OPINIÃO

Viva o 7 de Setembro de 2020: Dependência e morte

Passada a fase romântica dos tenros anos escolares quando somos bombardeados com o glamour dos fatos históricos que forjaram a “Pátria”, vemos que na Independência do Brasil – data celebrada hoje, 7 de setembro – não há nada a comemorar. Uma independência mais parecida com, feita por um príncipe português mulherengo e passional montado em um jumento, em nada parecida com a tela heróica de Pedro Américo.

Enfim, hoje, 7 de setembro de 2020 temos menos ainda para comemorar, seja “independência” seja “Brasil”.

Não há o que comemorar com 120 mil mortos pelo Covid-19 em uma pandemia tratada com desprezo e deboche pelo ocupante da cadeira presidencial, que ao contrário de todos os chefes de Estado do planeta, entregou a população à própria sorte e de quebra desmontou justamente o Ministério da Saúde.

Corrijo: ao contrário de todos os chefes de Estado exceção feita a Donald Trump, presidente norte-americano igualmente negacionista e mitômano que desprezou o poder letal do Covid-19 e hoje vê seu país liderar o quadro de óbitos e casos da doença. Trump que é idolatrado pelo bolsonarismo, numa dependência que beira a vassalagem e que em nada  lembra qualquer conceito parecido com “independência”.

Na verdade, voltamos a ter Dependência total dos EUA, como nos anos da Ditadura Militar, como em tempos anteriores nas relações com a Inglaterra. Temos no Brasil os patriotas que amam ser sabujos de outros países. Nem Freud nem Marx explicam.

E temos Morte. De indígenas, cada vez mais negligenciados pelo Estado que deveria defendê-los; de negros, pois é a população negra periférica a quem mais morre em ações policiais no país; de mulheres, posto que os índices de feminicídio no Brasil vem crescendo; da população LGBTQI+, historicamente agredida e oprimida.

Ah, mas é desonesto colocar as mortes que sempre aconteceram ao longo dos séculos na conta de 1 ano e meio do atual desgoverno. Sim e não. A questão é que o desgoverno atual, por se envolver na tal guerra cultural alucinada que eles criaram, explicitamente nega apoio a políticas públicas de enfrentamento justamente à violência contra mulheres e LGBTs, despreza os direitos da população indígena e cultua a violência policial (que estetisticamente mata mais negros periféricos). Ou seja, um governo que compactua com a morte.

É o que temos para hoje: Dependência e Morte.

Por falar nisso, bem provável que o despresidente nesta segunda arrume um jeito de flertar com fechamento do STF e Congresso Nacional, esporte preferido dele quando está entediado.

Ah, sobre a épica cena da independência, também imortalizada em filme, sabe hoje, por historiadores modernos, que as roupas da comitiva era das mais simples, pois estavam voltando de uma viagem cansativa, que durou alguns dias, portanto, mais fácil imaginar que Dom Pedro estivesse com trajes empoeirados e sujos. Além disso, a pose heroica do príncipe regente seria uma impossibilidade graças aos problemas intestinais que o acometiam. Durante a viagem, a reduzida corte teve que parar algumas vezes para que Dom Pedro se aliviasse da diarreia no meio das plantações.

Ah, e quem assinou o decreto de independência foi Leopoldina, que gostava e sabia fazer política. Talvez Dom Pedro estivesse ocupado com as formosuras da Marquesa de Santos. Sabe como é esses cidadãos de bem de família tradicional, não é?

 

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