OPINIÃO

Você sabe quem é Eduardo Ezus ?

Leio em jornal local a notícia de que “Livro recomendado por Juliette passou a ser o mais vendido da Amazon”. Uma manchete sintomática destes tempos contraditórios em que vivemos, nós, sujeitos agentes e assujeitados simultaneamente e, também, simultaneamente atravessados cotidianamente por diferentes e contrastantes tecnologias.

Mas isso pouco importa porque, à revelia dos 29 milhões de seguidores da ex-participante do Big Brother Brasil (tive antes ajuda dos universitários para saber quem ela é) e à revelia de também eu já ter me rendido ao império de Jeff Bezos, vou falar mesmo é sobre alguém ligado a esse velho tema que ainda marca presença neste mundo de influências digitais: livros!

Você talvez saiba quem é a Juliette e quem é o Bezos, mas você sabe quem é Eduardo Ezus? Pois é, estou feliz porque vem aí mais um livro, do qual já falei rapidamente neste mesmo espaço anteriormente: trata-se de Terça Diminuta, desse poeta norte-rio-grandense que chegou chegando. Assim, o artigo de hoje tenta se apresentar mais como um convite: que tal a gente ampliar nosso mundinho de conhecimento para além do Big Brother e da Amazon?

Encaminhei para o poeta (via zap!, já que ele mora atualmente em Mossoró), algumas questões sobre sua existência em torno do fazer literário. Deixo que ele mesmo fale por si:

Primeiramente, que tal você se apresentar? Quem é Eduardo Ezus?

Um inquieto. Um contemplador. A união entre opostos me compõe. Sou alguém que gosta do movimento, da sensação de “estar passando”. Alguém que gosta de janelas e sacadas, dos riscos se movendo rapidamente, ou do arrastar de sandália alheia, de ver isso enquanto a vida também passa. Sou chegado num mercado público, popular, e aprecio os sebos. Sou um leitor, essencialmente. Dos livros. Da vida. Das pessoas. Das paisagens. Das ruas. Dos sons. Escrevo também, em prosa e em verso. Mas sou um poeta, existencialmente. Potiguar, sim. Mas, concretamente? Não sei não, viu. Vou me diluindo. Posso dizer que sou água de copo virado, escorrendo da mesa pra o chão: no espaço da liga cristalina, eu invento as coisas que vou fazendo: uma revista, uma banda de rock, um livro, umas conversas – e as amizades…

Quais suas preferências como leitor?

Sou um leitor em formação, desde sempre. Talvez pela lacuna escolar, carrego essa sensação de algo que de fato “está faltando”. Por isso, não posso dizer que tenho uma formação cultural, propriamente dita. Mas puxo da estante Bilac e Leminski. Depois deságuo em Drummond, que é onde acaba tudo – ou começa… Marcelino Freire: o ponto final é onde tudo começa. Assim é a poesia de Drummond em mim: quando (me) acabo nela, estou só começando. Murilo Mendes é aquele também a quem tenho afeição grande. Zila Mamede. Orides Fontela. Raduan Nassar. Noll. Flaubert. Racionais MCs, e onde mais houver encanto de palavras, vibração, trânsito de significados, eu irei procurar estar. Costumo me acompanhar sempre de dois ou três livros no modo “on”, geralmente um de contos/crônicas/ensaios, um de poesia e um romance. E costumo puxar coisas aleatórias da estante e ler na página exata, procurando ver se aquela mensagem era mesmo pra mim, ali, naquela hora, pá, puf! (rs) Nem sempre é. Mesmo assim, é um momento que me permito e acho boa essa aleatoriedade. É um deleite se mover pelos livros.

Além de poeta, você também é editor da revista digital Tamarina Literária. Que tal nos contar sobre isso (quando surgiu a revista, como funciona, quais as dificuldades, quem atua com você, o porquê desse título etc.).

