OPINIÃO

Verticalização x microclima urbano: considerações técnicas de apoio à revisão do Plano Diretor de Natal

Por Flávia Laranjeira Costa de Assis

Ao planejar e orientar o crescimento das cidades, o poder público deve buscar conciliar os interesses por vezes conflitantes dos diversos setores que usam e se apropriam do espaço urbano, evitando os impactos ambientais negativos e não previstos na disputa política que determina as decisões sobre a regulação urbanística. A presença de recursos naturais, como praias e áreas verdes, é valorizada pelo mercado imobiliário e age como atrativo na busca de áreas diferenciadas para a construção civil, que busca localizar seus empreendimentos nas áreas mais rentáveis da cidade, ou seja, as que têm maior possibilidade de retorno lucrativo aos investidores.

Este texto reúne informações básicas sobre o funcionamento do clima urbano e suas modificações em decorrência das transformações do espaço (com foco na ideia da verticalização) e busca auxiliar na compreensão do fenômeno apresentado, de modo a colaborar, ainda que superficialmente, na fundamentação das discussões atuais em cima do processo de revisão do Plano Diretor de Natal, nosso instrumento maior do planejamento urbano municipal.

Primeiramente, é preciso compreender que o clima urbano é derivado das transformações no ambiente natural e sua substituição pelo ambiente construído, que impõe modificações no comportamento dos elementos climáticos locais, mesmo em cidades como Natal – município litorâneo de médio porte que se caracteriza pelo clima tropical quente e úmido. Tais características impõem a necessidade de se buscarem estratégias bioclimáticas (ou seja, respeitosas e adaptadas ao clima local) a fim de proporcionar o conforto térmico da população que habita esses espaços, especialmente a promoção de sombreamento e ventilação e a diminuição dos ganhos térmicos das superfícies externas às edificações.

Nesse sentido, sabe-se que a verticalização é um modelo quase inevitável do processo de crescimento urbano, especialmente em áreas de grande especulação e valorização imobiliária (como é o caso das áreas em disputa no atual processo de revisão do plano diretor), sendo entendida como símbolo de uma suposta modernidade que se motiva muito mais pelas múltiplas estratégias de acumulação do capital imobiliário urbano do que pelas demandas socioespaciais da cidade em si. No entanto, por modificar a configuração espacial, este fenômeno pode comprometer a qualidade ambiental da cidade em função das alterações microclimáticas que ocasiona, especialmente na temperatura e umidade do ar e na incidência e velocidade dos ventos, mas também pelo aumento da geração e concentração de resíduos, poluição do ar, sobrecarga da infraestrutura, aumento do tráfego e da presença de veículos, retirada da cobertura vegetal natural do solo e sua consequente impermeabilização.

O crescimento das cidades, por sua vez, e a consequente transformação do espaço geográfico gera contrastes entre a cidade e seu entorno, que se materializam nos diferentes tipos de cobertura do solo e na substituição das áreas verdes por construções e solo impermeabilizado, fatores determinantes na formação das ilhas de calor e que dificultam a amenização do clima. A entrada da verticalização nesse contexto modifica a rugosidade da superfície (diferença de altura entre as edificações, ‘obstáculos’ à passagem do vento) pelo aumento da presença dos edifícios e, por conseguinte, altera o microclima nessas áreas possibilitando a formação de ilhas de calor, um dos fenômenos mais evidentes das alterações climáticas e típico de cidades em intenso processo de urbanização. Tal fenômeno pode ser melhor verificado à noite, quando as temperaturas nos conjuntos urbanos mais densificados (construtivamente, não necessariamente em termos populacionais) apresentam-se bem mais altas se comparadas com o seu entorno, uma vez que as superfícies urbanas, que se aquecem durante o dia pela absorção da radiação solar, liberam o calor armazenado durante a noite.

É importante salientar que a presença de edifícios de tipologias e configurações diversas, com diferentes alturas (elevada rugosidade), apresenta condições favoráveis à entrada e circulação dos ventos nas áreas internas aos bairros e próximas ao nível do chão, melhorando o conforto térmico na escala do pedestre; enquanto que bairros com intensa verticalização (forte presença de grandes edifícios, em grandes alturas e relativamente próximos um dos outros), caracterizam-se pela baixa rugosidade e alta densidade construtiva, dificultando a entrada dos ventos entre esses ‘blocos’ ou ‘paredões’ edificados que agem como verdadeiras barreiras.

