CULTURA

Venda de livro de poemas vai beneficiar escola de comunidade quilombola no RN

O médico obstetra e professor universitário Reginaldo Antônio Freitas resolveu estrear na literatura com uma ação social. O livro de poemas “Bom Tempo”, lançado pela editora Jovens Escribas no próximo dia 20, terá a arrecadação doada para a Escola Municipal Santa Luzia, a única localizada na Comunidade Quilombola Capoeiras, em Macaíba (RN).

O lançamento será um drive-thru no Colégio CEI da Romualdo Galvão, em Natal, das 16h às 20h. Os carros devem chegar pela nova entrada da escola, na avenida Prudente de Morais, para compra do livro e autógrafo do autor.

O trabalho é uma reunião de textos poéticos escritos nos últimos dois anos de forma despretensiosa. Reginaldo explica que ao mostrar para amigos algum dos poemas sempre lhe perguntavam quando publicaria, ao que sempre respondia “quando Deus der bom tempo”.

Os versos são reflexões pessoais sobre vida, amor, paternidade, trabalho.

“Eu me sinto confortável em dizer que é muito pessoal, sentimental, sobre as minhas relações em diferentes campos da vida. Mas depois que você publica, passa a ser de quem lê e se coloca naquelas palavras. Acho que isso é a coisa mágica da poesia. A arte tem dessas coisas”, resume o autor.

A iniciativa de apoiar a escola é a primeira de várias que devem ajudar na viabilização de uma reforma e estruturação do espaço. A ideia surgiu a partir da atuação de Reginaldo na Comunidade Capoeiras, por meio do Programa Barriguda, uma parceria da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e do Instituto Santos Dumont  (ISD), do qual ele é diretor.

O Barriguda integra ações de educação, pesquisa e extensão, incluindo a participação de estudantes de graduação de diversos cursos.

“Resolvi ter essa iniciativa pessoal porque não tinha como fazer isso de forma institucional. A Prefeitura é parceira e começou um levantamento pra todas as escolas do município. A Escola Santa Luzia precisa de grande transformação na rede elétrica, nos espaços de convivência e banheiros. Mas tem coisas que não vai conseguir comprar, como computadores, brinquedos, jogos educativos e materiais didáticos estratégicos que respeitem a cultura quilombola, que resgatem os valores”, explica o professor, destacando que há intenção também de contratar artistas do grafite para trabalhar os valores da comunidade nos muros.

“A escola só tem o Ensino Fundamental 1, mas ela pode se transformar num ambiente de múltiplo uso comunitário”, completa.

O Programa Barriguda é desenvolvido desde 2015 e engloba a disciplina eletiva da UFRN “Competência cultural na atenção à saúde da mulher quilombola”. O professor explica que o conceito de competência cultural envolve o reconhecimento das características culturais dos grupos sociais e de suas diferentes necessidades. Portanto, as atividades dentro da comunidade são realizadas a partir das demandas dos cidadãos e com construção de vínculo entre moradores e estudantes.

“As ações não podem ser paternalistas. A gente precisa entender de verdade as necessidades da comunidade, obedecendo a esse princípio. Não é a gente de fora que chega e diz o que eles precisam. Isso não é respeitoso, não é ético”, ressalta, ao contar que, dessa forma, conseguiram alcançar algumas metas de atuação, como sistema de vendas online de produtos da comunidade durante a pandemia, além de estruturação do atendimento pré-natal, trabalho de saúde reprodutiva com adolescentes (após identificar que 68% das grávidas eram adolescentes) e até a reativação de uma casa de farinha.

A iniciativa acadêmica já rendeu três premiações ao grupo. Em 2019, foi contemplado com o prêmio de melhor trabalho científico do XVI Congreso Latinoamericano de Obstetricia y Ginecología de la Infancia y la Adolescencia, do Paraguai; em 2018, recebeu prêmio da Organização Pan-Americana da Saúde e do Conselho Nacional de Saúde; e em 2017, foram contemplados com o prêmio irlandês da competição “Projects that Work” promovida pela Foundation for Advancement of International Medical Education and Research (Faimer), Fundação internacional comprometida a melhorar a saúde global por meio da educação.

Desde 2015, ano de início do projeto, não houve mais casos de eclâmpsia, nem de óbitos maternos na Comunidade Quilombola de Capoeiras.

Em 2018, uma dissertação de mestrado foi defendida dentro da comunidade. Carolina Damásio apresentou o trabalho “ ‘Eu não tinha a menor ideia do que eu podia aprender aqui…’ – Educação das profissões da saúde e competência cultural”.

 

 

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Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais

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