Esquerda criticando a nota justamente no que ela tem de melhor e de diferenciada. Militantes que desejavam uma nota em tom oficial, e não passional, como as centenas já emitidas. Criticaram o tom enaltecendo a fé cristã e a lembrança de sua patente.  Enfim, muita gente problematizando uma reação pessoal, justamente uma ação que abateu Bolsonaro, vide sua reação hesitante e “de arrego” após a nota, e que confundiu e paralisou a militância virtual bolsonarista.

Ou seja, parte da militância problematizadora quer o combate a Bolsonaro pelas vias, digamos, oficiais e das instituições e, preferencialmente, com argumentações progressistas.

Também me chamou a atenção a reação de parte da Esquerda à possibilidade da chapa Lula – Geraldo Alckmin. Uma problematização que não acaba. Impressionante como em pleno 2022, com Bolsonaro ainda no poder e com parte do Congresso na mão e tendo aparelhado parte do aparato estatal, ainda tem militância progressista que sonha com uma chapa 100% puro sangue de Esquerda para Lula, como se ele já estivesse eleito e como se a governabilidade vá ser algo tranquilo a partir de janeiro de 2023.

Hoje Geraldo Alckmin, que sempre foi um democrata  e que soube perder uma eleição presidencial para o próprio Lula, não é problema. O problema do país está sentado na cadeira de presidente da República. Bolsonaro e, principalmente, tudo que ele representa enquanto atraso e autoritarismo, é o alvo a ser combatido. Problematizar a vida pregressa administrativa e ideológica de Alckmin é ignorar o real problema.

Essa desconexão da realidade que parte da Esquerda apresenta me preocupa. Até porque essa desconexão gera justamente essa problematização, que tira tempo e energia do que realmente importa: combater o fascismo à brasileira, eleger Lula como possibilidade de retomar à democracia e permitir que ele tenha condições de governar.

Quando Lula tomar posse e começar a governar a gente volta com as problematizações. Primeiro vamos garantir a derrocada do bolsonarismo. Uma coisa de cada vez, senão não vai!

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