As mudanças no balanço energético da superfície que geram tais ilhas de calor também são influenciadas pelos materiais de construção, que contribuem para a maior absorção e retenção de calor pelos edifícios. Suas fachadas são superfícies que recebem radiação solar direta e indireta o dia inteiro, armazenando calor que, em parte, se transmite para dentro do edifício, e em parte é retransmitido de volta para a cidade no período noturno gerando consequente elevação da temperatura do ar na vizinhança. Ademais, o efeito de sombreamento de uma edificação sobre outra diminui a evaporação e aumenta a umidade do ar e concentração de poluentes, contribuindo para a proliferação de fungos, mosquitos e doenças respiratórias nessas áreas quentes e úmidas.

Ainda em relação à ventilação, esse padrão de ocupação do solo urbano de intensa verticalização pode alterar o ângulo de incidência dos ventos litorâneos em direção à cidade, com os grandes edifícios verticais funcionando como uma espécie de barreira à passagem dos ventos, assim, quanto maior for a aglomeração de edifícios em uma determinada região, mais a aerodinâmica natural será modificada, e isso influencia não apenas o entorno imediato, mas também determina ou altera a circulação e velocidade dos ventos em bairros adjacentes.

Ou seja, o volume de ar circulante entre os edifícios é fortemente alterado pelos padrões de uso e ocupação do solo existentes, além de influenciar na temperatura do ar e no sombreamento: quanto mais altos os edifícios, maiores as mudanças na temperatura do ar e velocidade média dos ventos. Essas chamadas sombras de vento são geradas pelo aumento da densidade construtiva, que diminui a velocidade do ar circulando entre os edifícios, pois o vento, com dificuldade de penetrar o tecido urbano, tende a passar por cima da superfície da cidade, enquanto canaliza-se com altas velocidades nos pontos que consegue penetrar.

Nessa perspectiva, a rugosidade do solo é o elemento que vai determinar a velocidade do vento, pois quanto menos rugosa a superfície do solo urbano, maior será o atrito, e, consequentemente, menor será a velocidade do vento a penetrar o interior da malha urbana, prejudicando as trocas de calor nessas áreas. Em outras palavras, quanto maior a densidade construtiva, a altura e a proximidade entre esses edifícios, maior será a dificuldade de o ambiente retornar a energia térmica acumulada (calor) em direção à atmosfera terrestre, uma vez que a verticalização aumenta a quantidade de superfícies expostas à radiação solar e gera consequente aumento da absorção da radiação por esses edifícios, ao mesmo tempo que dificulta a renovação do ar, concentrando-se quente e úmido mais próximo do solo (que, por seu turno, também age como uma superfície que absorve e transmite calor). Em contraponto, se, por um lado, a distância entre os edifícios melhora a circulação dos ventos, por outro lado aumenta a exposição das fachadas à incidência solar, contribuindo também para o aumento na temperatura do ar.

A previsão da verticalização nas normas e diretrizes para o ordenamento urbano deve ser analisada com muita cautela, especialmente em áreas de fragilidade ambiental ou social. Somente por meio do planejamento racional do uso e ocupação do solo urbano poderemos atingir uma perspectiva de crescimento e desenvolvimento sustentáveis para a cidade. O gabarito, ou seja, limite vertical de altura dos prédios, deve ser um critério determinante, por exemplo, para o dimensionamento do parcelamento do solo em quadras, lotes, praças, logradouros e vias.

Por fim, ao proporcionar a perda da perspectiva de visão do horizonte e da paisagem natural, a verticalização tem impacto na relação afetiva do habitante com a cidade, trazendo perdas para a própria consciência do espaço urbano e para a efetivação dos nossos direitos socioambientais urbanos – que incluem, em última instância, o direito ao meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado para esta e as futuras gerações.

 

*** Arquiteta e urbanista, professora e pesquisadora; Mestre em Arquitetura e Urbanismo (PPGAU/UFRN); membro do Sindicato de Arquitetos e Urbanistas do Estado do Rio Grande do Norte (SINARQ/RN) e colaboradora do Fórum Direito à Cidade/Natal.

 

REFERÊNCIAS DE APOIO:

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