OPINIÃO

Viajar é preciso, aprender é necessário (parte 2): um texto sem importância sobre livros importantes

Como disse em texto anterior, vim a Córdoba, na Argentina, para falar (e ouvir) sobre fenômenos que me (co)movem já há algum tempo: autogestão livresca e literária, circuito de produção, circulação e consumo de livros, mediação editorial etc. e tal.

Desta feita, vim apresentar minha abordagem sobre exercícios de autorias-editorias na nossa cidade Noiva do Sol. Meu ponto de partida foi o de relatos – paciente e gentilmente cedidos a mim – de dois sujeitos que não se contentaram em ser apenas poetas, inventaram também de criar – para nossa sorte e regozijo – seus próprios selos editoriais. Refiro-me a Adriano de Sousa (Flor do Sal) e Victor H. Azevedo (Munganga), autores dos ótimos “Livro de O.” e “Cachorro Morto”, respectivamente, dentre outros.

Trata-se, pode-se dizer, de casos extremos no campo literário potiguar. Um, um cujo lugar se encontra mais ao “centro”, isto é: mais tempo de vida, mais títulos publicados, de maior reconhecimento e visibilidade, digamos assim; já o outro ocupa um lugar mais “às margens”, um lobisomem juvenil que um dia decidiu ser “um homem de uma banda só”, conforme suas próprias palavras.

Diferenças à parte, alguns aspectos em comum: os escassos canais de distribuição e difusão de suas obras, a autonomia soberana do prazer de ler no processo de seleção de títulos a serem editados, as parcerias afetivas fundamentais no empreendimento editorial (leia-se Flávia Assaf e Ayrton Bardayan, respectivamente) e, claro, as mazelas comerciais e financeiras de uma cidade sem maior expressividade de público leitor e de crítica.

Acontece que se o mundo é vasto mundo, ele também é um ovo. Em uma das noites em Córdoba, decido dar um rolé na feira de artesanato semanal que acontece na cidade. O bom de viajar é que se trata de uma mistura de ensaio e acaso. Lá encontro várias banquinhas informais onde se vendem livros novos e usados e – Shazan! – onde autores-editores expõem suas obras.

Converso com um desses sujeitos e confirmo algumas teses sobre o campo das publicações independentes, como por exemplo a afirmação de José Muniz Jr. de que o conjunto desse tipo de impressos tem edição que se pretende autônoma em relação às lógicas do mercado, ao mainstream das empresas privadas, aos grandes conglomerados, às instâncias públicas etc. que controlam a produção, a circulação e a consagração dos bens simbólicos. Em suma, tal como afirma Ezequiel Seferstein, a pretensão de “editar sin patrón”.

Esse sujeito com quem esbarrei casualmente se chama Enzo Javier Meliendre e dele trago para o Brasil os livretos “Incendiario” e “Punto Ciego: aforismos sobre la cegueira”. Em uma rápida leitura, logo confirmo também outra tese sobre as publicações ditas alternativas, que encontrei tanto acá como allá: a afirmação de si por meio de uma relação explícita de diferenciação. O poema “Académicos”, por exemplo, diz:

Los académicos no me impressionam.
Porque a mí la academia me dió la posibilidad
De bla bla bla

Imediatamente, lembro-me de Antônio Ronaldo, nosso poeta potiguar que se inscreve na tradição de uma poesia tida como “marginal” (aliás, é bom lembrar que Antônio Ronaldo publicou em dueto com Adriano de Sousa o “Usura Colonial”). É dele um poema, publicado em “BadulaquesBombonsStarsafins”, ao qual me remeto assim que leio os versos do poeta argentino Meliendre. Reproduzo aqui o poema de nosso potiguar que ilustra justamente essas relações de (des)continuidades entre os lugares enunciativos do campo literário:

OUTSIDER

Sou poeta no capricho
curto esse fado porreta,
bicho!
A poesia nunca é um fardo
mesmo a um bardo
fadado ao manicômio
Sou anônimo rescaldo
Do insepulto underground
Batizado na agonia
Outsider
Forever
Ninguém me verá fardado
Na academia

O que se pode apreender dessas publicações independentes (e toda a safra de designações das quais possam se acompanhar: nanincas, pequenas, alternativas, informais, artesanais, etc.) é que, no âmbito da poesia, trata-se de uma poesia que, tal como uma boa viagem, nos ajuda a escutar as diferenças que estão no mundo. Aliás, já concluindo, cito novamente um outro livro, mais uma descoberta casual desta viagem. Refiro-me a Carlos Skliar, acadêmico e poeta que diz, em uma obra intitulada “Desobedecer el linguaje – alteridade, lectura y escritura”: el poeta, la poesia, es uma voz que escucha.

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