OPINIÃO

Vencer o individualismo, tarefa política e existencial

O momento que vive o país exige que saiamos todos de nossos casulos, de nossos lugares de conforto. Estamos diante de um projeto claro de destruição selvagem do Estado brasileiro, de conquistas sociais e civilizacionais a duras penas conquistadas. Jair Bolsonaro, e muitos do que o cercam, são personalidades patológicas, marcadas pelo ressentimento diante do que sabem ser sua precariedade intelectual e política. Pessoas assim não são capazes de atitudes ou ações construtivas, só o que sabem é odiar, detestar, ser contrários e, portanto, destruir. Nesses cinco meses de governo ficou patente que o governo Bolsonaro tem como projeto a destruição de tudo o que, no Brasil, possa se assemelhar a direitos sociais e coletivos. Encarnando o neoliberalismo mais extremado ataca os fundamentos da própria democracia, ao se isolar e até hostilizar os demais poderes da República, ao se recusar ao diálogo e a negociação, ao mesmo tempo em que desmonta as políticas sociais, a previdência social, o Sistema Único de Saúde, as universidades e institutos federais, os serviços públicos em geral, tendo como desculpa uma crise fiscal do Estado, para o combate da qual não tomou nenhuma medida, a não ser enviar um projeto de desmonte da previdência social, que não fará o milagre, nem será a panaceia como vem sendo apresentado. Pelo contrário, para beneficiar as corporações que o elegeu, corporações privadas, que diferentemente das corporações do Estado que ele ataca culpando-as pelo fracasso de seu governo, ele beneficiou com desonerações e perdões fiscais que só agravou a crise fiscal. Ao invés de retirar dos mais ricos, o projeto do ministro Paulo Guedes é penalizar os trabalhadores, os aposentados, os mais pobres, os mais vulneráveis, retirando daí a solução para o problema das contas públicas. Ao não criar alíquotas maiores no Imposto de Renda para as grandes fortunas, ao não taxar o lucro, ao manter os valores irrisórios do Imposto Territorial Rural, ao não taxar adequadamente a transmissão de imóveis e valores, ao não taxar as transações em bolsa, o Estado brasileiro abre mão de agir no sentido de desconcentrar a renda e transferí-la para os que mais precisa, continuando a eterna política, que só teve um pálido interregno nos governos do PT, de governar para quem já possui muito, retirando e abandonando os pobres no orçamento.

Ao lado disso o governo Bolsonaro ainda significa um ataque a valores e práticas civilizacionais que levaram muito tempo para serem reconhecidos e implantados pelo Estado. O caráter conservador e retrógrado do governo se apresenta em todas as áreas. A tentativa de controle ideológico da educação, a excomunhão do que chama de marxismo cultural e da chamada ideologia de gênero, com a implantação da tal escola sem partido, que na verdade é a implantação de uma educação tecnocrática, individualista, acrítica e privatista, o abandono de políticas em favor das comunidades indígenas e quilombolas, a perseguição às bandeiras feministas e do movimento LGBT, o estímulo a violência, com uma verdadeira apologia ao armamento, a criação de condições, com a liberação da posse e porte de armas para várias categorias, da formação de grupos paramilitares por todo país, a tentativa de acesso a dados sigilosos de estudantes, são claros retrocessos nos direitos e liberdades públicas. Nenhum governo anterior, por mais conservador, mesmo nas ditaduras que vivemos, apresentou um rol tão grande de ações que levam a destruição do Estado e da própria malha social, como esse. A isso ainda se soma a mais lesiva política externa já empreendida para a imagem do país no exterior e para sua inserção soberana no conserto internacional. Estamos diante de um governo que tem que ser rápida e decisivamente confrontado, um governo que tem que ser combatido, que tem que ser impedido de alcançar seus objetivos.

