OPINIÃO

Vidas negras…

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Discriminação. Palavra doída, carregada, traz esse componente da discórdia, intolerância e tem provocado muita violência. Eu, acreditem, branco, amarelo apalemado, sei lá, olhos claros, já sofri e senti na pele, várias vezes, desse mal. Fico imaginando meus irmãos pretos.  Todas as vezes que testemunho ou tomo conhecimento de atos de racismo não consigo evitar essa mistura de sentimentos – revolta e impotência – para depois lembrar da cara de pau dos senhores da Casa Grande que têm a audácia de dizer que o Brasil não é racista.

Neste domingo, o Botafogo de Futebol e Regatas, nunca senti tanto orgulho de tê-lo escolhido para torcer, entra em campo com uma camisa preta com os dizeres “Vidas Negras Importam”, ao mesmo tempo que homenageia os profissionais de saúde desse Brasil enlouquecido. O Fogão protesta contra o racismo e contra o absurdo da volta do futebol, se bem ainda acho que a diretoria deveria ter radicalizado e não aceitado jogar, pois tenho certeza que contaria com o apoio de toda sua imensa torcida, enfim, o apoio de todo mundo que ainda tem um pouco de consciência.

Quem foi jogador de futebol, como eu, que pensa, raciocina e analisa, sabe bem do que falo. O racismo entranhado em todos os lugares que você frequenta. As discriminações que sofri foram mais de cunho regionalista, como a vaia histórica que levei no Maracanã (já contei essa história muitas vezes). Essa daqui, não, é dura, machucante. Discriminação racial no mais alto grau.

O ano era 1982, o Alecrim contratou jogadores, bons, de Campina Grande e Caruaru, Fortaleza, Maceió, Recife, montou um belo time juntando com vários potiguares bons de bola – Elói, Odilon, Nilton, Gilson Lopes, e outros. Entre os paraibanos, o lateral esquerdo Geraldo. Negro, baixinho, entroncado, humilde, jogava muito, mas tinha o defeito de tomar muita canjibrina.
Tomou-se de amizade comigo. Muitas vezes eu era chamado para acalmá-lo, pois quando bebia queria sair dando cabeçada em todo mundo. “Chama Edmo, chama Edmo,  só ele para acalmar Geraldo”, e era verdade. Bom, mas a história é outra. Num domingo, fizemos um jogaço contra o ABC, acho, vencemos de 3 a 0, coisa não muito comum. E eu, justo para evitar que Geraldo caísse na bebedeira o convidei para a gente ir no cinema, Rio Grande, ver um filme, depois um lanche na Casa da Maçã e voltar para pensão, ele, e eu para minha casa.

Ele não gostou muito do programa e perguntou: eu não posso tomar nenhuma? Eu, duro, respondi que não, pois se bebesse ele ia aprontar e a diretoria poderia o mandar embora. Eu gostava demais daquele camarada sereno, bem humorado e sempre disposto a ajudar todo mundo (quando sóbrio). Ele, não muito feliz, concordou. Fui para casa, tomei banho ligeiro, com pouca esperança de ainda encontrá-lo na pensão – frente para a Santo Antônio e fundos para a Voluntários da Pátria – ali pertinho da Igreja do Galo, era lá que ficavam hospedados quase todos os “estrangeiros” do Alecrim.

Morando na Gonçalves Lêdo, lá embaixo, rápido cheguei na hora marcada. Geraldinho já estava todo arrumado cheirando a ‘Fogo Paulista’, perfume da gota serena, reclamei, ele abriu aquele sorrisão e disse que precisava andar cheiroso arrematando: “já pensou Edo (era assim que ele me chamava) neguinho, feio, baixinho, liso e fedorento, aí é que não arrumo nada (namorada)”. E deu uma risada. A gente saiu andando em busca do Cine Rio Grande. O filme em cartaz era Conan, o Bárbaro. Ele não era muito cinéfilo, mas gostava da minha companhia.

No final da Rua João Pessoa, onde hoje tem uma agência do Banco Itaú, a gente caminhava na calçada conversando sobre a partida animadamente. De repente, uma viatura (veraneio) da Polícia Militar dobra à toda velocidade (nesse tempo era mão à direita, hoje não pode mais) e com muito estardalhaço freia quase em cima do meio-fio, quase em cima de nós. Levei um tremendo susto. Dois brutamontes descem com cacetete nas mãos, um deles agarra Geraldo pela gola da camisa e o sacode contra a parece. Nem me olham. E gritam palavrões, “ladrão safado, documento, cadê, cadê a corrente da mulher, bora, desemubucha seu nego filho da puta”. O pobre Geraldo quase desmaia de susto, sem reação, caiu sentado na calçada. Nesse momento tentei intervir, um deles me olhou e ameaçou porrada se eu me metesse…“não tem a ver com você, fica na tua”, disse aos gritos.

Insisti, tomei a frente, levei outro empurrão, pedi ao cara para falar, o pobrezinho do Geraldo não conseguiria. De tanto insistir que era engano, engano, gritava desesperado era engano, que ele era jogador do Alecrim assim como eu, que não entendia o que estava acontecendo. O menos ignorante me pegou pelo braço e me levou até a porta da viatura atendendo ao chamado do motorista. Quando coloquei o rosto na porta ele acendeu a luz e me reconheceu. “Peraí, Souza peraí, esse aqui é jogador do Alecrim, eu conheço”, disse. Eu aproveitei e emendei: “Geraldo, apontado para meu amigo velho estatelado, ele, também é, a gente não sabe o que está acontecendo”, disse.

Lá dentro do carro notei a presença de uma mulher. “E ela dizia foi ele, foi ele, apontando para Geraldo…”

Os caras trouxeram o paraibano branco, sem um gota de sangue, para o carro, quase o arrastando de forma violenta. Quase empurraram a cabeça dele dentro, para bem perto da mulher, foi quando eu entendi tudo. A desgraçada tinha sido assaltada, roubaram a corrente de ouro dela, “foi um nego de camisa amarela e calça cinza”, afirmava, a mesma cor da roupa do meu colega. Na hora, subi o tom desesperadamente, desafiando a mulher a afirmar se tinha certeza, e dizendo da nossa condição de jogador. Ela confirmou, depois ficou na dúvida. Estava claro que ela não tinha certeza. Escolhera um negro qualquer para bode expiatório. Foi quando o motorista, experiente, entendendo tudo, falou duro: “A gente devia levar a senhora agora pra cadeia”, olhou de novo pra mim e disse: “foi mal aí, Edmo”. Quer dizer, pediu desculpas a mim. A Geraldo, nada, e muito menos os brutamontes que o jogaram na parede.

O cinema perdeu a graça, não tinha mais clima. Sentei com meu amigo bar, acho que Centro Cearense, muita gente tinha visto tudo, eu que não bebia, pedi duas doses de uísque, fiquei alto (sempre fui fraco pra bebida), Geraldinho tomou várias talagadas de pinga, da branquinha, entre uma e outra chorava, olhava pra mim, dizia: “tá vendo aí, Edo” e chorava, chorava, eu acabei chorando também. Deixe ele na pensão, notei que cada carro que passava o coitado assustado vinha para mais perto de mim. Foi dormir. No outro dia, como se tivéssemos feito um acordo, não tocamos no assunto com ninguém.

PS: tempos depois, me chegou a notícia de que meu parceiro velho de Campina Grande havia morrido. Chorei de tristeza. Geraldinho era como um irmão pra mim.

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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