OPINIÃO

Vou ali e volto já!

“Amorzinho, volta antes das 22h? Dependendo de onde estiver, melhor eu ir te buscar, porque tá muito deserta a rua, depois da chuva que deu”, digito, com todas as pontuações necessárias ao entendimento, e envio para minha filha, de 15 anos, pelo whatsapp.

“Dboaaaa (seguido de dois corações amarelos)”, ela me responde. E eu continuo: “Adoro seu jeito de me responder sem me dizer absolutamente nada…Sei nem onde está ou que horas volta! Maluquinha linda que eu criei, hein?” – concluo, sem qualquer resposta.

Um amigo me disse que os adolescentes de hoje se comunicam por onomatopeias. Acho que a maioria se comunica por emoticons, linguagem que não domino de maneira alguma e que só fica mais aprazível quando usada para complementar o sentido de uma frase.

Aliás, tomei um susto nas primeiras redações que li da minha filha, que traziam abreviações absurdas e aceitas pela professora como certo. Foi quando a ensinei que tentasse escrever pelo menos por extenso quando fosse fazer uma redação, o que a transformou numa aluna com diferencial na escrita, acho que em grande parte por conseguir escrever “você” no lugar de “vc”.

No caso em questão (“Dboaaaa”), ela ainda usou umas quatro ou cinco letras, sendo algumas delas vogais, o que, unidas aos corações, deveriam ser motivo de comemoração, não estivesse escondido por trás daquela mensagem uma intenção explícita de me fazer perdoar toda e qualquer falta de informação do paradeiro dela e do horário em que estaria de volta pra casa.

Me lembro até que já existia algo similar na minha época, o famoso “vou ali e volto já”, que eu usava ao sair de casa, e me dava a imensa liberdade de não informar nem onde ia ou que horas voltaria, tática que não funcionava muito bem com minha mãe, nem sempre tão compreensiva. Sorte a de Marina que chegou antes das 22h, nesse dia.

Brinco com minha filha (mas falando sério) que precisa me dizer sempre em que porra de lugar ela está, “pra pelo menos eu saber onde procurar o corpo depois, se ela desaparecer”, dramatizo, pra ver se ela entende minha preocupação e atende a esse pedido simples. Mas nunca é tão simples, não é mesmo? E quando o celular acaba a bateria? Nunca subestime o poder do desespero de uma mãe, sem notícias da cria.

Marina até conhece uma pequena mostra desse desespero, porque já fiz meu primeiro barraco em Brasília quando deu mais de 22h, em outro dia há alguns meses, e ela não chegou e o celular estava desligado. Tentei ver se por acaso ela tinha mandado alguma mensagem pelo instagram, que poderia ter acessado pelo celular de alguma amiga.

Só me entreguei ao instagram exatamente para tentar ampliar as formas de me comunicar com ela que, invariavelmente, não atende ao celular, nem responde minhas mensagens de whatsapp. Finalmente consegui falar com uma amiga dela e acabei indo até o local onde a amiga disse que ela estava, buscar minha filha pelo braço, aos gritos de “você quer me matar, menina!”

Hoje ela vive o primeiro namoro oficial e, apesar de eu ainda não ter conhecido o camarada, me considero uma mãe bem liberal e de diálogo aberto. O difícil é estabelecer esse diálogo em todas essas novas formas de comunicação. Além do mais com códigos indecifráveis como “nmrlv”, que significa, pasmem: “na moral, velho!”

No instagram mesmo, existem limites intransponíveis. O território é dos adolescentes e você, mãe, é uma invasora que não pode, de maneira alguma, por maior que seja a tentação: curtir ou responder a comentários dos colegas dela, participar das enquetes dela, pedir para seguir amigos ou pior, o namorado dela.

Ainda assim, não acho que hoje em dia a comunicação com os filhos esteja pior. Certo que foram destruídas as pontuações, dizimadas as vogais, maltratado o pobre português, mas ampliados os canais, e, com eles, as possibilidades de fazer contato.

Não esqueçam que, no passado, vivemos a liberdade do “vou ali e volto já”, e seus pais jamais teriam como ligar no celular ou, no mais profundo desespero, tentar contato com alguma amiga sua pelo instagram ou facebook, pra saber seu paradeiro. Sem contar os aplicativos que existem para monitorar até a localização deles, se preferir.

E do mesmo jeito como era antes, não nos resta muita alternativa, a não ser preparar os filhos pro mundo, porque nunca foram nossos…

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