Para isso é fundamental a ação coletiva, o reencontro desse país com as ruas e com o exercício da política. Se a criminalização da atividade política levou a abstenção e abstinência política de cerca de 40% da população, o que permitiu a eleição de alguém tão despreparado e um projeto tão disfuncional para o país, é a volta dessa população ao exercício da política que se tornará fator decisivo para que superemos com os menores danos possíveis essa quadra tão delicada da vida política nacional. Os pendores golpistas e autoritários do presidente ficaram explícito ao assumir como sua e publicar uma carta renúncia anônima em que ataca todas as instituições e convoca uma espécie de levante, de putsch de suas hostes e hordas fascistas para o dia 26 de maio. Só barraremos qualquer tentativa de subversão da ordem democrática se estivermos dispostos a sair de nosso enclausuramento no mundo e na vida privados e voltarmos a exercer a democracia na prática, no cotidiano. Se juntar, se solidarizar, formar coletivos, discutir, atuar juntos é garantir na prática que a democracia sobreviverá e, com ela, nossos direitos e o Estado democrático que queremos ver a serviço dos interesses da maioria da população e do país. Temos que impedir que o ministro da economia continue entregando o país aos interesses internacionais, interesses que ele representa. Sua proposta cínica de fundir o Banco do Brasil com o Bank of América, como fez ao dar Embraer para a Boeing, tem que ser impedida de se concretizar, e quem pode fazer isso, e precisa fazer isso, é a população brasileira mobilizada. Abrir mão de um banco público significa penhorar qualquer possibilidade de uma política e uma vida econômicas autônomas.

Se a operação Lava Jato, auxiliada pelos meios de comunicação, levou à associação necessária entre exercício da vida pública e corrupção, se conseguiu colar nas posições e partidos de esquerda a pecha de corruptos, todos que não são corruptos, mas que sabem da importância da manifestação política, devem sair a público para desmentir, na prática, essa associação esdrúxula, que já faz parte do senso comum, entre exercício da política e desejo de enriquecimento ilícito. É preciso que se renovem os quadros políticos num país em que um partido que se diz Novo nos serve como cardápio o velho neoliberalismo econômico somado a um conservadorismo moral e civilizatório. É preciso que mais gente se interesse pela política e isso só pode acontecer com o fim da letargia dos movimentos sociais, do movimento estudantil, do movimento sindical de várias categorias que estão ligadas a um bom funcionamento da máquina pública. Diante da razia que a Lava Jato fez nas lideranças da esquerda é preciso que novas lideranças surjam e elas costumam se formar em embates como esse que se torna urgente, nesse momento. É preciso que o movimento que levou a criação do SUS, de defesa de um sistema de saúde público e inclusivo volte às ruas. É preciso que o movimento antimanicomial volte às praças para impedir o retrocesso na área da saúde mental, atacada pelos preconceitos mais obscurantistas de setores religiosos interessados em auferir vantagens financeiras com o domínio da oferta da “cura” nessa área. Se o movimento indígena já começa a se mover, é preciso que o movimento negro, o movimento de mulheres, o movimento LGBTTI voltem às ruas para defenderem os ganhos humanistas e civilizatórios que representam. Os movimentos contra a violência, em favor de uma cultura de paz devem se fazer ouvir. É preciso que o movimento dos sem terra e dos sem teto colaborem na elaboração de um novo projeto coletivo, que está faltando às esquerdas. Sem esse projeto ficamos apenas reagindo atônitos, de afogadilho, a todas as medidas de destruição que estão sendo tomadas todos os dias, ainda mais agora que o governo parece viver um clima de urgência, de dias contados. Fazer todas as maldades, tentar tornar a destruição irreversível, antes que tenham que abandonar o barco.

Esse projeto não pode se assentar em premissas e utopias ultrapassadas, que foram derrotadas historicamente. Devemos aprender com essas derrotas, colher entre os escombros que deixaram as brasas de esperança, as forças utópicas que as moveram, mas colocá-las a serviço de projetos possíveis e viáveis para o presente, abrindo mão dos sonhos de mundos perfeitos e ideais que nunca conseguiremos alcançar. Sabermos que, antes de tudo, antes de pensar em avançar, temos que defender o que conquistamos, mas ao mesmo tempo fazer dessa defesa a oferta de saídas possíveis. Está na hora das esquerdas terem projetos consistentes na área de realização de um reajuste fiscal, de uma política fiscal, assim como projetos na área da segurança pública, na área da comunicação social e dos meios de comunicação, projetos que retirem essas áreas da hegemonia do pensamento conservador. Não ter sido capaz de ter políticas consistentes nessas áreas foi um dos grandes erros dos governos do PT e que abriu flanco para que tudo o que fez fosse obscurecido e distorcido. É preciso ampliar as políticas de transparência e controle social da administração pública, bem como da gestão das empresas estatais. É preciso reformular e dar eficácia a regulação das empresas concessionárias de serviços públicos. É preciso efetivamente atacar o problema da concentração da propriedade e da riqueza no país, sem o que nenhuma proposta política mais progressista sobreviverá.