A Tamarina Literária teve início enquanto ideia em 2020, quando passei a estar mais em contato com o mundo virtual, pelo motivo que todos já sabemos – a pandemia. O nome é um trocadilho com “marina”, relativo a mar, pelo fato de eu ter vindo de Natal morar em Mossoró, onde vejo muitos pés de tamarina (ou tamarindo, para alguns). Então, é como uma junção desses dois lugares onde resido: o litoral e o sertão. Assim, no dia primeiro de janeiro deste ano, 2021, criei a página, e fui procurando dar forma durante o restante do mês, planejando como seria o babado. Em fevereiro, as publicações começaram. Poesia. Conto. Crônica. Resenhas. O que consigo vislumbrar como literário, procuro tornar parte da Tamarina. Com tempo, além dos textos que recebo como contribuições esporádicas, tenho o apoio de alguns escritores que escrevem regularmente. A revista funciona no site Medium, um site essencialmente de escritores e leitores, gratuito, como uma rede social de blogs e páginas. A Tamarina é uma extensão dessa minha inquietude. Nela, leio os textos que recebo, faço as publicações no site e no instagram, e o que mais for preciso para fazê-la continuar. A parte funcional, vamos dizer assim, é toda feita por mim. No momento, estou pensando formas de criar um domínio próprio e quem sabe estender o projeto. A dificuldade maior é financeira mesmo.

E como foi o processo de elaboração desse seu primeiro livro? Conte tudo, desde o lampejo da ideia inicial até o lançamento. Não esqueça o porquê do título.

Terça Diminuta é um nome emprestado da teoria musical, mas que se aplica bem a este primeiro registro, pela forma – o terceto – e pela ideia minimalista, por isso diminuta. O livro em si, como reunião, surgiu a partir de uma chamada para publicação da Editora Primata. Logo após, vieram os editais viabilizados pela Lei Aldir Blanc, e foi quando tudo se tornou mais concreto. Boa parte do livro foi escrita há quase uma década, quando passei a escrever poemas no Recanto das Letras. Dos textos que guardei da época, escolhi os que entraram para o Terça Diminuta. Uma questão era a capa, pois eu sentia que o livro trazia um lado meio zen, oriental, algo de leveza, e não queria algo que se distanciasse disso. A fotografia é de autoria de Mariana Gandarela, que no mesmo período, também fez algumas fotos para a capa do livro de William Eloi, que será lançado em breve, também. Quando olhei a foto, senti que traduzia bem o “teor” do livro. E assim, ficou. Comigo, nesse projeto, também está presente João da Rua, a quem tenho muito apreço, e com quem já havia falado, ainda nas fases iniciais de reunião dos poemas, para que fizesse uma apresentação do livro, o que resultou no prefácio “Musica de Leveza”. E, por afinidade e por aproximação, convidei a escritora Cellina Muniz para ler o livro, e se por acaso ouvisse algo por entre os versos, alguma música, ainda que leve como a leveza que João menciona, comentasse na orelha do livro. A produção do Terça Diminuta foi esse conjunto de afeições. Nele, estão poemas em que procuro transmitir alguma dimensão a quem lê: seja contemplativa, existencial, estética, sonora. Ao mesmo tempo, são poemas que carregam um certo teor oriental, atualizando os cenários, trazendo-os para a nossa localidade.

Como você avalia o campo literário no RN?

De um ponto de vista muito particular, puramente pessoal, avalio a literatura potiguar como algo em constante ascensão. Os meios de comunicação, as formas de publicar, as movimentações ideológicas que geram as demais movimentações, tudo indica algo potencial. Também vejo uma maior organização de grupos, sobretudo através desse incentivo que foi a lei Aldir Blanc, quando ficou muito claro o tanto de arte que é feita aqui – e incluo a este conjunto chamado “arte”, a de escrever. Produção e organização são dois aspectos que impulsionam qualquer movimento, e vejo isso acontecendo neste momento, aqui no RN.

Eis aí, minha gente, mais um poeta na praça (e que também está na rede como @ideia.cronica). Um livro sempre pode ser motivo de comemoração. E o Terça Diminuta, de Eduardo Ezus, está em fase de pré-venda. Quem tiver interesse pode adquiri-lo por meio dos seguintes links:

https://linktr.ee/eduardo.ezus

http://www.saraudasletras.com.br/

E é isso. Fica aí, então, a dica: quando se cansar daquelas baboseiras que de vez em quando surgem aqui e ali nas vitrines do Facebook, Instagram ou Twiter, que tal parar, largar tudo e ir ler um livro? Vai por mim: é sempre bom perceber que o mundo não se resume aos Big Brothers da vida. Ou ao Amazon

 

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