OPINIÃO

Veja-se no cinema, veja Azougue Nazaré 

Entrou em cartaz na semana passada em várias capitais do país um filme brasileiro que vem fazendo carreira bem sucedida em festivais aqui e lá fora: Azougue Nazaré. O filme rendeu prêmios a Valmir do Côco, que representa o protagonista, Catita, e foi reconhecido como melhor filme de estreia do Festival Internacional de Cinema de Rotterdam e melhor direção no Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires, além de várias indicações em outros festivais. Tratando de um microcosmo pouco conhecido do resto do país, a zona da mata pernambucana, é particularmente positivo que Azougue tenha se revelado uma pérola internacional.

No roteiro, o núcleo principal é formado pelo casal Catita e irmã Darlene. Ele, funcionário de uma usina local, que tem como lazer o maracatu, manifestação cultural de origem africana que na zona da mata pernambucana atinge o auge no Carnaval, quando o baque solto e os caboclos de lança tomam as ruas de cidades como Bezerros e Nazaré da Mata. Nesta última, onde o filme se passa, Catita é proibido pela mulher de se juntar aos amigos para improvisar e ensaiar o maracatu. Darlene, sozinha em casa e cada vez mais atraída pela igreja, resolve levar o marido para ser curado pelo pastor.

O diretor, Tiago Melo, opta por fazer menos um filme de um grande conflito, e mais um retrato de vida cotidiana bem atual do interior do Brasil. O episódio do sonho de Darlene, por exemplo, se baseia em evento real, que aconteceu no Espírito Santo, e parece engraçado para quem tem acesso a formação e informação. Mas é a realidade de muitas famílias brasileiras, sujeitas a líderes sem educação. Melo tem talentos de produtor e caçador de locações que faz sucesso no cinema pernambucano. Mas são suas qualidades como diretor de cena – ele tem somente atores estreantes em todos os papeis – e roteirista que chamam a atenção em seu longa de estreia.

Um filme que poderia passar como regional demais, não fossem duas qualidades fundamentais: o fino humor extraído do cotidiano e o retrato da guerra religiosa travada em pequenas cidades brasileiras entre as religiões evangélicas e as tradições de matriz africana. Há ainda elementos a compor a obra, como o suspense em torno do desaparecimento dos caboclos de lança, que serve mais para reforçar o contexto de preconceito que marca as religiões africanas do que para impressionar pelo terror sobrenatural. Os aspectos visuais, como cinematografia, direção de arte e figurino, tiram bom proveito do verde da zona da mata e do colorido do maracatu.

Apesar de nunca ter adormecido por completo, o cinema pernambucano pós-Retomada teve sua ousadia característica beneficiada por leis de incentivo à cultura não só nacionais, mas também estaduais. Surgiram, então, os “pais” desse novo cinema: Lírio Ferreira, de Baile Perfumado, Claudio Assis, de Amarelo Manga e Marcelo Gomes, de Cinema, Aspirinas e Urubus, dentre outros. Há quem diga que Kléber Mendonça Filho, o crítico que agora estourou com Bacurau, seja o “tio” que faz a ponte entre essa geração e a dos mais novos, que inclui o diretor de Azougue, Tiago Melo.

Diretor de produção do segundo longa de Kléber, Aquarius, e produtor associado do mais recente, Bacurau, Melo ainda teve a prestigiosa produção de Emilie Lesclaux, dos filmes de Mendonça, em seu primeiro longa. Em seu roteiro simples, para uma obra de pouco mais de 80 minutos, ele acaba revelando que muito dinheiro e publicidade são importantes, mas que contar uma história local, com cinematografia e direção de arte bem trabalhadas e roteiro inventivo, também faz sucesso. É esse um caminho que pode servir a jovens diretores que pretendem fazer carreira internacional, apesar do apelo acachapante das produções globais vazias que imitam o cinema mainstream americano.

 

 

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