OPINIÃO

Viajar é preciso, aprender é necessário: um texto sem importância sobre livros importantes

Se viajar por si só já é bom demais – a experiência de ultrapassar as fronteiras do nosso mundinho nos permite o desafio de encarar a diferença, o que necessariamente nos possibilita mais aprendizagem e mais conhecimento – , viajar então para um congresso acadêmico é, no mínimo, curioso.

Muita gente pode achar que a coisa se reduz a desfile de egos, sobretudo quem nunca esteve na Universidade. Pois não é. Participar de um congresso é a chance de professores e pesquisadores dialogarem com seus pares, debaterem problemas e delícias de suas áreas, reaprenderem métodos e teorias em seus campos de atuação, e também, principalmente, (re)encontrarem gente.

Vim a Córdoba, na Argentina, participar de um congresso sobre gêneros discursivos e práticas de linguagem. Muito bom apresentar minha abordagem sobre experiências de autores que também atuam como editores na cidade de Natal, Rio Grande do Norte, Brasil. Isso numa sessão em que pessoas de diferentes lugares discutiam coisas como a coleção da Biblioteca Nacional Popular, as operações de retextualização nas traduções de LIBRAS para o português escrito, os livros sobre conjuntura política, as edições literárias na Argentina e as diferentes relações entre autores e revisores. Para uma professora que acredita que para ensinar é necessário estar constantemente aprendendo, eu acho tudo isso um barato total!

Além disso, viajar também se torna oportunidade para, em longos trajetos, pôr leituras em dia. No meu caso, aproveitei para ler “Onde é que eu estou?”, livro que celebra os 80 anos da super incrível Heloisa Buarque de Hollanda. Que bruxa fantástica! Daquele tipo que você pensa: “quando eu crescer, quero ser assim!” Esta professora, pesquisadora, tradutora, editora e poeta mostra, pelo seu exemplo de versatilidade, dentre outras coisas, como é importante tentar escapadas e linhas de fugas das muitas “caixinhas” em que acabamos caindo, seja por imposição de outrem, seja por falta de autocrítica.

Um exemplo que Heloisa nos dá é o caso da cearense Rachel de Queiroz. Em uma entrevista na qual Heloisa fala sobre seu texto “O fardão de Rachel”, a autora de “Explosão feminista” nos conta sobre seu espanto ao conhecer a literatura de Rachel, primeira mulher a assumir uma vaga na Academia Brasileira de Letras. A descrição que Heloisa faz daquela figura “fascinante, oligarca, machista, mas sensacional”, cujas protagonistas eram “mulheres poderosas, valentes, independentes”, fez-me projetar nas minhas próprias impressões da autora de “O Quinze” e “Memorial de Maria Moura”, primeiro e último livro, respectivamente, de Rachel. Em 1996, quando tive a oportunidade de ver minha escritora cearense predileta numa feira do livro, em Fortaleza, e ouví-la elogiando o então presidente FHC, lembro-me de ter ficado frustrada. Tal como disse Heloisa, “eu era boba, parte de uma esquerda boba”.

O que os livros de Rachel e Heloisa nos mostram é que, embora tenhamos nossos pertencimentos identitários, os rótulos de identidade podem ser perigosos, quando não ridículos. E viajar nos ajuda a entender isso: como nós, humanos, somos tão diferentes ao tempo em que também tão iguais.

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