Mas o que temos que fazer agora é rompermos esse individualismo que é um produto do modo de produção de subjetividades neoliberal. Não podemos acreditar que podemos ser felizes sozinhos, que podemos transformar nossa vida em uma obra de arte enquanto na minha vizinhança a maioria das pessoas vivem de maneira miserável. O egoísmo das classes médias, sua incapacidade de se solidarizar com os mais pobres foi um dos elementos que nos levou a esse clima social que favoreceu o golpe de 2016. A solidão se torna a condição existencial de muitos, levando ao ressentimento, ao medo ou até ao ódio a tudo que se faça em coletivo. A solidão ressentida está na base do ataque de muitos nas redes sociais a toda e qualquer forma de organização social ou de movimento social. As redes sociais alimentam esse egoísmo, esse fechamento egóico e narcisista, nessas redes com milhares de amigos que não se conhecem e não saem do lugar abrigado e de conforto do quarto pessoal e do por trás de uma tela de computador, onde se pode atacar a todos sem sofrer nenhuma consequência. O sair à rua, o participar de coletivos implica em correr riscos, em se expor ao contraditório, a alteridade, a diferença. Muitos dos doentios militantes pró-Bolsonaro, não só se escondem no anonimato das redes sociais, como por trás de avatares, de identidades falsas, de onde podem fazer circular mentiras, de onde podem difamar, agredir, assediar as pessoas sem sofrerem consequências. O antídoto para isso não é a guerra nas redes sociais, é sairmos dela e irmos para a vida real, onde aprenderemos muito mais sobre a vida e sobre a realidade. Mesmo escrevendo nas redes sociais nunca abri mão da palavra pública, da palavra em público, do contato com as pessoas, porque entendo que o exercício da política passa pela sedução do outro, pelo corpo a corpo com o outro, pelo desejo, pelo afeto, pela emoção, pela comoção.

O que ocorreu nas ruas de todo Brasil, quarta-feira, dia 15 de maio, é um exemplo do que é preciso fazer para enfrentar esse governo e suas políticas mortíferas, de destruição, de ódio, de preconceito, de violência, de arrogância obscurantista. É preciso demonstrações massivas de ações coletivas, de ações construtivas, de convivência pacífica da diversidade de opiniões e de posturas políticas, demonstrações coletivas de crítica, de humor, de riso, de repulsa e de oposição ao que emana desse governo de extrema-direita. É preciso construímos nas ruas uma outra democracia possível, uma mudança no clima de ódio e confrontação que alimenta e sustenta esse governo e quem a ele permanece fiel. É preciso trazer para as ruas aqueles que se mantiveram apáticos e arredios, enojados da política. Num momento em que quase todos estão sendo atacados em seus direitos e em seu futuro é hora de trazê-los de volta ao espaço público. Todos aqueles que estão ameaçados de nunca mais se aposentar, todos aqueles que se encontram desempregados, todos aqueles que ficaram sem médico com o fim do Mais Médicos, todos aqueles que querem participar do programa mas não têm acesso ao Revalida, todos aqueles que ficaram sem remédio graças ao fim do Farmácia Popular, todos aqueles que ficaram sem casa com o fim do Minha Casa, Minha Vida, todos os que ficaram sem formação técnica com o fim do Pronatec, todos que não poderão entrar na universidade com os cortes de recursos e o fim dos programas de assistência estudantil, todos os que não farão uma pós-graduação com o corte das bolsas de estudo, todo os que serão atingidos pelo abandono das políticas ambientais, todos aqueles atingidos pela disseminação de uma agricultura super-envenenada, os indígenas, os quilombolas, os negros, as mulheres, os homossexuais, todos que viram as políticas públicas setoriais desaparecerem e a perseguição e o preconceito crescer, todas as vítimas da licença para a polícia matar e das armas de fogo permitidas em larga escala, os artistas e produtores de cultura perseguidos e sem apoio do Estado. São muitos os que se podem juntar a nós, vamos todos juntos, que desse momento tão triste do país podem surgir muitas ações e propostas de melhorias do país. Precisamos recuperar a coragem e disposição para a luta, precisamos recuperar a esperança, e só juntos podemos fazer isso acontecer. Dia 30 de maio, todos juntos novamente nas ruas do país.

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Durval Muniz de Albuquerque Jr. é professor, historiador e escreve aos domingos

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